Internacional

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Um espectro ameaça a Europa

29 May 2012   |   comentários

O premio Nobel de economia e colunista da The New York Times, Paul Krugman prevê a “saída grega do euro, muito possivelmente para o próximo mês†. No caso de cumprir-se tal diagnóstico tanto Krugman como os periódicos Financial Times e Der Spiegel dizem que o pânico se estenda ao resto da Eurozona e que o próximo passo seria uma corrida bancária na Espanha e Itália que poderia levar a eventuais "corralitos" a uma injeção de crédito do Banco (...)

O premio Nobel de economia e colunista da The New York Times, Paul Krugman prevê a “saída grega do euro, muito possivelmente para o próximo mês†. No caso de cumprir-se tal diagnóstico tanto Krugman como os periódicos Financial Times e Der Spiegel dizem que o pânico se estenda ao resto da Eurozona e que o próximo passo seria uma corrida bancária na Espanha e Itália que poderia levar a eventuais "corralitos" a uma injeção de crédito do Banco Central Europeu (BCE) com posteriores políticas "mais flexíveis†ou, ao contrário, diretamente ao fim do euro.

Recessão: os limites dos resgates financeiros

No final do ano passado, frente ao iminente risco de quebra de algum banco que poderia desencadear uma nova situação ao estilo “Lehman†, o BCE decidiu ampliar 3 anos o fornecimento de liquidez aos bancos a um juros fixo de 1% ao ano. Como dissemos naquele momento “essa injeção massiva de liquidez, esteve longe de se converter em novos créditos que atue como estímulo àeconomia da eurozona†conseguindo, só temporariamente, “conter a eclosão [da crise], mas de nenhum modo atuar sobre as tendências recessivas que se instalam com força na Europa†[1]. Apenas alguns meses mais tarde a denominada troika negociava um novo plano de “ajuda†para a Grécia e a reestruturação de sua dívida que como também apontamos “evita a quebra desordenada da Grécia e sua saída do euro a curto prazo, mas não resolve, e sim agrava, brutalmente os problemas do país, deixando incertezas significativas sobre o futuro da União Europeia (EU)†[2]

Se as políticas europeias de resgates financeiros contiveram as tendências a quebra ao estilo “Lehman†, os violentos ajustes de características clássicas neoliberais, aceleraram os elementos recessivos não só nos países mais débeis, mas no conjunto dos membros da Eurozona que cresceu 0% durante o primeiro trimestre do ano. A economia italiana teve contração de 0,8%, registrando 3 trimestres consecutivos de crescimento negativo do PIB. A Espanha contraiu 0,3%, registrando 2 trimestres consecutivos de queda. A Grécia contraiu novamente 6,2%. França registrou um crescimento nulo e a Alemanha, com um fraco crescimento de 0,5%, representa a economia mais vigorosa da zona do euro.

A ironia é que esta situação, predominantemente recessiva, acabaria provocando por um lado fortes crises políticas como a que atualmente se desenvolve na Grécia e, por outro, condições de falta de liquidez bancária como na Espanha, que reviveram, por outra via, as tendência a quebra financeira.

Espanha: recessão e nacionalizações bancárias

Às políticas de ajuste fiscal e cortes sociais, implementadas na Espanha durante os últimos anos, soma-se o plano de ajuste e reforma trabalhista (que barateia e facilita as demissões) lançados pelo governo conservador de Rajoy para cumprir com as exigências de Bruxelas e Berlin. Estas medidas aprofundaram a recessão atingindo uma taxa de 25% de desemprego, um total de cinco milhões e meio de desempregados. O desenvolvimento recessivo na Espanha provoca a queda persistente do valor da propriedade o que faz com que grande parte das pessoas que hipotecaram suas casas nos últimos anos devam mais do que está valendo suas casas. É o produto de que sob a política de desalavancar e sanear os balanços bancários e liquidação de seu parque imobiliário, transfere-se o risco bancário aos compradores. Se relacionamos esta situação com os cortes de benefícios sociais e o aumento do desemprego, é compreensível que o elo débil da economia espanhola se encontra em seus bancos fortemente comprometidos no negócio da especulação imobiliária. Bankia, a quarta instituição bancária da Espanha precisou ser nacionalizada a poucos dias, enquanto o governo lançava um pacote de medidas que inclui um grande aumento das provisões aos bancos. Sem dúvida, essas medidas aumentaram a desconfiança no setor bancário que causou as quedas das bolsas de valores e não conseguiram frear a fuga de capitais, questão que levou o ministro da economia a solicitar ao BCE um maior respaldo na compra da dívida espanhola. O BBVA (segundo banco da Espanha) apresenta em seu informe colocou que as tendencias financeiras na Europa são, atualmente, piores que aquelas que seguiram àquebra de Lehman, em setembro de 2008.

