Questão negra

Uma História sobre a Maré

04 Mar 2015   |   comentários

1942, Zona norte da cidade do Rio de Janeiro as margens da Baía de Guanabara, foi neste local que Dona Orosina Vieira, migrante mineira negra escolheu para construir o seu barraco de madeira e barro e fundar a favela do Tambau que mais tarde faria parte do que conhecemos hoje como Complexo da Maré. A construção da Variante Rio-Petrópolis hoje Avenida Brasil ligava o centro aos subúrbios o que permitiu a ocupação na Maré consolidar-se trazendo para região ofertas de empregos na construção civil e em fabricas como a Refinaria Manguinhos.

A primeira Investida Militar

A velocidade com que a ocupação se expandia começou a preocupar o Exército que também em 1942 tinham recebido um terreno na área do Morro do Timbau e ali começava a transferir o 1° Batalhão de Carros de Combate. Os militares temendo a expansão da favela para seus territórios logo começaram a opressão aos moradores, controlavam a pulso firme a estrutura do bairro, ninguém podia mudar para o morro sem autorização, ruas também só podiam ser construídas com permissão e as casas de alvenaria eram proibidas e cobrava-se taxa para ocupação. Os moradores respondiam e em 1954 surgiu uma das primeiras organizações de bairros da cidade a Associação de Moradores da Maré que tinha como objetivo organizar a população contra as investidas dos Militares.
Organização
A luta chegou ao seu ápice em 1954 quando o exército derrubou dezenas de barracos expulsando famílias do morro, um jornla da época estampava em sua capa no dia seguinte “O Exército expulsa cinco mil famílias da Fazenda Morro do Timbau†¹.Os moradores principalmente em tempos de eleições procuravam os meios legais de se defender buscando apoio com políticos e a imprensa, a associação de moradores desempenhou papel importante na favela, para além de organiza-se contra os militares que construíram uma cerca de arrame farpado para controlar a entrada e saída de moradores e que por vezes invadiam as reuniões da associação para desarticular a organização, tinham que dar conta de assuntos de primeira ordem como encanamento para agua e luz elétrica e tc. A organização era tão grande que um morador deste período Seu Joaquim disse “o Morro do Timbau foi a única favela no Brasil a ter 85% da sua população associados àAssociação de Moradores†². Situação parecida de organização se deu na favela Parque Nova Holanda por volta de 1984 quando moradores conseguiram tomar controle da Associação de Moradores e Amigos da Nova Holanda que era controlada por pessoas cooptadas desde a sua fundação em 1981 e não representava o real interesse da população local. A luta por sobrevivência da população pariu alguns líderes um deles Dona Orosina Vieira que chegou até ser recebida pelo presidente Getúlio Vargas em meio a luta contra o despejo.

Hoje

Hoje o Complexo da Maré tem um pouco mais 150 mil habitantes e encontra-se ocupada por cerca de 2.500 tropas do exercito que custam por volta de 1,7 milhões por dia³. Tal valor foi revelado no Diário Oficial na União com a publicação de uma medida provisória (número 642), assinada pela presidente Dilma Rousseff, autorizando um crédito extraordinário de R$ 200 milhões no orçamento do Ministério da Defesa para uso exclusivo de apoio logístico as forças de segurança publica do Rio, valor este suficiente para construir cerca de 3310 casas⠴, mas que é usado para o projeto de pacificação (opressão) da favela.

O caminho

Dona Orosina Vieira morreu em 1994 na cama do seu barraco no Morro do Timbau, já contava ela com 109 anos de idade e resistência. Na semana passada, dia 23 de fevereiro mais de 800 pessoas gritaram “basta†e protestaram pelas mortes causadas pelos confrontos entre as autoridades e traficantes e foram reprimidos pelas forças de segurança. Mais é nesse pequeno exemplo que reside a lição deixada por Dona Orosina, lutar, organizar-se e acima de tudo contar com suas próprias forças. A Maré nunca se entregou é necessário seguir o exemplo deixado, somente os moradores organizados independentemente podem lutar pelas demandas mais urgentes da população como moradia, saneamento básico, emprego e impulsionar a luta contra todos que lucram com a miséria.

1 - Jornal Correio Carioca, edição 07957 de 16 de junho de 1954, páginas 1 e 2.
2 -O depoimento em questão está registrado em VAZ, Lílian Fessler. História dos bairros da Maré: espaço, tempo e vida cotidiana no Complexo da Maré. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994, p. 14.
3 - http://oglobo.globo.com/rio/presenca-de-militares-na-mare-custa-17-milhao-por-dia-12601748
4 - http://piniweb.pini.com.br/construcao/arquitetura/cdhu-vai-construir-200-unidades-sustentaveis-no-interior-de-sao-215318-1.aspx

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