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Um PT bastante questionado nas mais importantes regiões operárias do país

06 Oct 2014   |   comentários

ABC Paulista, Campinas e Grande Belo Horizonte: nas eleições deste final de semana vimos um primeiro e forte questionamento ao PT entre os trabalhadores destes centros industriais brasileiros.

O Partido dos Trabalhadores surgiu na década de ’80 com forte ligação com os trabalhadores em meio ao forte ascenso operário que o país viveu no início daquela década. A onda de greves daquele momento teve seu maior centro no ABC paulista, e dali se alastrou para o interior de São Paulo, Minas Gerais e também o Rio de Janeiro, tomando conta em seguida de todo o país. Lula e o PT, desde então, mantinham amplo apelo e apoio eleitoral nas mais fortes regiões operárias do país. Nas eleições deste final de semana, no entanto, vimos um primeiro e forte questionamento ao PT entre os trabalhadores destes centros industriais brasileiros.

PT perdeu hegemonia as cidades do ABC paulista

Pela primeira vez desde a vitória de Lula em 2002, o PT perde em seu principal bastião operário da maior zona industrial do Brasil, o ABC paulista. Em de São Bernardo do Campo, onde Lula iniciou sua carreira política como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, o PT era hegemônico desde 2002.

Em seu primeiro mandato, Lula havia ganhado com mais de 60% dos votos em São Bernardo do Campo, atingindo 230.368 votos, contra 72.780 do então candidato pelo PSDB José Serra. Em sua reeleição, em 2006, Lula manteve uma folga grande com 51% dos votos em seu berço, contra quase 40% de seu opositor tucano Geraldo Alckmin (hoje reeleito governador de São Paulo).

Na primeira eleição de Dilma, em 2010, o PT manteve ainda sua hegemonia em São Bernardo, ainda que cada vez mais apertado. A então candidata conquistou 46% dos votos, contra 32% de José Serra do PSDB.

Neste ano, Dilma e o PT atingiram fracos 32% contra 36% de Aécio Neves, seguidos pelos 25% de Marina Silva.

O mesmo percurso também aconteceu em Mauá, na região metropolitana de São Paulo, onde o PT jamais havia perdido antes, e desta vez quem levou foi Marina Silva com 36%, Dilma 30%, seguida por Aécio com 27%.

Em Santo André, outra importante cidade industrial do ABC paulista, o PT também voltou a perder. Os 57% da primeira eleição de Lula, que em sua reeleição oscilaram para baixo, atingindo 42% contra 48% do PSDB naquele ano, haviam sido parcialmente recuperados por Dilma em 2010, quando atingiu 39% contra 36% de José Serra. E agora a votação se virou novamente ao PSDB, com Aécio Neves alcançando 44%, contra magros 25% de Dilma, acompanhada por Marina Silva também com 25%.

Do entorno de São Paulo, a única cidade de importante concentração operária onde o PT manteve hegemonia nesta eleição, foi Diadema, onde Dilma obteve 42% dos votos, contra 27% de Marina e 25% de Aécio. Mas ainda bem abaixo dos históricos 60% desde a primeira eleição de Lula.

Forte questionamento ao PT nas concentrações industriais do interior de São Paulo

Em Campinas, outra importante concentração operária do Estado de São Paulo, a variação entre PT e PSDB seguiu a mesma lógica de Santo André, com Lula vencendo em sua primeira eleição, perdendo na reeleição, que foi reconquistada por Dilma na sua primeira eleição e agora ficou em terceiro lugar com 25%, contra 41% de Aécio Neves e 26% de Marina Silva.

Em Hortolândia e Sumaré, duas importantes cidades industriais da Região Metropolitana de Campinas, o PT manteve seu histórico de vitórias sobre o PSDB, mas com um desgaste bastante visível. Nestas duas cidades o PT jamais havia baixado dos 50% de votos, chegando a níveis superiores aos 60% na reeleição de Lula, agora em 2014 seguiu a frente, mas com 42% em Hortolândia e apenas 35% em Sumaré.

Em Indaiatuba, região industrial em pleno desenvolvimento, também da região de Campinas, a derrota do PT foi muito forte, ainda que historicamente o PT não tenha grande hegemonia na cidade, que é um recente centro operário. Aécio venceu com 44%, em segundo lugar ficou Marina, com 25% dos votos, e em terceiro veio Dilma, com apenas 24% dos votos, 20% atrás do candidato do PSDB.

Também nas concentrações operárias de Minas Gerais o PT perde pela primeira vez

Em Minas Gerais a tendência seguiu sendo a mesma, em linhas gerais, que as expressadas em São Paulo, ainda que tenha vencido Aécio Neves no Estado de conjunto, de onde o candidato do PSDB fez sua carreira política e governou por dois mandatos.

Apesar de competir com um candidato mineiro do PSDB, o que historicamente pesa nas urnas, o PT jamais havia perdido nas cidades de Belo Horizonte e Contagem, que formam forte região operária de Minas Gerais. Em Betim, outra importante cidade operária da região, ainda que o PT tenha se mantido àfrente nestas eleições, o fez com um desempenho bem mais fraco que nas três eleições anteriores.

Em Belo Horizonte, Aécio venceu com 53%, contra 25% de Dilma e 16% de Marina. Em Contagem a candidato do PSDB também venceu com 39%, contra 36% e 20% de Dilma e Marina respectivamente. E em Betim, onde Lula chegou a ter 60% em 2006, agora o PT venceu com 43%, contra 31% e 21% dos candidatos do PSDB e do PSB, respectivamente.

A contra tendência segue sendo o Norte-Nordeste

Das regiões de maior concentração industrial do país, apenas nas regiões Norte e Nordeste Dilma e o PT foram completamente hegemônicas nestas eleições, que são uma tendência já das eleições anteriores. Dilma venceu em Manaus, Belém, Fortaleza, Salvador, Camaçari, e em muitos Estados venceu em todas as cidades, como no Amazonas e no Ceará.

Junho nas entrelinhas e o questionamento das greves de 2014

Se junho de 2013 não contagiou as urnas de 2014, por outro lado, a onda de greves que o país viveu este ano mostra um maior desgaste do PT entre os trabalhadores. Fortes greves por fora das direções sindicais como dos garis no Rio de Janeiro e rodoviários em Porto Alegre e São Paulo, mostraram um início de descontentamento com o sindicalismo tradicional. Chegou-se a dizer na mídia brasileira em crise de representatividade. Parece haver um elemento dessa crise dentro das urnas deste domingo. O PT já não é mais inquestionável nos grandes centros operários, ainda que não exista uma alternativa àsua esquerda.

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