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ELEIÇÕES

Um cenário eleitoral que encobre os grandes problemas e desafios para a classe trabalhadora

11 Aug 2012   |   comentários

As grandes questões para as quais a classe trabalhadora precisa se preparar para enfrentar na crise capitalista mundial, estão ausentes nesta campanha. Isto não é uma surpresa por parte dos partidos burgueses ou que governam para a burguesia. O PT segue buscando mostrar-se como portador de um “projeto de transformação do país†, ao mesmo tempo em que seu governo prepara duríssimos ataques à classe trabalhadora (reformas sindical, trabalhista e (...)

As grandes questões para as quais a classe trabalhadora precisa se preparar para enfrentar na crise capitalista mundial, estão ausentes nesta campanha. Isto não é uma surpresa por parte dos partidos burgueses ou que governam para a burguesia. O PT segue buscando mostrar-se como portador de um “projeto de transformação do país†, ao mesmo tempo em que seu governo prepara duríssimos ataques àclasse trabalhadora (reformas sindical, trabalhista e previdenciária) e alia-se ao que há de mais retrógrado no país, como é o caso de Maluf. O PSDB tenta fazer uma ou outra promessa e encobrir sua cara mais abertamente antioperária e privatista. Em dezenas de cidades do país vemos unificações das mais díspares possíveis; segundo o discurso oficial, tanto do governismo como da oposição burguesa, temos o PCdoB com o PSDB em Campinas, entre muitas outras. Estas alianças mostram como se tratam de interesses mesquinhos e como de fundo todos estes partidos do regime estão interessados em seus negócios, garantir os interesses da burguesia – com tal o qual matiz entre si – e nunca os interesses dos trabalhadores e do povo. É neste marco, que mesmo com as greves em curso, no funcionalismo, na construção civil em Suape, borracheiros em Camaçari, o que menos existe nestas eleições é o debate das necessidades dos trabalhadores.

Da parte daqueles que se reivindicam “socialistas†como o PSOL, tampouco há uma orientação que ajude a classe trabalhadora a aparecer politicamente neste cenário, sem fazer de campanhas chamativas como a de Freixo do PSOL no Rio, uma campanha em defesa do funcionalismo em greve, justamente em uma cidade com tamanho peso do funcionalismo federal e sabendo que este partido tem papel dirigente entre o funcionalismo. Os limites desta, que é uma das mais chamativas campanhas do PSOL em todo o país, demonstram que rumo estratégico está tomando este partido (sobre a candidatura de Freixo ver página ao lado). Estamos vendo um aprofundar da transformação do PSOL em partido do regime.

Uma oposição burguesa que segue debilitada e uma coalizão governista com fraturas iniciais porém importantes

Nestas eleições, a oposição burguesa, depois de fortes derrotas sofridas em 2006 e 2010, joga batalhas defensivas. Não está morta, mas tampouco parece estar conseguindo dar grandes passos adiante. O DEM e o PPS caminham para virar partidos nanicos. O grande partido opositor (PSDB) encontra-se em pé, mas em crise permanente. O PSDB mantém uma força importante no Paraná, São Paulo e Minas Gerais. Porém mesmo na capital paulista a eleição (com Serra candidato) não parece assegurada, e uma novidade, na capital mineira a eleição ganhou tons nacionais como não ocorria há vários anos onde primava o acordo implícito ou explícito do PT com Aécio Neves.

Para o PSDB paulista uma derrota em seu centro de gravidade (mesmo que não para um petista, mas para um direitista governista como Russomano) seria uma derrota muito importante e com grande risco de explosão do partido, e a partir da perda da capital coloca-se em risco seu domínio, desde 1994, sobre o Estado de São Paulo, e por isso o PSDB invocou seu mais forte candidato paulista àtarefa, José Serra, e ressuscitou FHC na campanha. Com este subir de apostas o PSDB paulista também subiu seus riscos em caso de derrota. A batalha de Aécio é menos de vida ou morte que a de seus correligionários paulistas, ela é uma batalha terceirizada através do PSB.

Em Minas Gerais e em São Paulo, claramente, a campanha de 2012 será um campo de batalha onde os competidores principais – PT e PSDB – visam seus projetos nacionais para 2014, garantindo esses dois maiores colégios eleitorais como trincheiras fortificadas. As eleições, portanto, apesar da demagogia e promessas repetitivas, não servirão para tratar os problemas fundamentais das cidades, da população e, principalmente, dos trabalhadores e do povo pobre.

