Gênero e Sexualidade

Syriza, Podemos, a Frente de Esquerda e as mulheres

03 Feb 2015 | O Syriza é criticado pela ausência das mulheres em seu brilhante gabinete. Podemos, do Estado espanhol, também recebeu o ano passado, numerosas críticas de feministas pelas contradições entre seu discurso e sua prática a respeito da agenda de igualdade de gênero. Ambos agrupamentos políticos são considerados de esquerda por milhões de pessoas. É igual na Frente de Esquerda? Por que a “questão da mulher†tem uma importância fundamental para o marxismo revolucionário?   |   comentários

O Syriza é criticado pela ausência das mulheres em seu brilhante gabinete. Podemos, do Estado espanhol, também recebeu o ano passado, numerosas críticas de feministas pelas contradições entre seu discurso e sua prática a respeito da agenda de igualdade de gênero. Ambos agrupamentos políticos são considerados de esquerda por milhões de pessoas. É igual na Frente de Esquerda? Por que a “questão da mulher†tem uma importância fundamental para o (...)

Depois do triunfo eleitoral, o Syriza anunciou a lista de pessoas que integrarão o gabinete presidido por Alexis Tsipras e estalou o escândalo: não só pela aliança com o partido da direita nacionalista, que “combina um discurso ‘anti resgate’ e ‘anti troika’ com uma ideologia conservadora, xenófoba, antissemita, nacionalista, homofóbica e defensora da igreja ortodoxa†senão também porque as doze cadeiras estarão presididas por homens.

Uma das vozes críticas foi a do emergente Podemos do Estado espanhol, que disse não ser um partido de esquerda nem de direita, porém que também já havia recebido fortes críticas no ano passado por parte de reconhecidas feministas, porque suas principais figuras são homens e porque manteve certas ambiguidades a respeito de questões chaves da agenda das mulheres.

Além de algumas análises que tentam tornar parecido o triunfo do Syriza, o crescimento do Podemos e a emergência da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores (FIT) nas últimas eleições na Argentina, existem muitas diferenças substanciais entre esses agrupamentos, onde a importância outorgada as mulheres e sua luta contra a opressão, não é menor.

Apesar das diferenças programáticas e de estratégia política (que são públicas) entre os partidos que integram a FIT, a unidade está estabelecida fundamentalmente ao redor da defesa da independência política da classe trabalhadora e de um programa que coloca suas principais demandas e as do conjunto dos setores explorados e oprimidos, assim como a luta por um governo dos trabalhadores. Por isso, seu programa inclui as reivindicações democráticas fundamentais das mulheres e contra o heterossexismo, expressadas também nas campanhas eleitorais através da postulação de candidatas e candidatos que são referência dessas lutas, etc.

Misoginia com roupagem de esquerda e feminismo de ocasião?

A maioria das correntes que se reivindicam de esquerda, tem incorporado as demandas do movimento de mulheres e do movimento LGBTI nos últimos anos, porém em chave eleitoreira, o que provoca crises permanentes entre seus aderentes, que confrontam o discurso público com as práticas de seus agrupamentos (ou seja porque os líderes sempre terminam sendo os homens, porque se reproduzem comportamentos misóginos ou se estabelecem novas prioridades no momento de conquistar o poder, conseguir maior presença pública, etc.)

Esta incorporação, relativamente recente, da “igualdade de gênero†e do “respeito a diversidade†que encontramos nos agrupamentos que se reivindicam de esquerda distanciam-se muito da luta contra a opressão que é tradição das correntes marxistas revolucionárias. A derrota imposta pela contra ofensiva imperialista, conhecida como neoliberalismo, moldou a setores da esquerda que adaptaram sua estratégia e programa ao de uma luta mínima pela ampliação de direitos na democracia burguesa. Como já sinalizamos na revista Ideias de Esquerda: “Se as classes dominantes se viram obrigadas a incorporar estas demandas (as dos movimentos sociais) para desativar a radicalização, cooptar e integrar a amplos setores no regime, estas correntes de esquerda em vez de considerar estas conquistas como um ponto de apoio, as estabeleceram como todo o horizonte último. Seu programa anticapitalista se trocou por um programa antineoliberal, isto é, com objetivo mínimo defensivo de limitar os alcances mais pérfidos da restauração conservadora†.