Frente única neokeynesiana

A urgente situação econômica e financeira da Espanha deve ser entendida como parte de um contexto europeu no qual reinam fortes tensões sociais e políticas. À queda de 16 governos na Europa agrega-se os recentes resultados eleitorais [3]. Um complexo contexto político no qual se destacam elementos de polarizações àdireita e àesquerda, no marco das tendências recessivas reinantes, gera em amplos setores dirigentes da burguesia não só a “suspeita†de que as medidas financeiras implementadas até agora poderiam ser insuficientes, mas também um profundo temor que as políticas de Berlin e Bruxelas resultem que a situação saia do controle. Neste contexto, e para além da urgência da situação financeira e econômica, no qual há que compreender as previsões de Paul Krugman, Nouriel Roubini, do The New York Times, Financial Times e Der Spiegel. Está sendo criada uma frete única neokeynesiana encabeçada pelo próprio Krugman, mas que inclui até personagens como Hollande e o dirigente da coalizão de esquerda reformista Syriza, disposto a evitar um colapso do euro pressionando tanto quanto possível para que o establishment alemão e Bruxelas “abaixem o câmbio†. Isto poderia significar diferentes medidas tais como uma intervenção mais decidida do BCE, não mais emprestando aos bancos e aceitando títulos das dívidas como garantia, e sim comprando diretamente os títulos das dívidas de diferentes Estados, a aceitação de algum tipo de plano de eurobônus para aliviar o peso da dívida, que o BCE autorize um certo nível de inflação que permita às economias do sul da Europa reestabelecer a competitividade a custa da conhecida “ilusão monetária†keynesiana [4], como a imposição de algum tipo de punção sobre o setor financeiro. Quer dizer, políticas semelhantes às medidas tíbias adotadas por Obama, nos EUA. Lembremos que se quer uma política reformista qualitativamente mais audaz como a implementada pelo governo Roosevelt nos EUA a partir de 1933 conseguiu que economia norteamericana recuperasse seu nível prévio àcrise de 1929. Somente a preparação para a segunda guerra, com a montagem do aparato militar-industrial parasitando uma demanda garantida pelo Estado assinalou o início da verdadeira recuperação da economia norteamericana.

Contudo, a Grécia sairá mesmo da eurozona? Distintos analistas sustentam que o mercado vem se preparando para tal situação e que as medidas implementadas pelo BCE e pelo último “resgate†e reconstrução da dívida grega haviam delineado um panorama de relativa contenção pelo qual não necessariamente a saída da Grécia implicaria a desintegração da eurozona. Ainda que não se possa descartar essa hipótese, é preciso levarmos em conta que a agudização da situação na Espanha e também na Itália minam os alcances da dita contenção. Será que Merkel, hoje debilitada, deverá implementar algum tipo de flexibilização da sua política? Não podemos saber, o que é seguro é que, como bem coloca Krugman em seu último livro, a situação atual se assemelha a maneira a qual John Maynard Keynes descreveu a década de ’30: “estado crônico de atividade inferior ao normal durante um período de tempo considerável, sem tendência marcada para recuperação ou aprofundamento imediato†[5]. Se esse estado crônico afeta principalmente a Europa, também afeta a débil economia norteamericana e ameaça a, já não tão pujante, economia chinesa. Não há saídas tranquilizadoras para a pior crise da história depois dos anos ’30, na qual começam a despontar elementos de polarização política e na qual qualquer estratégia desenhada pela burguesia vai estar orientada a descarregar a crise de maneira mais ou menos evidente sobre as costas dos trabalhadores, preparando novas e piores catástrofes.

[1Questões Estratégicas, Paula Bach. La verdade Obrera, nº 460.

[2Postergam a bancarrota por medo que se afunde o euro, Juan Chingo. La Verdad Obrera, nº 464.

[3Ver O triunfo do Partido Socialista, Juan Chingo e Eleições na Grécia: um rechaço aos partidos da austeridade, Alejandra Ríos. A estes resultados deve-se agregar a recente derrota de Angela Merkel e sua coalizão de governo, a CDU, na Renania do Norte-Westfalia nas mãos da Social-democracia, que foi considerado como um plebiscito nacional.

[4Uma redução geral de salário encoberta pelo mecanismo inflacionário. Os aumentos salariais sempre estão abaixo do nível de inflação assim, o aumento real dos salários decresce, mas como numericamente aumenta, cria a ilusão de que está aumentando e isso estimula o consumo.

[5¡Acabad ya con esta crisis!, Paul Krugman, 2012, Editorial Crítica, Barcelona, España.

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