Direitos Humanos

Show de horrores na Faculdade de Medicina da USP

04 Dec 2014   |   comentários

A crise da Faculdade de Medicina da USP está longe de se fechar. Ainda assim, a Reitoria e o diretor José Costa Auler apostam na chegada das férias pra abafar o caso, e por isso não compareceram a nenhuma das Audiências Públicas convocadas pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa através do deputado Adriano Diogo. Entretanto, um estupro, uma violação e um assédio nunca serão esquecidos pelas vítimas. A permanência dessa dor (...)

A crise da Faculdade de Medicina da USP está longe de se fechar. Ainda assim, a Reitoria e o diretor José Costa Auler apostam na chegada das férias pra abafar o caso, e por isso não compareceram a nenhuma das Audiências Públicas convocadas pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa através do deputado Adriano Diogo. Entretanto, um estupro, uma violação e um assédio nunca serão esquecidos pelas vítimas. A permanência dessa dor gera morte, como foi o caso de dois estudantes da Faculdade de Medicina nos últimos anos, que se suicidaram pelos traumas sofridos. O silêncio gera impunidade. É preciso, nestes casos, lutar por memória, justiça e verdade, como assim fazemos contra as práticas decorrentes da ditadura militar no país.

A 3ª Audiência Pública ocorreu na última terça-feira revelando um verdadeiro show de horrores na Faculdade de Medicina. Os abusos se aproximam cada vez mais do conceito de tortura. A prática de se divertir àcusta da humilhação do outro, abusando de seu corpo, é ainda mais perversa quando se constata que tais atos são feitos com conhecimento de futuros médicos. Luvas cirúrgicas, macas e produtos que permitem maior lubrificação para facilitar o estupro são utilizadas para diversas práticas como conhecida "pascu" (pasta de dente no cú). As festas organizadas pelo Show Medicina contam com peças de teatro e interpretações "lúdicas" contra homossexuais e até uma apresentação para “jogar pedra na Geni†, com a música da Ópera do Malandro de Chico Buarque. Mas a Geni em questão representa um Coletivo de Mulheres da Faculdade, que busca resistência diante destas atrocidades.

A tradição e a necessidade de zelar por uma instituição se colocam por cima da vida de mulheres e também de estudantes homens vítimas da homofobia ou do abuso. Contra os que se levantam, os que dão um grito de dor e revolta, o discurso para abafar o caso é de que "não se pode generalizar" e que estão manchando a história da Faculdade de Medicina. A história já está manchada, pelo menos desde o caso Edson, cujos assassinos continuam impunes e felizes para sempre. Auler clamou por tratar os direitos humanos como uma questão de saúde pública, mas se esgotou a possibilidade de que tenha algum tipo de imparcialidade nestes casos. Auler acobertou e continua acobertando estudantes e professores, não há mais nada a reivindicar que não seja sua saída da direção.

A 3ª Audiência também trouxe uma grave denúncia de uma funcionária do Hospital das Clínicas, alocada na Faculdade de Medicina da USP, que há mais de uma década sofre preconceito homofóbico por sua orientação sexual. O assédio vem por parte, em especial, de professores e médicos que ocupam os cargos de chefia na Faculdade. E até agora, apesar de ações pontuais de setores institucionais pela diversidade, a USP não se pronuncia seriamente sobre esta situação. O discurso farsesco da Reitoria nos últimos anos para supostamente acabar com a violência na USP foi a entrada da polícia no campus, mas o que fazer quando a violência e o estupro já são práticas institucionais?

O Show Medicina, financiado pela Fundação Faculdade de Medicina, se mostra como precursor dessa prática semelhante àtortura e por isso suas festas não são simples expressões de diversão da juventude, são ações de ódio contra as "minorias". Ainda assim é importante ressaltar que a coibição de festas e inclusive de uso de bebidas será utilizado pelo regime universitário como coerção da liberdade e cultura da comunidade universitária. A Reitoria da USP tentará proibir festas de convivência e culturais igualando-as a essas barbaridades planejadas para impor humilhação, sofrimento, dor para “diversão†de “senhores que detêm poder†e atuam livres, com apoio ou conivência da Direção da Faculdade de Medicina e da própria Reitoria.

Assusta ainda mais que futuros médicos estejam se formando com conhecimento prático em estupro e abusos. Muitos não atenderão no SUS e sim para as empresas privadas da saúde, para enriquecer, mas terão acesso ao corpo das pessoas em distintos estados, inclusive sedados. Os depoimentos do diretor do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz, Murilo Germano, foram de um cinismo estupefato. E as saídas apresentadas até o momento já se mostram como armadilhas. Auler propõe um Centro de atendimento às vítimas, mas pede "hombridade" às mulheres. Nenhuma saída "por cima", nenhuma saída pelas mãos que por anos acobertaram estas práticas poderá dar respostas àsituação atual.

O importante passo de escancarar as denúncias na Assembléia Legislativa foi decisivo para quebrar o silêncio e abrir espaço para uma mobilização. Uma CPI será instaurada nesta semana com acordo de todos os deputados da Alesp. Devemos saber que não é suficiente. As investigações devem ter como protagonista organizações de mulheres, entidades que realmente defendem as vítimas, organizações de direitos humanos e as próprias vítimas, para garantir a punição a todos os culpados. É preciso se apoiar nas manifestações de solidariedade, como foram as fotos de trabalhadores da USP se posicionando contra os estupros - que tomou as redes sociais nas últimas semanas - para avançar em uma mobilização independente da Reitoria e da direção da Faculdade de Medicina, em uma ampla unidade para colocar fim aos estupros e abusos na Faculdade de Medicina e em toda a USP.

Artigos relacionados: Direitos Humanos , Gênero e Sexualidade









  • Não há comentários para este artigo