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Unificar as lutas em curso para dar uma saída de fundo para a crise dos transportes

27 Feb 2014   |   comentários

As manifestações de junho escancararam a precariedade dos serviços públicos. Em meio a escândalos de corrupção, combinado a constantes falhas e acidentes que colocam em risco a vida de milhares de pessoas, o transporte segue sendo uma das principais reivindicações populares. No entanto, de junho para cá a crise dos transportes só se aprofundou. A única forma de dar uma resposta a essa crise é com os trabalhadores do transporte se unindo com a população, ligando a luta pela melhoria dos transportes com a luta por melhores condições de trabalho. As lutas em curso são uma grande oportunidade para colocar de pé essa aliança.

A greve dos rodoviários de Porto Alegre seguida de outras lutas dos trabalhadores do transporte marcam o caminho

Em junho do ano passado, o protagonismo das lutas que resultaram na redução das tarifas em vários estados foi da juventude, devido ao freio imposto pela burocracia sindical. No entanto, um processo de greves que vinha se acumulando antes ganhou novas forças, com um aumento dos movimentos grevísticos e com a greve histórica dos professores do Rio de Janeiro que se transformou numa causa popular. Recentemente, o exemplo foi a histórica greve dos rodoviários de Porto Alegre, com forte organização de base, que combateu os patrões, o TRT, a prefeitura de Fortunatti (PDT) e a burocracia da Força Sindical que dirige o sindicato.

Em Belo Horizonte, os rodoviários paralisaram as frotas na segunda e terça feira (24 e 25/02) por melhores condições de trabalho, fim da dupla função e redução da jornada, interrompendo a atividade em 75% das garagens. No entanto, lá também os trabalhadores não conseguiram impor as suas demandas e o sindicato resolveu suspender a greve para apreciar em uma semana a proposta mediada pelo TRT, que obviamente não atende o conjunto das reivindicações, pois, afinal, é a justiça dos patrões. Lá também estão colocadas lutas ainda maiores. Na capital mineira, o Governo Estadual de Anastasia do PSDB, junto ao Governo Dilma, vem preparando uma grande privatização do sistema metroviário, transferindo todos os recursos públicos para iniciativa privada, sucateando ainda mais o sistema estatal.

Em Curitiba, os rodoviários deflagraram greve na sua campanha salarial a partir de quarta feira (26/02) e a patronal prontamente já acionou o TRT para impor que 70% da frota circulassem nos horários de pico. Nessa mesma quarta, no Distrito Federal, mais de 2.500 funcionários que trabalhavam em empresas pertencentes ao Grupo Constantino paralisaram as frotas devido a vários funcionários terem sido demitidos e até agora não terem tido seus contratos rescindidos para trabalhar nas empresas que ganharam a nova licitação. Já em Pernambuco, foram os metroviários que indicaram paralisação para o próximo dia 1º de março devido àquebra de acordo coletivo e a não presença da patronal CBTU/METROREC na mesa de negociação.

Todo esse cenário deve ainda se desenvolver com as novas campanhas salariais de várias categorias, como no Metrô em SP, podendo adquirir outras proporções se essas lutas confluem com o descontentamento da população nas ruas.

Insistimos: por um Encontro Nacional que unifique a lutas dos trabalhadores do transporte junto àpopulação

Essas lutas não podem seguir isoladas. Isso somente fortalece a política da burocracia sindical (Força Sindical, NCST, CUT, CTB), que busca muitas vezes através desse isolamento, em particular nas empresas de ônibus, fazer campanhas salariais em acordo com a patronal para barganhar míseros reajustes junto aos governos em base ao aumento da passagem, afetando a população e dividindo os trabalhadores do transporte e o povo. A juventude e o povo também não estão conseguindo barrar os novos aumentos das tarifas que começam a acontecer, arrancando de nós uma das conquistas de junho como vemos no Rio de Janeiro.

Antes de surgirem essas lutas do transporte, a partir da agrupação Metroviários pela Base, que impulsionamos no metrô de São Paulo, na edição de janeiro do nosso novo Jornal Via Classista, propúnhamos “que o Sindicato dos Metroviários (dirigido majoritariamente pelo PSTU) convoque um Encontro para articular uma luta efetiva para responder àcrise dos transportes. Um Encontro junto àFENAMETRO (dirigida majoritariamente pelo PSOL), ao MPL, convocando todos os sindicatos e oposições sindicais, independentes de qual central sindical sejam filiados, organizações da juventude e outros†. As lutas em curso, a superlotação, os mantes nos trens e metrôs e os novos aumentos de tarifas colocam como ainda mais urgente essa tarefa, que tem agora que adquirir uma dimensão nacional. Esse é o chamado que Adaílson, líder dos rodoviários de Porto Alegre, faz no box que publicamos nessa página.

Essa é a forma de responder de maneira profunda a crise dos transportes, a piora das condições de trabalho, os escândalos de corrupção, a política de privatização e as péssimas condições dos serviços de transporte impostas pelas máfias dos transportes e pelos governos. Esse Encontro deve ser organizado a partir da base em cada local de trabalho e estudo, exigindo que os trabalhadores e usuários tenham acesso a planilha de contas de todas as empresas estatais e privadas, cadeia para todos os corruptos e corruptores, redução das passagens, um plano de obras públicas para a expansão da malha metro-ferroviária, entre outras demandas.

Uma articulação como essa seria capaz de impor conquistas estruturais dos trabalhadores do transporte como as que coloca Adaílson, impedir os aumentos das passagens e apontar uma saída de fundo para a crise dos transportes. Como dizíamos no Via Classista “Com essa força, podemos transformar numa luta verdadeira o programa defendido por nosso sindicato de Estatização dos transportes com a gestão dos trabalhadores (...) O metrô, assim como a CPTM (trens de São Paulo) e os ônibus não podem ficar nas mãos dos que hoje o controlam. Estatizar é a única forma de que o lucro não determine tudo. Nós metroviários somos os mais capazes para assumir a gestão do metrô e impedir os desvios bilionários pela corrupção, a super-exploração e todo o modelo do transporte hoje. A população também tem que ser parte dessa solução, podendo controlar linhas de ônibus para que sejam voltadas às suas necessidades, bem como sua opinião ter peso nos planos de expansão e qualidade do metrô e da CPTM. A aliança dos trabalhadores do transporte com a população tem a força necessária para conquistar a Estatização dos transportes, sem indenização, com a gestão dos trabalhadores em aliança com os usuários†.

Desde a agrupação Metroviários pela Base, no Metrô em SP, apresentamos essa proposta ao Sindicato dos Metroviários, àqual o PSTU respondeu propondo um “Seminário†, mas sem caráter claro e datas definidas. Uma pequena reunião de dirigentes não resolve o problema. Convoquemos um verdadeiro encontro nacional, profundamente debatido nas assembleias de base, que reúna centenas e milhares para colocar de pé essa luta.

Felipe Guarnieri é delegado Sindical da Estação Santa Cruz, integrante da bancada eleita da CIPA da L1 do Metrô/SP e militante da LER-QI

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