Internacional

Uma ordem mundial em disputa na Ucrânia

17 Sep 2014   |   comentários

Como resposta à crescente implicação militar russa no conflito ucraniano, a Aliança do Atlântico (OTAN) se prepara para acelerar seus planos de criar uma força de reação rápida, com equipamentos leves e composta por “vários milhares†de soldados, capazes de serem destacados em pouco tempo contra potenciais agressões russas.

Como resposta àcrescente implicação militar russa no conflito ucraniano, a Aliança do Atlântico (OTAN) se prepara para acelerar seus planos de criar uma força de reação rápida, com equipamentos leves e composta por “vários milhares†de soldados, capazes de serem destacados em pouco tempo contra potenciais agressões russas. Em meio àpróxima reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas, as forças ucranianas perderam diversos pontos estratégicos para os separatistas, como a cidade de Novoazovsk (próximo ao porto de Mariúpol no mar de Azov, principal cidade de Donetsky) e o aeroporto da província de Lugansk. Isto fortaleceu o discurso do presidente russo Vladimir Putin para que o governo de Kiev aceite a exigência de maior autonomia para as províncias de fala russa na Ucrânia, ao qual o governo de Poroshenko se nega, anunciando levar para Washington a exigência de que os rebeldes pró-russos sejam reconhecidos como “organizações terroristas†. Esta escalada retórica do secretário geral da OTAN, Anders Fogh Rasmussen, atende a esses interesses, beirando uma histeria militarista sem paralelo desde a queda dos Estados operários burocratizados no início dos anos ’90, com direito à“construção de instalações militares†e “melhorias na infraestrutura†[1] da OTAN (leia-se: Polônia, Letônia, Estônia e Lituânia). O acordo de cessar-fogo, travado esta quarta-feira entre Rússia e Ucrânia, é altamente frágil, uma vez que o governo Putin não deseja nenhum tipo de trégua permanente que retire os resultados da bem sucedida ofensiva das milícias pró-russas.

A propaganda de “desarmamento†no Leste europeu, depois da queda da União Soviética em 1991, promovida pelos Estados Unidos e pela Europa para desativar o poderio das instalações militares reguladas por Moscou, marcou uma etapa de reorganização política destes países sob a tutela norteamericana e da OTAN. Esta etapa de ofensiva ocidental, que abocanhou a Polônia e os países bálticos e os removeu da zona de influência da Rússia, pode estar chegando ao fim com o conflito ucraniano, o mais importante desde o fim da Guerra Fria, e que está determinando as características de uma ordem mundial incerta.

“A Rússia já não considera a OTAN um sócio, mas um adversárioâ€

A constituição desta “tropa de reação rápida†da OTAN não poderia atender a crise imediata na Ucrânia, uma vez que as incursões russas se dão na parte oriental e sul do país (que fazem fronteira com a Rússia). A justificativa da OTAN é que esta força preventiva atuaria sob qualquer sinal de desestabilização dos países bálticos aliados e da Polônia, que pediram uma atitude mais firme em sua defesa por parte da Aliança do Atlântico desde a anexação da Criméia. A questão reside em que esta oferta de proteção permanente viola os acordos da OTAN com Moscou, travados em 1997, sob os quais se prontificava a não concentrar um número substancial de soldados no Leste europeu em bases permanentes. Ainda que a proposta seja de “rotatividade de tropas†, de fato isso significaria uma presença permanente de soldados da OTAN nos países bálticos. O reforço de tropas nesta região – já está previsto o envio de armamento pesado àEstônia, com tanques e blindados – se combina com a aprovação, na próxima cúpula da Aliança em Gales, de novas bases no Leste e a instalação de um escudo nuclear por parte do governo de Washington.

Como produto da possível ruptura do acordo de 1997, o governo Putin anunciou que introduzirá alterações em sua doutrina militar frente a estas novas ameaças, principalmente levando em consideração que a OTAN – bloco militar ocidental durante a Guerra Fria que, diferentemente que o Pacto de Varsóvia soviético, não se dissolveu depois da queda da URSS – continua avançando para o leste e incrementando seu potencial ofensivo. O vice-secretario do Conselho de Segurança russo, Mikhail Popov, chegou a expressar com nitidez a percepção do Kremlin de que “a aproximação da infraestrutura militar dos países membros da OTAN às fronteiras de nosso país conservará seu lugar como um dos perigos militares àFederação Russa†.

