Cultura

Um Homem Com Uma Câmera Digital

28 Feb 2015   |   comentários

Estar com a câmera em punho é tão politicamente eficaz quanto o cartaz e o panfleto. Na greve ou na passeata, a experiência audiovisual pode ser aliada do proletariado na construção de um olhar revolucionário.

Estar com a câmera em punho é tão politicamente eficaz quanto o cartaz e o panfleto. Na greve ou na passeata, a experiência audiovisual pode ser aliada do proletariado na construção de um olhar revolucionário. Mas o que poderia diferenciar o registro fílmico do militante de esquerda da linguagem reacionária que permeia os discursos audiovisuais da cultura dominante? Para não cair nas armadilhas naturalistas do colonialismo hollywoodiano, o militante revolucionário deve indagar-se não apenas sobre o que filmar, mas como filmar. Não tem jeito, quem aventura-se pelo audiovisual e sai na briga com a indústria, precisa conhecer a linguagem do cinema e aprofundar-se nos meandros das cinematografias que negam, a partir do meio de produção, da forma e do conteúdo, a ideologia capitalista. Reconhecer no cinema um poderoso meio que auxilia na emancipação política da classe operária, é coisa que gente do calibre de Trotski cansou de enfatizar. No texto "Questões Do Modo De Vida", o general do Exército Vermelho refere-se ao cinema dizendo que (...) “É um instrumento que se nos oferece ,o melhor de instrumento de propaganda, qualquer que esta seja (...) permite uma propaganda atraente e acessível a todos, que fala àimaginação e que, além disso, constitui uma possível forma de rendimento“ (...). Estas palavras não têm sentido apenas para a geração de autores como Vertov e Eisenstein, pois elas batem fundo nos cineastas militantes de 2015: mesmo sem estarem num Estado operário que lhes forneça estrutura de trabalho, os militantes da sétima arte organizam-se por conta própria para obter formação e realizar na marra as suas produções.

Atualmente, alguns coletivos de artistas e comunicadores populares andam correndo atrás de uma sólida formação cinematográfica. A práxis do cinema exige, para o ato da filmagem e da edição, o estudo de filmes. Um novo modelo de cineclubismo vem se desenvolvendo através da ocupação de espaços públicos. Na cidade de Campinas, por exemplo, o MIS (Museu da Imagem e do Som) vem abrigando coletivos empenhados na exibição e no debate de filmes. O que de fato observamos no MIS de Campinas, é um tremendo esforço militante para a criação de uma sala pública de cinema; expressão recente disso foi um manifesto redigido por cinéfilos da cidade, que defendem a necessidade de um espaço voltado para o debate cinematográfico. Através do impulso da autogestão, uma rapaziada faminta por cinematografias (que passam longe das estéticas convencionais de cineastas que se comportam mais como comerciantes do que artistas) organiza importantes mostras de curtas e longas provenientes dos mais variados países, e dos mais diversos contextos históricos: na programação de filmes do museu, é possível nos depararmos tanto com um clássico do cinema soviético dos anos vinte, quanto com um curta experimental realizado por jovens cineastas brasileiros.

Assistindo, debatendo e escrevendo sobre filmes a partir de iniciativas culturais independentes, o aspirante a cineasta percebe que sua vivência cinematográfica está ligada a uma posição política que o coloca no campo da esquerda. Mas será que o contato aprofundado com o cinema é suficiente para a existência do cineasta revolucionário? Tão vital quanto uma formação cinematográfica que oferece componentes estéticos que possibilitam o questionamento da ordem capitalista, é estudar a Economia Política, é aprofundar-se na crítica marxista. Tão urgente quanto o estudo de filmes é o mergulho na literatura, na pintura e no teatro: a própria dinâmica da linguagem cinematográfica enriquece-se com elementos literários, plásticos, cênicos e filosóficos.

Paralelamente ao empenho teórico, o cineasta apropria-se dos novos meios digitais para lançar-se, de acordo com a linguagem do cinema, na luta política. No entanto, eis que surge algum jovem realizador afirmando: “Não cara, eu não faço filmes e sim vídeos“. Já passou da hora de entender que todo discurso audiovisual é um filme: o suporte é definido pela sua tecnologia, mas o cinema existe independentemente do suporte utilizado. Portanto, todo discurso audiovisual é um filme. Logicamente que quando alguns teóricos do cinema (sobretudo alguns acadêmicos) ouvem este tipo de análise afinada ao que de mais avançado existe no cinema político atual, acabam por arrancar os cabelos de raiva. Mas enquanto estes senhores alteram-se, vamos focar o que realmente interessa: atrás das câmeras digitais deve estar aquele que insere o cinema na batalha contra as formas de dominação ideológica.

Boa parte do cinema brasileiro dos nossos dias atravessa um retrocesso histórico. Ignorando as conquistas estéticas de movimentos como o Cinema Novo e o Cinema Marginal, realizadores fixam seus olhares no que de pior existe no cinema comercial norte americano. Desde a Vera Cruz não assistia-se a tantos filmes brasileiros que funcionam enquanto xérox mal feito de Hollywood. A verdade é que atrás de um discurso economicista interessado na projeção comercial do cinema brasileiro, e portanto no seu valor de mercado, esconde-se o velho gesto daqueles que se submetem ao capital; este último é o responsável maior pela linguagem imperialista: dúzias de horrendas comédias e policiais americanizados, tentam enterrar no Brasil a ousadia de um cinema contestador.

A situação do cinema brasileiro atual não envolve apenas um problema estético, mas econômico e político, já que não é possível pensar/praticar um cinema revolucionário comprometido com os meios de produção da classe dominante. É neste sentido que a facilidade para filmar e editar encontrada na tecnologia digital deve ser utilizada num sentido progressista: é missão cultural da esquerda inserir em sua pauta a produção cinematográfica. Não se trata evidentemente da criação de cineastas funcionários de algum partido, mas da organização de cineastas militantes independentes que alimentados pela História do cinema revolucionário, ocupam os espaços de oposição artística. Isto pode ser o princípio para que o cinema contribua, como queria Walter Benjamin, com a mobilização das massas.

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