Quinta 18 de Julho de 2019

Internacional

ARGENTINA

Uma Nova Emergência dos Explorados

21 Dec 2010   |   comentários

A ocupação de terras no Parque Indoamericano durante 8 dias, desencadeou uma crise politica de magnitude que, por enquanto, desencadeou numa forma reacionária. Porém, deixou uma polarização social entre setores médios que se expressaram como base de uma oposição de direita e os segmentos emergentes mais golpeados da classe trabalhadora expressada por milhões de sem teto.

O secretário da Macri, Rodríguez Larreta e Aníbal Fernández, o chefe de gabinete e o responsável até então pela Policia Federal do governo de Cristina Kirchner, apresentaram o pacto como sendo a segunda “operação conjunta†depois que também, na terça feira-dia 7 e na quarta-feira dia 8, as policias metropolitanas e federal de ambos governos iniciaram a perseguição contra os irmãos sem teto, disparando e fazendo as três primeiras vitimas. As vagas promessas apresentadas para as mais de 1600 famílias ocupantes, de inclusão e um plano de habitação cuja iniciativa caiu em mãos do xenófobo Macri (que construiu na cidade menos de 100 habitações por ano) é uma ironia macabra, que só pode ser apresentada como uma concessão pelo cínico chefe de gabinete, o mesmo que um dia disse que Júlio Lopes poderia estar na “casa da sua tia†. No acordo anunciado não se diz sequer quantos planos de habitações serão concedidos. O objetivo que uniu Macri e Cristina foi impedir que se propagasse a única via efetiva para os mais explorados conseguirem casas e quebrar a vontade dos governos que representam as grandes imobiliárias e construtoras: a ocupação de terrenos. Os uniu o espanto perante os que já ameaçavam se estender àzona sul do conurbado bonaerense, como em Quilmes, onde o prefeito K, o “Barba†Gutierrez, acabou de pedir reforço de Policia Nacional para defender, entre outras ocupações, as terras ociosas na planta do frigorifico Finexcor, propriedade do monopólio Cargill.

O subsolo da classe trabalhadora, sublevado

No fundo, vivemos uma nova manifestação de erupção dos setores mais baixos e postergados da classe trabalhadora e do povo que vem se produzindo há meses. Em primeiro lugar, com a organização e luta dos ferroviários terceirizados que com cortes de vias, paralisaram os trens da Roca desde o mês de julho até que, posteriormente ao crime de Mariano Ferreyra, obtiveram um triunfo histórico que surtiu num contagio nas empresas telefônicas e elétricas, assim como em fabricas da industria alimentícia como a Pepsico. Em segundo lugar, em Formosa se levantou a comunidade toda pela pedido de suas terras que foi esmagado com a intervenção da policia do governador Insfrán mostrando que os “nacionais e populares†governam para os interesses dos grandes plantadores de soja, desprezando os povos originários e campesinos pobres pela extensão da fronteira agrícola. Nesta semana, no Parque Indoamericano vimos um setor da classe trabalhadora que, em sua maioria de imigrantes, abastecem os lucros dos empresários testeis, com trabalho dos negros ou terceirizados dentro das próprias vilas, trabalhadores informais com salários de 1500 pesos que é impossível sequer para sustentar um aluguel inabitável, assim como a mão de obra barata do boom da construção de grandes edifícios e torres para a especulação imobiliária.

Cada um desses embates de explorados tem sido rechaçados pela violência estatal, ou para-estatal, como não poderia ser de outra maneira, já que é um elemento novo, profundamente revolucionário, da cena nacional no governo dos Kirchner. As demandas que pressionam a partir do subsolo da classe trabalhadora são, isto é claro, um golpe na imagem de “modelo†que, com um crescimento a “taxas chinesas†durante os últimos 8 anos, mantém milhões submersos na pobreza extrema. Não se trata de uma luta salarial, por mais dura que seja, para alcançar a inflação, que pode ser canalizada para a pressão dentro do conjunto que tenha sido instituído. Se trata de uma luta contra conquistas estruturais que a classe capitalista obteve com a ditadura, primeiro, e logo com o menemismo, que provocaram severas derrotas que deixaram uma divisão profunda na classe trabalhadora. Assim, a onda de violência combinada com as forças repressivas do Estado e por principais grupos e chefes territoriais, de gangues de rua e bate-paus sindicais como a Pedraza nos ferroviários e a do grêmio municipal de Datarmini e Genta que nos anos 70 estavam listados no mais rançoso da direita peronista.

Os terceirizados e agora a massa de trabalhadores negros, flutuantes entre o trabalho eventual e o desemprego, que deixaram suas famílias para lutar por moradias, são um desafio a uma relação de forças histórica que só pode ser revertida com ações independentes, das massas, dessa magnitude e em sentido contrario, como a que despontou em 2001.