Mas no polo oposto, se encontram as correntes que se reivindicam de esquerda, porém negam a luta pelos direitos democráticos elementares dos setores socialmente oprimidos, como se estas corresponderem aos partidos da burguesia e das classes médias progressistas, porém não concernem ao conjunto dos explorados, que devem esforçar-se exclusivamente as lutas sindicais e corporativas.

Queremos o pão, mas também as rosas

Enraizado na classe trabalhadora, a única classe progressista da sociedade capitalista, o socialismo revolucionário sempre enfrentou os preconceitos misóginos defendidos pelas instituições patriarcais e as classes dominantes para dividir a classe operária; algo oposto pelo vértice a política de todas as correntes reformistas – que se adaptaram as degradadas democracias burguesas – ou populistas que, apoiando-se no campesinato, as classes médias, etc., se adaptaram aos preconceitos pequeno burgueses, atrasados e reacionários como os que a igreja, a família patriarcal e outras instituições invadem a consciência de milhões de pessoas.

Pelo contrário, em sua reação contra todas as manifestações de arbitrariedade, o marxismo se esforça para demonstrar a importância que adquire a luta anticapitalista do conjunto dos explorados, para todos e cada um dos oprimidos, qualquer que seja o setor ou classe social a que pertencem. Assim, toda conquista parcial de direitos democráticos, adquire uma importância vital se está posta em função de fortalecer o movimento na luta radical pela emancipação, ao tempo que a classe trabalhadora – na qual tem crescido enormemente a taxa feminina, debaixo do chicote da precarização do trabalho - aprende a fazer ecos de todos esses casos de arbitrariedade e opressão que cruzam a sociedade, “qualquer que sejam as classes afetadas†(como sinalizava Lênin).

Desde esse ponto de vista, o Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), integrante da FIT, participa das lutas da classe trabalhadora, mas também do movimento de mulheres e da juventude. Seus deputados acompanharam estas lutas tanto nas ruas como no Congresso e nas legislaturas da Província de Buenos Aires e Mendoza.

Nosso objetivo é construir uma força militante de dezenas de milhares de trabalhadoras, trabalhadores e jovens, que ganhem peso nos sindicatos e centros de estudantes sendo capazes de mobilizar a centenas de milhares para quebrar a vontade da classe dominante e seu aparato de dominação. Nesse sentido, levantar uma política conta a opressão das mulheres no movimento operário, não só consideramos fundamental porque aponta as demandas de um dos setores mais oprimidos entre os explorados – como são as mulheres trabalhadoras -, mas porque também combate o sindicalismo e é um fator decisivo no processo de moldar um setor da vanguarda em um classismo combativo não corporativo – fazendo próprias as demandas democráticas, cuja degeneração, por parte do Estado capitalista e seu regime de democracia para os ricos, afeta a vida do conjunto das mulheres.

Por isso, o PTS/FIT impulsiona a autoorganização de comissões de mulheres em locais de trabalho, sindicatos e agrupações sindicais, centros estudantis, etc. para por em pé um movimento de mulheres na luta pela sua emancipação. Nesta tarefa, nós mulheres militantes temos um rol destacado na construção da agrupação Pão e Rosas junto a outras trabalhadoras, estudantes e donas de casa que simpatizam com nossas ideias.

Mas a luta pela emancipação das mulheres – e do conjunto dos oprimidos – não é uma tarefa exclusivamente feminina. Por isso, nosso partido se destaca por suas elaborações teóricas sobre o feminismo e marxismo, para o combate ideológico; conta entre suas fileiras com numerosas companheiras dirigentes políticas, operárias e estudantes, intelectuais marxistas e lutadoras reconhecidas em todos os âmbitos, incluindo deputadas e legisladoras, que estão a par de nossos companheiros com os quais compartilhamos este programa e estratégia revolucionária pelo fim último: derrotar o capitalismo e construir uma sociedade liberta de todas as cadeias da exploração e da opressão que hoje pesam sobre a imensa maioria da humanidade.

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