Movimento Operário

TRABALHADORES IMIGRANTES VÃO À CONFERÊNCIA NACIONAL DE TRABALHADORES | ARGENTINA

“Vamos propor uma grande campanha contra o trabalho escravoâ€

23 Jul 2012   |   comentários

O Jornal La Verdad Obrera [1] conversou com Yuri Fernández, trabalhador da fábrica têxtil Brukman (sob controle dos trabalhadores) e Jhovany, Humberto e Nora, jovens trabalhadores têxteis. Todos são trabalhadores imigrantes e militantes do PTS e nos contam por que participarão da Conferência de Trabalhadores convocada para 8 de julho para começar a construir laços de solidariedade com o restante dos trabalhadores e organizar-se em conjunto.

LVO: Quais são os principais problemas que enfrentam os trabalhadores imigrantes?

Y: O principal problema é o trabalho precário e escravo, que por sua vez originam todo o resto, a falta de moradia, de educação. Frente a isso os governos, tanto o nacional quanto o municipal, não fazem nada. Por outro lado, os dirigentes sindicais dos operários têxteis vivem como reis, Jorge Lobais, da Associação Operária Textil ganha 38.000 pesos, enquanto nós não ganhamos mais de $ 3000, numa categoria em que o trabalho precário atinge 80% dos trabalhadores.

J: A falta de moradia é um grande problema. Quando cheguei, por não ter dinheiro para alugar nem mesmo um pequeno quarto tive que morar no trabalho, preso e com muito medo de sair por não ter documentos. Atualmente muitas pessoas trabalham assim, aceitando as condições de miséria que nos impõe a patronal.

H: Nas oficinas se trabalha apertado, mal alimentado. Famílias inteiras vivem assim, sem qualquer assistência médica e sem delegados de base para representá-los.

N: Para as mulheres é mais difícil conseguir trabalho, por que tendo filhos é um problema saber onde deixa-los. Muitas vezes terminamos levando nossos filhos para o trabalho, impossibilitando que possam ir para a escola e que tenham uma vida normal como os demais. A crueldade dos patrões chega a tal ponto de fazê-los trabalhar mais tirando os fios da peça quando esta está terminada. É claro que a maioria de nós somos obrigados a trabalhar em situação precária, pois é muito difícil e custoso retirar os documentos.

LVO: Como vocês veem o discurso nacionalista semeado entre os trabalhadores?

H: Temos muita raiva quando os dirigentes da comunidade boliviana nos dizem que somos todos irmãos e devemos estar unidos. Eles defendem a unidade com os que nos exploram todos os dias. Nossos irmãos são os trabalhadores de qualquer nacionalidade, não os patrões bolivianos. Por isso, devemos enfrentar este discurso defendendo claramente que a classe operária é uma só e sem fronteiras.

J: O discurso nacionalista é usado para os empresários para dividir os trabalhadores. Certa vez, trabalhando legalmente, escutei o patrão dizer: “Bolivianos, peruanos e paraguaios: eu limpo minha bunda com vocês†. Isso, ao invés de nos dividir como desejava o patrão, nos fez unir mais ainda com os demais trabalhadores.

Y: Por outro lado, os governos têm discursos e atitudes discriminatórias. Nós vimos a repressão no Parque Indoamericano levada a frente pelos governos da cidade e da Nação, que provocou a morte de três companheiros. O Governo de Evo Morales, nesse momento, também fez declarações contra os trabalhadores imigrantes ao dizer que os trabalhadores bolivianos deviam se dedicar a trabalhar e não a ocupar terras: nesse momento se colocou do lado dos repressores e não defendeu as famílias. Durante esse episódio, nós nos mobilizamos ao Parque, demostrando que o PTS é um partido que realmente busca a unidade da classe operária.

LVO: Como avançaram do ódio de classe para a militância revolucionária no PTS?

N: O nacionalismo e a religião formaram parte da minha vida durante muitos anos até que eu descobri que somente serviam para as coisas não mudarem. Isso me levou a começar uma experiência com o PTS e hoje luto pela revolução.

Y: Eu vivi uma experiência muito importante que foi a ocupação e controle operário da fábrica Brukman em dezembro de 2001. Ali senti pela primeira vez a necessidade dos trabalhadores façam política por sua própria conta e não confiem nos partidos que representam os interesses dos patrões

H: No meu caso, eu vivi desde muito cedo a exploração, primeiro a que sofriam meus pais, que tiveram que trabalhar muitas horas, doentes, cansados e então eu mesmo comecei a trabalhar quando ainda ia para a escola. Fui crescendo e me dei conta de algo havia que fazer. Conheci os companheiros do PTS e tive acordo com eles de que a luta devia ser por derrubar esse sistema de exploração.

LVO: Que propostas vocês levam para a conferência que convoca o PTS?

Y: No marco da crise mundial, que já começou a afetar a indústria têxtil com suspensões, demissões e fechamento de fábricas, consideramos importante discutir em conjunto com o resto dos trabalhadores a necessidade de realizar uma grande campanha contra o trabalho escravo. Devemos discutir o que fazer frente a estes Estados Capitalistas, as patronais e burocratas sindicais que não nos defendem. Discutir como defender nossos interesses e por em pé.

H: Queremos com essa campanha chegar a todos os trabalhadores da indústria têxtil- de grandes fábricas e oficinas- e ajuda-los a se organizarem por seus direitos: Trabalho não precário e com direitos garantidos, jornada laboral de 8 horas, salário de acordo com as necessidades da família, direito a ter representação sindical de base e documentação rápida e fácil, entre outras coisas.
J: Convidamos todos os trabalhadores a participar da conferência e transformá-la em um espaço para começar a nos organizar como classe trabalhadora e lutar por nossos direitos. Somos conscientes que lutar pelos nossos direitos é também militar para construir um partido de trabalhadores, com um programa de independência de classe e que lute por um governo dos trabalhadores.

[1O jornal La Verdad Obrera é o periódico semanal publicado pelo PTS, organização irmã da LER-QI na Argentina, integrante da Fração Trotskista

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