Os movimentos estatais para impor uma ordem reacionária

“Se ocuparem as terras, tiramos o plano†, agitavam na terça-feira, dia 14, os apostadores K e os proxenetas da Construção Shocklender e Hebe de Bonafini S.A. A Atribuição Universal por Filho, que o governo “nacional e popular†mostra como o auge dos “novos direitos de cidadania†, foi utilizada como extorsão estatal contra os que não tem nenhum direito a não ser o protesto. O acordo “de Estado†estabelece uma clausula pela qual, com explicou Aníbal Fernández numa coletiva de imprensa, “todo aquele que usurpe não terá direito a ter parte no plano de habitação nem acesso a nenhum plano social†. Um posicionamento violatório de direitos constitucionais, completamente reacionário e com uma concepção semelhante a da Lei de Residencia do começo do seculo XX. Uma verdadeira tentativa de “restauração†contra o que verdadeiramente golpeou e colocou na defensiva os neoliberais na Argentina, a ação direta de 2001. Assim certificam tanto Macri que disse que o governo “adotou nossos argumentos†; como também Elisa Carrio que assinalou que o acordo “está bem porque colocou um limite àextorsão†, colocando sob este nome, é claro, as ocupações de terras para protestar por moradias. O Grupo A apoia os rumos tomados pelo governo de Cristina Kirchner.

O passo anterior para alcançar o que foi essa saída reacionária foi feito sob a mascara de “dialogo†com as “organizações sociais†e com o tom conciliador que apresentou o governo nacional, para a tribuna, em oposição aberta a xenofobia de Macri. Depois da retirada da polícia provocada pela crise politica causada pelo banho de sangue em Soldati – com a repressão conjunta e as ações de grupos fascistas que deixaram fugir – foram chamados para a Casa Rosada os representantes dos movimentos territoriais, incluídos os de algumas organizações de esquerda. Ali, com uma mascara de conciliação de classes, se legitimava a ação estatal que macristas e kirchneristas negociavam no mercado. As organizações territoriais como a CCC e o FPDS que definiram como “o inimigo principal†o governo portenho, facilitaram a manobra de pinça de ambos. O envio ao Parque Indoamericano da Policia Nacional (a força mais usada para despejar rotas e reprimir desocupados nos anos 90) e da Prefeitura (que em 2007 liberou o espaço do Cassino flutuante no Porto Madero contra os piquetes dos despedidos do capitalista dos jogos Kristóbal López) foi apresentado como necessário para “pacificar o lugar†. No entanto, as agressões das partes seguiram sem impunidade, e para dentro das instalações ocupadas os policiais nacionais foram fator de pressão de primeira ordem (o “chicote na janela†) no momento de “negociar†um “desenvolvimento pacifico†... com uma arma na cabeça. Até Evo Morales, que deixou em apuros os companheiros bolivianos sem teto, se declarou contra os tiros e pressões.

Lamentavelmente, presenciamos as conduções dos partidos e movimentos que centralizam sua politica no “trabalho territorial†, desde a CCC até o Partido Obrero, ajudando a legitimar a presença destas forças no Parque Indoamericano perante “Hannibal†Fernandez. No primeiro caso, ostentando-se, como Juan Carlos Alderete da CCC de ter sido “traído no helicóptero†para avaliar a intervenção do governo nacional e, no segundo caso, pedindo perante o Chefe de gabinete que “o estado garantisse a vida†(Declaração “As alegações do PO na Reunião com Aníbal Fernandez e Macri. Ver: www.po.org.ar).

Embora a CCC, em igual medida que a Frente Darío Santillán, se opuseram, logo em seguida, ao acordo reacionário, a armadilha estatal do kirchnerismo já estava derrubada. O dia decisivo que se levantaram àtona, na terça-feira dia 14, todos os movimentos territoriais, no lugar de marchar ate Soldati para aportar na disputa de forças a favor dos ocupantes, decidiram se concentrar no centro portenho.

O PTS e o sindicalismo de esquerda

O PTS, organização irmã da LER-QI na Argentina, junto do sindicalismo de esquerda nos fizemos presentes no sábado em Soldati com 2000 companheiros, apesar da resistência da Policia Federal, através de uma delegação que estavam presentes dirigentes da Kraft, Zanon, do metro, dos terceirizados da Roca e do PTS. Exigimos uma greve nacional da CGT e da CTA para que outorguem moradias e sejam presos os repressores, ou seja, unir as forças numa frente única da classe trabalhadora para abrir as portas de uma solução para milhões de sem teto. Esta perspectiva foi derrotada, por enquanto. Podemos ver novamente como atua a burocracia sindical: ou deixando isolada a ação ou sustentando os blocos fascistas que atacaram os companheiros sem teto. No entanto, os irmãos argentinos, paraguaios e bolivianos, trabalhadores precarizados e negros, tem mostrado potencialmente a força dos explorados que, cedo ou tarde, voltarão a se insurgir. Temos que redobrar os espaços para a construção de um partido de militantes trabalhadores e jovens com essa perspectiva revolucionaria.

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