Nas outras capitais, mesmo quando existe um candidato dos partidos burgueses opositores com relevância local, não se está jogando nenhuma batalha nacional. Esta fraqueza da oposição burguesa tem feito as divergências também na base governista não ganharem um ar de racha e crise que marcasse os dois anos finais de Dilma como mais instáveis ou mesmo uma eleição mais insegura em 2014 (onde não se pode descartar a candidatura de Lula). Porém não deixa de ser chamativa uma postura mais independente do PSB em diversas capitais nordestinas e divergências que surgiram entre PMDB e PT em São Paulo. Estariam os cacifes do PMDB e do PSB (como Eduardo Campos de Pernambuco) se preparando para uma disputa independente em 2014? Devemos nos atentar às incipientes divisões presentes que, possivelmente, se ampliem sob os impactos.

Na maior cidade do país o PT aliado ao mais retrógrado, conservador e herdeiro da ditadura...

Com Lula àfrente, o PT deu um grande passo para mostrar sua cara de aliado dos herdeiros da ditadura justamente no maior colégio eleitoral do país. E não foi qualquer herdeiro da ditadura que Lula e seu candidato Haddad abraçaram, foi Paulo Maluf. O notório corrupto do lema “rouba mas faz†, que negava reajuste salarial aos professores dizendo que “professora não é mal paga, é mal casada†e estimulador do assassinato de negros e pobres com sua política repressiva de “ROTA na rua†. Justamente a menina dos olhos de Maluf, esta força de elite da polícia, é a responsável por centenas de assassinatos (dos conhecidos) que estão ocorrendo em São Paulo neste ano.

É com uma figura como esta de aliado que permitirá avançar àpunição dos torturadores da ditadura? É com Maluf que se questionará a polícia assassina de São Paulo? Obviamente não. Na USP, por exemplo, o professor Haddad, aliado a Maluf e àRota, fortalecerá o discurso do reitor Rodas de que a PM deve seguir na universidade, reprimindo os que lutam e os moradores da região com o falso discurso de “segurança†. Até Erundina (PSB) pronunciou-se contra e rompeu com a chapa de Haddad. O que fizeram o MST, a Consulta Popular, o Levante Popular da Juventude, os intelectuais e os “progressistas†ligados ao PT? Nada. Não emitiram um som. Qualquer luta consequente contra os assassinatos no campo, pela punição aos torturadores de ontem, contra os assassinatos e a repressão policial de hoje, exige denunciar e romper esse acordo espúrio PT-Lula-Haddad-Maluf-Rota.

A juventude dá passos iniciais para colocar-se no tom internacional

Em meio a um cenário internacional marcado pelas maiores mobilizações da juventude desde 1968, o Brasil não deixa de retratar, distorcidamente, o mesmo. O que ganha contornos mais anticapitalistas em outros países, ou ao menos contornos de denúncia dos ricos como o Occupy Wall Street americano com sua consigna dos 99%, ou ainda uma defesa de direitos dos trabalhadores e da juventude como no Chile, no Brasil, com grande confiança das massas em Lula e Dilma, se processa mais marcadamente como fenômeno democrático (marcha da maconha, questionamento a lei da anistia, marcha das vadias, questionamento àpolícia, entre outros). É em cima deste clima que o PT quer capitalizar sua campanha em São Paulo (mas que tem riscos para conseguir já que aliou-se a Maluf e o PSOL tem em Gianazzi um candidato que expressa setores da educação, ocupando, minoritamente, mas junto ao petismo este espaço). Em Belo Horizonte com o candidato do programa Fome Zero, Patrus Ananias, e em maior luta política com Aécio, o PT tem dado passos maiores a ocupar este espaço. No Rio de Janeiro, este fenômeno está sendo captado sobretudo pelo PSOL e seu midiático candidato Marcelo Freixo, que exibe mais de 20% de intenções de voto na juventude (o candidato oficialista Paes, de uma aliança do PMDB, PT, PCdoB e mais dezenas de partidos, capitaliza um “orgulho carioca†recuperado, de uma cidade que se mostrará na Copa do Mundo e nas Olimpíadas).

Como a esquerda poderia aproveitar o atual cenário político para fortalecer a organização e consciência dos trabalhadores e da juventude?

É exatamente sobre estes anseios de maiores direitos, liberdades democráticas e outras questões elementares que os partidos de esquerda poderiam atuar de forma mais audaz nestas eleições, marcando claramente como as eleições não são um terreno dos trabalhadores, mas um terreno da burguesia, e que utilizamos as eleições taticamente a serviço da mobilização e organização da classe trabalhadora e da juventude. Para os marxistas as eleições são um terreno da burguesia, o parlamento expressa seus interesses, cabe a nós atuar dentro dele porque as massas ainda acham que votando em alguém as coisas poderiam mudar, mas atuamos nas eleições e nos parlamentos fundamentalmente para organizar o contrário desta confiança na democracia burguesa, mostrando como só a organização independente, a luta “extra-parlamentar†pode garantir àclasse trabalhadora seus interesses.

