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FRANÇA

Unidade reacionária na marcha de Paris com novos “convidados†que fortalecem a direita

12 Jan 2015   |   comentários

Sem dúvida, o que motivou a população foi o sentimento de repúdio aos atentados. Mas nada disso interessa de fato aos chefes de Estado dos países imperialistas

A nota abaixo foi parte da cobertura ao vivo do portal LaIzquerdaDiario sobre a marcha. Ainda nessa segunda, o portal Palavra Operária contará com novas notas e relatos de correspondentes da França e da Europa sobre como se desenvolveram os acontecimentos nesse novo clima político, no qual o imperialismo busca estabelecer decisivamente um novo consenso reacionário.

Como já antecipamos em matérias anteriores, a marcha que ocorreu nesse domingo pelas ruas de Paris, em repúdio ao atentado contra a revista Charlie Hebdo na última quarta-feira, teve um caráter reacionário pelo sentido de quem a convocou e encabeçou.

A presença dos principais líderes imperialistas da Europa, como Hollande, o ex-presidente Sarkozy, David Cameron, Mariano Rajoy, Angela Merkel, autoridades da Turquia e de muitos outros países, somou-se ainda, para que não deixe dúvidas de seu caráter, o primeiro-ministro de Israel Benjamín Netanyahu e o presidente da Autoridade Palestina Mahmoud Abbas.

Sem dúvida, o que motivou a população foi o sentimento de repúdio aos atentados. Mas nada disso interessa de fato aos chefes de Estado dos países imperialistas, que pensam no cálculo político de como fazer pesar na balança o fato de haver organizado nas ruas milhões de pessoas atrás deles próprio, a linha de frente da reação mundial, no momento em que se planeja e se escreve nessas horas inúmeras iniciativas de reformas aos sistemas de imigração para favorecer a expulsão dos imigrantes e refugiados, ataques as liberdade de reunião, de organização e até, inclusive, de expressão, ainda que digam que são os supostos defensores de liberdade de imprensa...tudo que serve para atacar os setores mais oprimidos da população europeia.

Como dizia o jornal New York Times nesse domingo, Hollande se reuniu previamente com o presidente das instituições judias da França, em que prometeu, se necessário, colocar o exército nas ruas para “defender†os 500 mil judeus da França. Com a típica maneira do discurso das potências imperialistas europeias, a grande mídia aproveita a situação para instalar uma campanha feroz, com uma nova e importante diferença dentro da campanha reacionária e islamofóbica instalada: transformar o atentando em um “ataque anti-semita†(utilizando como pretexto alguns fatos, como o assalto por parte dos supostos atiradores a um supermercado judeu de Paris, e a explosão de um carro bomba em frente a uma sinagoga) e assim defender o Estado de Israel, o agente número um do imperialismo no Oriente Médio, que busca a muito tempo legitimar-se para avançar com seus ataques militares contra a Faixa de Gaza e fortalecer-se como agente regional da ordem, em um momento que os Estados Unidos e a União Européia necessitam impor ordem frente a emergência do Estado Islâmico e a debilidade geral dos Estados na região. Ontem o primeiro-ministro Manuel Valls declarou que a França já está “em guerra†com o Islã radical.

Por outro lado, a imprensa europeia está transformando os famosos desenhos contra o Islã de Charlie Hebdo como um emblema legitimador para continuar e aprofundar sua campanha racista. O jornal satírico francês, conscientemente ou não, com este tipo de “humor†vinha objetivamente alentando esta campanha já antes dos ataques. A republicação massiva destas charges em toda a imprensa do continente é pensada como um gesto bem provocador por parte do “racismo de Estado†dos países imperialistas contra os povos oprimidos do Oriente Médio, tratando de se disfarçar com o discurso de “levar ao limite†a liberdade de expressão. Ao mesmo tempo, segundo a polícia, estas provocação já tiveram seus primeiros resultados(como ocorreu contra um jornal alemão que republicou os desenhos) com ataques de menor escala atribuídos a grupos jihadistas, em uma espiral totalmente funcional aos interesses da direita islamofóbica de radicalizar os ataques contra os imigrantes, os trabalhadores e os pobres.

Segundo o New York Times, o Ministro do Interior da França Bernard Cazeneuve aumentou as medidas de segurança para controlar mais ainda os fluxos de informação e dados via internet, aprofundando ainda mais o sistema de monitoramento e repressão.

Em sua cobertura da marcha de hoje em París, The Gardian cita fontes francesas que estimam que foi a manifestação mais numerosa da história do país, com 3 milhões de pessoas na rua, mais do que a marcha que aconteceu em Paris após a liberação da ocupação nazista por parte das tropas aliadas no fim da Segunda Guerra.

O correspondente do jornal alemão Frankfuter Allgemeine Zeitung que cobria a manifestação, escrevia extasiado: “Na marcha pelas vítimas dos ataques terroristas em Paris, as massas apenas se movem. O estado de ânimo parece mais aliviado e quase alegre. O feito de que tantas pessoas tenham participado é um sinal de mais esperança†. O jornal, que é o meio de comunicação dos banqueiros de Frankfurt, estabelece a quantidade de participantes da manifestação em 1,5 milhões, a metade do que diz o The Guardian de Londres, e em seguida publica uma foto de Angela Merkel se abraçando com Hollande como num gesto de “alívio†.

Continua o jornal alemão “El Mekki, um químico de 47 anos que trabalha em uma grande companhia farmacêutica francesa, discute com uma mulher negra a seu lado. A mulher conta a ele que em seu trabalho foi questionada por sua fé muçulmana. “Sim, já sei o que você quer dizer, mas hoje estamos unidos contra os extremistas. A maioria silenciosa deixou de ser silenciosa†, disse o francês, que nasceu em Marrocos, e chegou a França com cinco anos de idade. Sua mulher quis ficar em casa com seus três filhos, “tinha medo†. Mas o pai foi para demonstrar presença. Como membro da central sindical CGT, participa muito de manifestações de rotina e organizadas, trabalhistas ou por conflitos mais políticos. Mas hoje é diferente: “Se trata de nossos valores, os que os muçulmanos aqui na França compartilhamos com todos os dos demais países†, diz Mekki, que acrescenta que preferia esquecer a presença do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, a quem rechaça†.

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