Cultura

Simone de Beauvoir redescoberta

23 Feb 2015   |   comentários

A Força das Coisas é a terceira autobiografia de Simone de Beauvoir. Encontramos aqui, inicialmente, a escritora no fim da Segunda Guerra mundial; estando na França ela nos conta da guerra como algo longínquo, suas impressões são todas do que foi dito e falado sobre a guerra. As viagens durante essa obra serão muitas – e com maior carinho encontraremos as impressões da viagem que fez para o Brasil com Sartre. A narrativa da epopeia que era pra Simone escrever cada obra sua também estará aqui. Conheceremos pelos olhos dela toda a elite intelectual francesa. Mas repentinamente o que mais encanta e absorve é o medo da velhice que a atormenta, o sentimento de culpa, a sua imagem sempre em coexistência com a imagem de Sartre em contradição com a imagem de uma das mulheres que mais falou pela emancipação feminina.

Espera-se a verdade dita em primeira pessoa em uma autobiografia, mas o que se encontra é uma narrativa obscura e por vezes romantizada. Beauvoir tenta enganar o leitor passando por cima de fatos sobre sua vida pessoal que poderiam escandalizar ou dizer contra a imagem que ela e Sartre criaram – a imagem dele sempre aparece contígua a ela, ou, mais precisamente, o contrário, a imagem dela contígua a ele. Aos olhos do leitor mais atento aparece uma Simone de Beauvoir que reproduz muitas das impressões políticas de Bost, Lanzman e Sartre, três dos homens com quem ela se relaciona durante essa época da vida. Sem nunca se aprofundar na política mundial e nacional pós-segunda guerra com a desculpa de que tudo já é conhecido do leitor, ela se finge politizada.

O medo da velhice e da morte permeia toda a obra. Porém, estar viva e envelhecendo é uma culpa que ela carrega. Estar viva ainda depois de tantos mortos na guerra é, para ela, consentir nas atrocidades que foram feitas, é aceitar os mortos no campo de batalha, nos campos de concentração, nas cidades bombardeadas, os torturados na Argélia... E até que ponto não ser um de seus amigos que ousaram ir para o front e resistir não foi aceitar o que estava acontecendo? Com o passar dos anos, descrito em tantas páginas, há a aceitação de que a morte virá, mas a velhice ainda é vista como a aberração que transfigurará seu rosto. Mesmo falando em nome da liberdade ainda a encontramos presa ao desejo de juventude em todas as formas que ela se realiza; inclusive é, segundo ela, o que a leva a se relacionar com Lanzman, muito mais jovem que ela.

É durante esse período que Beauvoir escreve a obra “O segundo sexo†. A ideia da qual partiu para chegar àobra era escrever um livro com suas memórias, mas de repente ela se vê com a questão do que era ser mulher. Simone nunca tinha até então se dado conta do espaço que a mulher ocupava na sociedade, sempre em posição inferior ao homem. Foi preciso que Sartre dissesse a ela para ter mais atenção a tudo o que vivera para perceber que a mulher não estava perante a sociedade em posição igual ao homem. É prestando atenção àmaneira que foi criada e ao que acontecia a sua volta que ela se dá conta de que esse é um mundo masculino. Depois de muitas pesquisas, escreve “O segundo sexo†, que foi uma obra chocante e libertadora. O retorno que teve foi inúmeras cartas de mulheres agradecendo a obra, que conseguiu dar força a elas para que se libertassem individualmente de opressões masculinas que sofriam – são essas trocas que a motivarão anos mais tarde a falar pela legalização do aborto -, e cartas de homens que diziam que agora sabiam exatamente do que ela gostava na cama; a imagem que eles passam a vender dela para diminuí-la e desacreditar aquilo que ela dizia era a de "uma ’pobre mulher’ neurótica, uma rejeitada, uma frustrada, uma deserdada, uma mulher-macho, uma mal-fodida, uma invejosa, uma amargurada repleta de complexos de inferioridade com relação aos homens, com relação às mulheres, estava roída pelo ressentimento."

