Internacional

Syriza, o discurso econômico e a nova homofobia

29 Jan 2015 | A notícia já correu como pólvora: Syriza ganhou na Grécia e é o começo de uma nova era na Europa. O triunfalismo generalizado deixou óbvia a complexidade e dificuldade de uma tarefa que a maioria parece dar por feita: mudar o modelo capitalista por um humano. O capitalismo é um monstro que devora seus adversários e com seus detritos gera novos reflexos de modelos regenerados.   |   comentários

Quem pensa que o moderado êxito do Syriza (não conseguiu a maioria absoluta apesar da desesperadora situação do país heleno) é uma vitória em si, sofre de uma ingenuidade ou perversidade sem limites. Syriza foi cedendo cada passo que conquistou até acabar compactuando com a extrema direta cristo-fascista.

Quem pensa que o moderado êxito do Syriza (não conseguiu a maioria absoluta a pesar da desesperadora situação do país heleno) é uma vitória em si, sofre de uma ingenuidade ou perversidade sem limites. Syriza foi cedendo cada passo que conquistou até acabar compactuando com a extrema direta cristo-fascista.

Tem sido muitas as capitulações que tem minado o último ano da carreira política do Partido de Tsipras, mas a mais preocupante, como o caso do Podemos e outros na Espanha, tem sido a de substituir a luta social pela luta econômica. Essa moda que vimos tomar o 15M e seus discursos burgueses de classe média - mais preocupados com os empréstimos e outros privilégios capitalistas do que em mudar o decadente modelo capitalista -, já se transformou em uma verdade indiscutível. As conquistas sociais são secundárias em relação ao bem-estar econômico (entendido como a economia do desperdício do Primeiro Mundo). E esse discurso que converteu guias da política a meros tecnocratas ou economistas levou ao perigoso discurso da ’"nem esquerda, nem direita". O único é que ter dinheiro para viver nos standards capitalistas insustentáveis, nos apontam agora como os supostos "progressistas". E, assim, escutamos barbaridades como a de Bescansa, dizendo que o aborto é um tema secundário, ou também as vaias ao cartaz "A revolução será feminista ou não será", que teve seu lugar ao sol em pleno 15M - acompanhada de uns machistas descerebrados que as arrancou entre aplausos da massa dos "indignados" -, ou ainda o crescente discurso de que tudo o que é LGBT é secundário e atrapalha na conquista da liberdade - econômica, é claro.

Até o final, o discurso econômico tem sido a grande armadilha da direita e do capitalismo para negar as liberdades civis que supostamente impediam a conquista econômica. Foi esse o mantra repetido por Franco para justificar seu genocídio, afinal, para ele(s), o importante é que a Espanha volte a ser rica,ainda que seja transformando os cidadãos em escravos e não repartindo os benefícios, afinal, que importa se você está preso, se é rico? Parece ser este o discurso.

Essa perigosa tendência atual de substituir a luta social pela econômica nos leva a essas novas discriminações "justificadas". É este o grande problema que há em Podemos e em seu elitismo universitário: é fácil desenvolver teorias ignorando a prática e a realidade. Nos cômodos, escritórios e departamentos da Complutense, não sabem nada da rua, da realidade e do sofrimento cotidiano dos trabalhadores e do povo. Há muitos daqueles que crescem sob estudos e carreiras, teorizando teses condescendentes sobre as marginalizações que nunca sofreram. E, dessa forma, surgem conceitos exdrúxulos como o da "pobreza energética", como se a pobreza afetasse parcelas estanques da realidade, ignorando outras e sofressem da escassez do aquecimento, mas comprasse modelos da Gucci ao mesmo tempo. A pobreza é pobreza e cobre tudo, especialmente a dignidade de uma pessoa.

