Sexta 19 de Abril de 2019

Movimento Operário

GREVES OPERÃ RIAS

Um primeiro balanço da campanha salarial dos metalúrgicos do estado de São Paulo

25 Sep 2009   |   comentários

A onda de greves que percorre o país nas campanhas salariais deste segundo semestre enfrentando a intransigência patronal, já é a mais importante desde que Lula assumiu a presidência. Pela primeira vez em anos setores importantes da classe operária industrial entraram em movimento. Ainda que não se dê um processo de ruptura com o governo Lula, que mantém cerca de 80% de aprovação, nem uma maior radicalização política, os trabalhadores dão mostras de uma renovada disposição de luta ao pressionar as direções governistas e pelegas para conquistar maiores aumentos salariais, obrigando-as a organizar greves.

No final de 2008 e inicio de 2009, no momento mais agudo da crise, a patronal apesar de todos os subsídios dados pelo governo Lula e pelo governo Serra, avançou com demissões em massa e redução salarial em centenas de fábricas. A CUT, nas montadoras e nas fábricas menores, nada fez para impedir as demissões e ainda negociou uma série de acordos de redução salarial. A Força Sindical se transformou na campeã dos acordos de redução salarial. Agora, com a débil e temporária recuperação económica, a patronal, principalmente das montadoras, retomou o nível de vendas do ano passado sem, no entanto, recontratar todos os demitidos.

A CUT e sua política pró-patronal

CUT e Força Sindical repetiram sua política pró-patronal e tentaram limitar ao máximo a reivindicação salarial dos metalúrgicos. Nas montadoras do ABC, a CUT aceitou um reajuste de apenas 6,53% e R$1.500 de abono (apresentado como vitória), impedindo que uma greve nas montadoras do ABC se somasse às greves no Paraná e no interior de São Paulo e fosse o estopim de uma greve unificada de todas as montadoras do país, o que seria um importante impulso para todas as lutas em curso. Ao contrário disso, ao aceitar o reajuste rebaixado, a CUT esperava conseguir fazer um grande favor àpatronal e evitar maiores dores de cabeça ao governo Lula, transformando esse reajuste de 6,53% numa referência de teto para a campanha salarial de todos os metalúrgicos do estado. Foi isso que ela fez no ABC, impondo para todos os demais setores (autopeças, fundição, máquinas e eletroeletrónicos e demais setores metalúrgicos) a luta “pelo mesmo acordo das montadoras†. Como se não bastasse, na pratica ainda impós uma dinâmica de acordos por fábrica, debilitando a luta das fábricas menores ou das fabricas onde a patronal está mais dura.

Essa manobra, no entanto, não deu certo graças àcombatividade demonstrada pelos metalúrgicos. No Paraná, eles obrigaram a Força Sindical a organizar greves e conseguiram 7,44% e 8,44% na Volvo e Renault, com R$ 2 mil de abono. Na Volks de São José dos Pinhais a greve continua e já dura mais de duas semanas. Na região de Campinas os metalúrgicos organizados pela Intersindical entraram em greve conseguiram reajustes de 10% na Honda e na Toyota. Em São José dos Campos, no principal sindicato dirigido pela Conlutas os metalúrgicos da GM, apesar da dureza da patronal, conquistaram um reajuste de 8,3% e abono de R$1 950, que foi dado também aos operários da GM de São Caetano que impuseram a rejeição da proposta inicial contra a posição do sindicato ligado àForça Sindical.

Assim, graças ao instinto dos metalúrgicos em aproveitar a recuperação económica para buscar a sua parte do bolo, o teto que a CUT, em aliança com os patrões, tentou impor a partir do ABC foi rompido e o acordo que a Conlutas conquistou através de greve e mobilização na GM de São José está se transformando na referência para os demais setores. Essa nova referencia imposta com luta deve valer agora para a campanha salarial das metalúrgicas menores, inclusive nas regiões dirigidas pela Força Sindical, como Santo André, São Paulo e Osasco. A manobra agora está se voltando contra a própria CUT, pois na Volks e na Ford de Taubaté os operários decidiram rever o acordo rebaixado e retomar a mobilização pedindo “o mesmo que na GM†. Também no ABC os trabalhadores deveriam fazer o mesmo que em Taubaté e recolocar a possibilidade de uma greve geral do setor metalúrgico no estado de São Paulo. Assim seria possível não só conquistar um reajuste salarial maior, mas lutar seriamente pela recontratação de todos os demitidos, pela redução da jornada sem redução salarial e pela efetivação de terceirizados e temporários.

Uma discussão necessária com o PSTU

A vitória na greve da GM foi muito importante e está permitindo que a Conlutas amplie sua influência e prestigio sobre a base da CUT. Justamente por isso, esse é o melhor momento para avaliar a atuação da Conlutas nessa primeira fase das campanhas salariais e corrigir a política para aproveitar a situação favorável e dar passos para construir, nas lutas, um movimento operário classista que supere a tradição petista.

Apesar das importantes vitórias, a Conlutas e a Intersindical também acabam se submetendo àdivisão imposta aos trabalhadores pelo calendário das data-base. Em São José dos Campos, no sindicato dirigido pelo PSTU, se ao invés de organizar primeiro a campanha salarial da GM e depois das fábricas menores, a Conlutas tivesse unificado todas as categorias em torno de uma pauta de reivindicação comum, seria possível conquistar reajustes maiores e lutar concretamente pela recontratação dos demitidos e pela redução da jornada, revertendo a derrota que a direção da GM impós no ano passado ao demitir 800 temporários. A mesma coisa em Campinas.

Pior do que isso, é que ao se submeter àlegalidade das data-base, os sindicatos dirigidos pelo PSTU e pelo PSOL, acabam abrindo mão de uma luta séria pelas demandas que não sejam apenas salariais para não se indispor com a justiça do trabalho, que condena como ilegal qualquer greve política. Muitas demandas são colocadas na pauta de reivindicação, mas na verdade as campanhas salariais são feitas para conseguir algum aumentozinho, deixando de lado as demissões e perdas de direitos. A luta pela reintegração dos mais de 4 mil demitidos da Embraer não foi incorporada na luta dos metalúrgicos da GM em São José dos Campos, e talvez fique esquecida até quando chegar a vez dos operários da Embraer negociarem salário (sua data-base é em novembro). Isso para não falar da luta pela recontratação e efetivação de temporários e terceirizados, ou da luta pela redução da jornada de trabalho, que consta na pauta de reivindicações da maioria das centrais sindicais, mas que sequer entra em discussão nas campanhas salariais.

Propomos àConlutas aprofundar a luta por emprego e salário

É preciso lutar pela unificação das fileiras operárias sem se deter diante do calendário das data-base ou das limitações que a justiça do trabalho impõe para as reivindicações, para avançar nas nossas demandas mais profundas. Chamamos a Conlutas a organizar plenárias de delegados por local de trabalho de cada um dos setores em luta em cada cidade e em cada estado, a começar por São José dos Campos, onde a Conlutas tem peso dirigente suficiente para coordenar a maioria das fabricas. Nessas plenárias seria possível não só votar manifestações comuns, mas votar uma pauta de reivindicação comum, salarial e política, em defesa do emprego e do salário para todos os trabalhadores, não apenas para os metalúrgicos.

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