Deste modo, as eleições seriam uma oportunidade para agitar um programa de independência de classe, anticapitalista e antiimperialista que ajudasse amplas camadas na compreensão de que somente um governo operário e popular – antiburguês e antiimperialista – pode encarar os problemas fundamentais que afligem os trabalhadores, a juventude e o povo pobre. Como seria necessário expressar nas eleições o apoio e desenvolvimento de diversas lutas em curso, como do funcionalismo federal, da GM, de Suape e outras, utilizando as candidaturas como tribunas dos trabalhadores efetivos e precários das empresas, do PAC e da construção civil – em separado de partidos que governam para a burguesia como não é o caso do que o PSTU está fazendo em Belém do Pará (junto ao governista PCdoB). Os partidos de esquerda poderiam utilizar as eleições para dar voz e organização às vítimas da violência policial, da homofobia, da opressão às mulheres, entre outras questões centrais. Porém não é esta a perspectiva que os dois principais partidos de esquerda (PSOL e PSTU) estão fazendo.

No caso do PSOL porque está adaptando-se para humanizar o capitalismo, integrar-se ao regime como a candidatura de Freixo expressa de forma mais gráfica (ver página ao lado). O PSTU por sua vez está desenvolvendo um propagandismo abstrato, descolado das tarefas de apoio às lutas e de chamar àmobilização “extra-parlamentar†como a tradição marxista, desde a III Internacional remarca. O PSTU tem como eixo de campanha a propaganda “cidades para os trabalhadores†, se adaptando às instituições burguesas (eleições, governos, regimes, leis) propagandeando um “governo dos socialistas†sem falar da impossibilidade do mesmo nos marcos do capitalismo, como se fosse possível um “governo dos trabalhadores†, mesmo em nível municipal, constituído e garantido “pelo voto†. A ocorrência excepcional de tal governo em nível municipal a partir do voto seria produto não do voto, mas da firme luta revolucionária de massas. Esta exige, por sua vez, além de uma situação revolucionária, a agitação, propaganda e organização, uma política de independência de classe, anticapitalista e antiburguesa. Só assim poderia ajudar os trabalhadores, a juventude e as massas a compreender que para enfrentar as catástrofes sociais que a crise capitalista nos prepara deve-se preparar para conquistar organizações e fortalezas das massas para impor um “governo operário e popular†, “protegido e apoiado†na força das massas e dos trabalhadores unificados em organizações tipo conselhos (sovietes) para impor medidas anticapitalistas como a suspensão do pagamento das dívidas aos grandes monopólios e especuladores; leis e ações em defesa dos interesses dos trabalhadores e da massas; expropriação dos imóveis ociosos dos especuladores para garantir moradia digna; preparar um plano de obras públicas sustentado por impostos progressivos às grandes fortunas e aos lucros empresariais, etc.

Nossas críticas ao PSTU e sua tática eleitoral se assentam nos ensinamentos revolucionários da III Internacional (antes do stalinismo) e da IV Internacional (fundada por Leon Trotsky), que significou a ruptura teórica, programática e prática com as posições social-democratas da II Internacional que adaptava sua tática parlamentar (e eleitoral) numa ação legislativa “orgânica†nos parlamentos burgueses e na importância essencial da luta por reformas dentro dos marcos capitalistas, transformando o programa mínimo – reivindicações parciais – em plataforma de atuação concreta enquanto resignava o “socialismo†para um futuro incerto. Esta concepção permitiu a essa corrente oportunista (a II Internacional) aliar-se com partidos burgueses (ou receber apoio e financiamento) ou partidos que atuam com políticas de conciliação com frações da burguesia, seus partidos e governos.

O PSOL, como o próprio PSTU não nega, cada dia mais, demonstra-se como um partido cuja estratégia é lutar por “reformas dentro dos marcos capitalitas†, falando de “socialismo†para quando “Deus quiser†, atuando conscientemente como um entrave para que a juventude e a vanguarda operária e popular avancem em sua consciência anticapitalista, antiburguesa e antiimperialista. Por isso, combatemos, desde 2006, a constituição da Frente de Esquerda entre PSTU, PSOL e PCB, na medida que estes dois últimos partidos falam em “socialismo†mas têm como estratégia hegemônica a conciliação de classe com frações burguesas (e governos burgueses). Consequentemente nos colocamos frontalmente contrários àaliança eleitoral do PSTU com o PCdoB em Belém, posto que este partido é integrante do governo federal e de governos regionais capitalistas, sendo, portanto, co-responsável das medidas antioperárias e antipopulares e da repressão desses governos contra os trabalhadores, os pobres e os luadores sociais.

A LER-QI, impedida de participar das eleições pelas restritivas e antioperárias leis eleitorais do país se posicionará taticamente em cada local buscando criticamente encontrar candidaturas que expressem as lutas em curso e posições independentes da classe trabalhadora contra quaisquer variantes burguesas, como podem ser em algumas cidades as candidaturas do PSTU e do PCO.

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