Ainda que as aparências de uma situação “pré-guerra†estejam impregnando os discursos, o sétimo ano da crise mundial que golpeia tanto a economia norteamericana (com alto nível de desemprego e longe de recuperar sua situação econômica pré-2008) quanto a débil economia russa (incapaz de representar uma alternativa aos países do Leste, crescendo 1,3% em 2013) e os limites tanto dos EUA quanto da Rússia em afrontar os desafios da anexação da Criméia e da própria intervenção ocidental na Ucrânia, fazem com que a perspectiva de um conflito armado não esteja colocada no tabuleiro por ora. A política externa do imperialismo norteamericano durante a administração Obama, de fechar os conflitos herdados no Oriente Médio e dirigir-se àà sia-Pacífico para conter a ascensão da China, exigem medidas preparatórias que incluem o enfraquecimento das alianças políticas russas na à sia e na Europa. Este reforço da presença militar ocidental às portas da fronteira russa é a continuidade dos movimentos norteamericanos iniciados na Ucrânia, e atende ao objetivo de remover mais um ponto de apoio de Moscou para sua projeção regional. Entretanto, fruto das derrotas no Iraque e no Afeganistão e a ausência relativa de uma estratégia de contenção por parte dos EUA, torna-se cada vez mais difícil concluir os desafios preparatórios. Não é demasiado lembrar que os conflitos no Oriente Médio persistem, tanto no recente massacre do Estado terrorista de Israel sobre a Palestina, quanto a atual ofensiva yihadista do Estado Islâmico sobre o Iraque, o que impôs aos Estados Unidos uma aliança com velhos adversários, como as milícias xiitas, o regime sírio do ditador Bashar al-Assad e o Irã dos aiatolás, que já trazem enormes contradições àpolítica ianque.

Da diplomacia entre os países aos interesses interestatais de uma nova ordem

O conflito ucraniano se está convertendo em uma peça chave da geopolítica mundial e está determinando a relação entre as potências nos próximos anos. A reacionária oligarquia russa (que financia grupos armados ultranacionalistas de extrema direita contra a população ucraniana e persegue homossexuais na Rússia) busca mostrar-se “impassivo e dialogável†propondo aos EUA empregar sua influência para resolver a situação pacifica e não militarmente. Este discurso trata de conciliar os ânimos com a Europa e principalmente, com a Alemanha: a nova série de sanções econômicas da Comissão Européia contra a Rússia exprime em verdade a vontade política da chanceler alemã, Angela Merkel, de buscar um acordo o mais rápido possível entre Rússia e Ucrânia, disciplinando o conflito, estabilizando suas relações com o Leste e impondo-se não só como líder econômica mas também política da Europa. Tal orientação é totalmente contrária aos interesses da administração Obama, que deseja separar ao máximo a Alemanha e a União Europeia de qualquer acordo com o governo de Moscou, revivendo tensões passadas com o auxílio do cadáver vivo que é a OTAN.

Para além dos interesses políticos alemães de se desfazerem da tutela norteamericana, a Alemanha se encontra às portas de novos abalos recessivos: teve queda de 0.2% do PIB no último trimestre, numa situação em que nenhum membro da União Europeia (exceto a Irlanda) cresceu mais de 1%, e em que 15 dos 28 países membros possuem taxas estarrecedoras de desemprego, acima de 10%. O perigo destes dados é que o emprego estável na Alemanha depende das exportações a uma Europa cujo apetite por seus produtos está gravemente limitado em meio ao baixo crescimento e recessão prolongada [1]. Esta situação se agravaria caso a Alemanha restringisse relações comerciais com a Rússia (tiveram intercâmbio comercial de 77 bilhões de euros em 2013 e as empresas alemãs tem investimentos calculados em 20 bilhões de euros na Rússia), sem mencionar o mais importante: a dependência de Berlim frente aos recursos energéticos russos. Os russos acariciam vorazmente estas necessidades alemãs de uma aliança entre os dois países. Immanuel Wallerstein, por ocasião dos tratados comerciais entre a China e a Rússia, escreve:

“A Alemanha está claramente dividida acerca da perspectiva de incluir a Rússia em uma esfera europeia. A vantagem da Alemanha em um acerto assim seria consolidar sua base de consumidores na Rússia para sua produção, garantir suas necessidades energéticas e incorporar a força militar russa a seu planejamento global de longo prazo. Dado que isto tornaria inevitável a criação de uma Europa pós-OTAN, existe oposição àideia não só na Alemanha, mas claro na Polônia e nos Estados bálticos. Desde o ponto de vista da Rússia, o objetivo do tratado de amizade Rússia-China é fortalecer a posição daqueles na Alemanha favoráveis a trabalhar com a Rússia.†[2]

Sinteticamente, a estratégia russa se movimenta em meio às contradições mais agudas entre os Estados Unidos e a Alemanha. Não podemos descartar que Putin se arrisque, em margens seguras, a conquistar posições muito maiores que a Criméia na Ucrânia, consolidando sua influência sobre as províncias ucranianas mais importantes economicamente, Lugansk e Donetsk, caso o governo de Kiev não aceite um regime federativo de maior autonomia às províncias. A escalada no discurso de reforço militar permanente dos dois lados da antiga “Cortina de Ferro†no Leste europeu põe àmostra as fraturas deixadas pelas guerras mundiais e o caráter reacionário das divisões entre fronteiras nacionais. A grande fissura que salta aos olhos é que com o aprofundamento do conflito ucraniano fica cada vez mais evidente que a conclusão da orientação política externa dos Estados Unidos depende em boa medida de uma Alemanha subordinada, o que vai no sentido contrário de os interesses geopolíticos alemães. Produto da crise econômica mundial em curso e do declínio hegemônico dos Estados Unidos, as perspectivas de grandes convulsões mundiais voltam a aparecer na mesma região em que, há 100 anos, disparou o gatilho da Primeira Guerra Mundial.

[1George Friedman, “Europe’s Malaise: the new normal?†, Stratfor, 19/8.

[2Immanuel Wallerstein, “El juego geopolítico ruso-chino†, La Jornada, 8/6.

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