Direitos Humanos

TRAVESTI É IMPEDIDA DE VIAJAR POR EMPRESA AVIANCA

Virgínia Guitzel: Sim, eu existo

12 Dec 2014   |   comentários

Com uma grande denúncia difundida nas redes sociais, Virgínia Guitzel, militante do grupo de mulheres Pão e Rosas e também redatora do Jornal Palavra Operária que estaria na mesa de abertura do evento denuncia a empresa AVIANCA por transfobia após a empresa se recusar a aceitar seu nome social e assim impedir seu embarque e a participação no Encontro. Escancarando as diversas dificuldades e constrangimentos de ser travesti no (...)

Hoje começa o XII Encontro Nacional de Diversidade Sexual (ENUDS) em Mossoró, Rio Grande do Norte. Com uma grande denúncia difundida nas redes sociais, Virgínia Guitzel, militante do grupo de mulheres Pão e Rosas e também redatora do Jornal Palavra Operária que estaria na mesa de abertura do evento denuncia a empresa AVIANCA por transfobia após a empresa se recusar a aceitar seu nome social e assim impedir seu embarque e a participação no Encontro. Escancarando as diversas dificuldades e constrangimentos de ser travesti no Brasil.

Nos contou Virgínia que "No dia Internacional dos Direitos Humanos, fui impedida de retirar minhas passagens para Fortaleza para participar do Encontro Nacional Universiário de Diversidade Sexual. A empresa AVIANCA com uma atitude completamente irresponsável com os direitos humanos, sem nenhuma política de afirmação da identidade de gênero e respeito as pessoas TRANS* argumentaram que meu nome estava errado e aparentemente eu não existia. É assim que a empresa se respalda num Estado homo, lesbo transfobico que ignora que existem diferenças concretas na vida das pessoas LGBT das população heterossexual. É com o poder da lei que está a serviço de manter os acordos com a bancada fundamentalista e o Vaticano que nem mesmo nosso nome é respeitado". Continuou "Não vamos aceitar essa naturalização de desrespeito e de submissão! Sim, eu existo. E não sou apenas uma, somos milhares que não vamos mais aceitar nenhum tipo de discriminação! Queremos o direito ao nosso nome, a uma saúde de qualidade que atenda as nossas necessidades como a hormonização com acompanhamento médico e a cirurgia de transsexualização sem nos tratar como doentes. Os recentes dados apontam, que apenas 12 cirurgias são garantidas pelo SUS por ano!!! Uma máquina que impõem que muitas de nós arrisquemos nossas vidas com silicone industrial e com uso de contraceptivos femininos para existirmos como queremos. Uma realidade que tem que mudar".

Virgínia relatou "O que mais me deixa indignada é que a empresa não apenas não quis liberar a passagem, como não se propôs a dar nenhuma solução para esse problema burocrático. Queriam que cancelasse a passagem como se eu fosse errada, para que eu comprasse outra com um nome masculino que não tem nada a ver comigo. Infelizmente, essa não é uma luta apenas contra a AVIANCA, mas contra todo um sistema que constantemente humilha e nos impõem que não tenhamos um lugar nessa sociedade. Querem que sigamos nas ruas da prostituição sem nome, sem registro, sem identidade. Quando morremos, assim como João Donati, Kaique Augusto, Marcos Vinicius, não somos ninguém. Quando Géia Borghi e outras travestis somos assassinadas, nossos algozes fazem de tudo para que não sejamos reconhecidas: raspam nosso cabelo, mutilam nossos seios, nos queimam para desmoralizar nossa liberdade de ser quem somos. A empresa deve se retratar publicamente pela transfobia que desrespeita todas nós travestis e homens e mulheres trans e também mudar imediatamente sua política que ignora o mais elementar dos direitos humanos. Gritamos em alto e bom som: nosso nome SOMOS NÓS QUE DECIDIMOS! Nossos corpos SOMOS NÓS QUE CONSTRUIMOS! E vamos tomar às ruas para que seja aprovada a lei João Nery que se enfrenta com esse burocratismo e todos os conservadores do Congresso Nacional (Feliciano, Bolsonaro, Silas Malafaia) que estiveram durante todo 2013 querendo aprovar a "Cura Gay".

Sobre as políticas públicas do governo, Virgínia comentou: "Dilma gerou muitas ilusões nas mulheres como se fosse uma representante destas na Presidência. Mas seguiu negando em todos os momentos uma bandeira histórica das mulheres: o direito ao aborto. Agora enquanto saem os relatório da Comissão Nacional da Verdade sobre os crimes da ditadura, chora, mas não garante nenhuma mudança. A ditadura militar segue viva na opressão aos LGBT que tiveram seus grupos perseguidos, a homocultura atacada e nossos direitos restringidos. Eramos chamados de "Invertidos e Invertidas", e seguimos sendo tratados como tal. Esse governo não está nem ai para a população LGBT, pelo contrário, não dá um passo para criminalizar a homofobia, muito menos para garantir questões elementares como o direito ao emprego e a saúde, nossa indignação não pode ser apenas contra a AVIANCA, mas principalmente contra Dilma e seus grandes amigos conversadores que seguem sistematicamente dizendo que não existimos e que os crimes de ódio que sofremos não teriam nada a ver com homofobia ou transfobia".

Por fim, concluiu: "Sou redatora de um jornal operário que luta pela independência dos trabalhadores e dos setores oprimidos para arrancar nossos direitos. Denuncio aqui por que esta é uma ferramenta para forjar um movimento LGBT independente da igreja, do Estado e dos patrões. É com indignação que tomamos as ruas em Junho do ano passado e barramos a cura gay e dessa forma que poderemos dar um passo importante aprovando a Lei João Nery para que o Estado tenha que reconhecer que nós - nosso grito de milhares - existimos. Não temos ilusão de que esse Congresso Nacional e o Planalto nos concederão nossos direitos, a política de alianças e manutenção da governabilidade do PT está a serviço da direita retrógrada, racista, machista e homofóbica. Lula e Dilma fizeram acordo com a bancada fundamentalista e o Vaticano na concessão da presidência da Comissão de Direitos Humanos para Marco Feliciano, no veto do Kit anti-homofobia, na criminalização do aborto, na aliança com o PP, partido da ditadura, de Maluf e da família Bolsonaro. Queremos o direito ao trabalho, que os capitalistas nos negam. Queremos o direito a saúde que o Estado nos nega. Queremos uma outra sociedade que devemos construir nos enfrentando com os mesmos inimigos dos trabalhadores: os patrões e seus políticos. Por isso faço um grande chamado a levantarmos uma enorme campanha pela criminalização da homo, lesbo e transfobia e pelo direito ànossa identidade de gênero que, àexemplo dos trabalhadores da USP e dos trabalhadores do Metro, parta dos locais de trabalho e estudo uma mobilização que se posicione contra o machismo e a homofobia para que sejamos, trabalhadores e oprimidos, uma só força contra os patrões e os políticos que os representam".

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