Simone escreveu quatro autobiografias, “O segundo sexo†se originou da tentativa de uma autobiografia e mesmo os seus romances como “Os mandarins†tem algo de autobiográfico. Há um certo narcisismo que se reconhece na autora e que ela admite quando conhece uma jovem que lhe quer entregar os seus diários pessoais para que ela leia – e que revela a ela o desejo de trabalhar em fábricas para ficar mais próxima do trabalhador, com quem deseja militar, atitude que ela reprova. Esse acontecimento revela uma outra face de Beauvoir: ela só foi militante até onde sua escrita lhe permitiu ser, pois ser reconhecida como escritora era o principal objetivo, o qual ela não queria abandonar por causa alguma.

Dois sentimentos que estarão presentes nessa obra serão a tristeza e a sensação de culpa em ser quem é. A tristeza soa quase como óbvia; em um período de guerras, fascismo e mortes qualquer um que não seja alienado não conseguiria viver sem que a realidade se intrometesse na vida pessoal e lembrasse que havia poucos motivos para ser feliz. O único a quem a felicidade parecia algo que os outros negavam, mesmo que não devessem, em sua opinião, é Camus, que se afasta cada vez mais do casal Sartre e Beauvouir até a sua morte, que é lamentada não por quem ele era, mas por quem ele tinha sido algum dia.

Além do sentimento de culpa em estar viva quando tantos camaradas morreram lutando ou resistindo, há também o sentimento de culpa em ser uma pequeno burguesa e francesa. Ser pequeno burguesa vem carregado de culpa porque pra ela é como ocupar o lado errado da "trincheira" na luta de classes; ela se sente ao mesmo tempo cúmplice e vitima: "(...) vitima, porque era odiado por uma classe inteira. Cúmplice, porque me sentia responsável e impotente. (...). Descobri a luta de classes nesse lento dilaceramento que nos distanciou deles (os operários) cada dia mais... Acreditava nela, mas não imaginava que fosse total... Descobri-a contra mim.(...) Sempre pensei contra mim." - aqui as palavras de Sartre são tomadas como as dela. Essa culpa e vitimização soam como uma desculpa para se resignar àposição que ocupa e da qual não abrirá mão, pois ninguém fica do lado da "trincheira" que não quer. Já a culpa por ser francesa aparece durante a guerra da Argélia: ela pertencia a um país que torturava, estuprava mulheres e matava os homens de um outro país que queria a liberdade, ela "(...) era a irmã dos torturadores, dos incendiários, dos saqueadores, dos degoladores, dos que causavam a fome". Mas ao menos nesse momento ela contestou a guerra e falou contra ela. A revista que fundou com Sartre trazia em todas as suas edições relatos das torturas que a França cometia na Argélia.

Mais precisamente, é durante a guerra da Argélia que a imagem de Beauvoir aparece sempre colada àimagem de Sartre. Ela lamenta, por vezes, não conseguir agir mais contra a guerra enquanto seu companheiro participa de tantos colóquios e escreve tanto contra a guerra e a retirada da França da Argélia. A resposta que ela ouve de Sartre é que ela não poderia e nem precisaria fazer mais, já que as pessoas reconheciam no discurso dele que ele falava pelos dois. É quase como uma perda de individualidade, os dois sempre coexistindo em relação ao outro, e até hoje são Sartre e Beauvoir.

Simone de Beauvoir apesar de criar cuidadosamente uma narrativa que não diga contra ela se desconstrói nas entrelinhas e naquilo que tenta esconder romantizando sua própria vida. Se por um lado sua autobiografia não nos conta a verdade que desejávamos descobrir em primeira voz, por outro lado humaniza uma imagem quase mítica que, se não foi inteiramente livre, tentou ser dentro de todas as contradições que a formavam. Não há descontentamento ao final da obra, a imagem que Beauvoir não consegue desconstruir de si mesma é a de uma mulher que ousou ocupar uma posição que apenas homens ocupavam. Ela ousou sair do ambiente doméstico e ser uma figura pública e, mais do que isso, dizer às mulheres que tinham poder de fazer o mesmo dentro de suas limitações sociais, pois, ainda em uma sociedade capitalista, a sua liberdade nunca seria completa; e, mesmo conseguindo ser em parte livre dentro do capitalismo, a culpa por essa liberdade não ser possível a todas as mulheres ainda a perseguiria. Beauvoir, ao fim dessa leitura, ainda é a mulher que ousou e conseguiu romper com o papel que a sociedade queria que ela ocupasse.

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