Igualmente assim, se deslocou o eixo político para a direita. Impondo um prisma burguês do que é econômico como rodo que define da felicidade do indivíduo. Não importa se a sociedade te leva a fazer empréstimos para se encaixar no "modelo de felicidade", ou que sofra em depressões, porque seu entusiasmo e sua juventude não são as hegemônicas, porque se você tem dinheiro, não existem problemas. Ainda que nos digam outras vezes que não sofremos homofobia quando nos insultam ou nos agridem, sabemos que isso, na realidade, é porque não somos suficientemente ricos para comprarmos nossa dignidade.

E todo este problema nos leva ao suposto triunfo do Syriza e seu inconcebível pacto com os Gregos Independentes (ANEL), um partido cristo-fascista que se opõe aos avanços sociais. Tentam justificar que o importante é o consenso econômico, como se todos tivessem as mesmas razões e objetivos para declarar algo. Assim, vemos muitas mais concordâncias entre Marine Le Pen e o Podemos, do que entre ela e a direta monárquica. Mas o importante é o que pensam fazer com essa realização. Expulsar todos os imigrantes e minorias e impor o patriarcado heteronormativo e desfazer-se dessa oligarquia ou impor um novo modelo integrador para os precários, minorias ou excluídos? Porque não é o mesmo. Mas no caso de retirar-se da luta social, tudo é igual, não há direita nem esquerda, só economia. Uma falsidade manifesta.

Tristemente, Tsipras deixou claras as consequências deste falido discurso econômico ao pactuar com o partido Gregos Independentes. Claro que tudo estava mais do que que combinado, pois do contrário não se entende a rapidez em se em confirmar o pacto após a vitória e muito menos a retirada do direito de adotar dos casais homoafetivos justamente 10 dias antes da vitória (quando Syriza o levava em seu programa desde 2012). É claro que essa foi uma das exigências para a ANEL compactuar. E já estamos vivendo as consequências dessa homofobia nas próprias declarações de Tsipras para justificar a retirada da adoção de casais homoafetivos de seu programa: "É um tema difícil, que requer diálogo. Existem contradições na comunidade científica sobre isso e não o incluiremos no nosso programa de reformas."

Uma grande falsidade para justificar sua traição que ressuscita a homofobia, sustentada pelas mentiras e a ignorância. A comunidade científica - o que quer que seja isso, mas existem cristo-fascistas que se fazem passar por cientistas graças ao dinheiro da Igreja - tem sido unânime em sua avaliação positiva dos filhos de casais homoafetivos. Mas agora, o que para Tsipras parece uma minúcia (o que é a desgraça da comunidade LGBT em lugar de tentar, que não está garantido, superar o modelo econômico capitalista ainda que seja renovando-o?), na Grécia os homofóbicos desenvolverão novos argumentos contra a igualdade e a liberdade.

Aqui, este perigoso argumento está explorando até mesmo a sanidade do Podemos e outras organizações de "terceira via". "Pergunte você a um gay grego o que prefere, poder comer ou poder se casar", defendiam no Twitter, tentando justificar a polêmica com a associação de Tsipras com os cristo-fascistas e tentando mostrar que ambas são excludentes. Não são excludentes. De fato são imanentes. Sem uma, não se dá a outra. As ditaduras são especialistas no discurso econômico que ignora as liberdades e os avanços sociais.

Veremos uma implantação deste discurso nos próximos anos, mas antes ou depois acabarão reconhecendo o que é errado. A luta social - para não dizer a luta de classes - é a prioridade de uma sociedade feliz e rica de verdade. Menos dinheiro, melhor repartido e entre cidadãos libres, não entre elites privilegiadas e visíveis, que ocultam as minorias (e não tão minorias) oprimidas e invisíveis.

PD: A escandalosa ausência absoluta de mulheres no governo de Syriza, que gerou a hashtag no twitter #SinMujeresNoHayDemocracia, confirma minhas denúncias da perigosa degeneração de um partido que até agora havia destacado pela sua defesa dos discriminados.

* Artículo publicado originalmente en el blog “Palabra de Artivista†del diario Público.

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