Movimento Operário

Sem os estudantes a greve da USP, Unesp e Unicamp não seria a mesma

07 Sep 2014   |   comentários

Há cem dias em uma greve histórica das estaduais paulistas, os estudantes conseguiram em diversas vezes provar como podem ser determinantes no apoio aos trabalhadores e na luta em defesa da Universidade. Na USP, onde os trabalhadores estão àfrente, a aliança dos estudantes deu exemplos como o “cantinho das crianças†, onde os estudantes fizeram um espaço para cuidar dos filhos dos trabalhadores, liberando principalmente as mulheres para a greve, além de, junto aos trabalhadores, garantir os piquetes e trancaços. Nesses exemplos, mais uma vez os estudantes, com militantes da Juventude as Ruas àfrente, mostraram seu papel em defender a greve, inclusive nos momentos mais duros da repressão policial orquestrada pela reitoria. Esses e outros exemplos são parte de uma tradição de movimento estudantil que queremos resgatar, na qual a juventude emerge como um sujeito político nacional aliada aos trabalhadores.

Nas três universidades estaduais paulistas atuamos no sentido de organizar mais estudantes dentro dessa concepção. Na Unicamp, pudemos testar na prática a concepção no CACH-Unicamp de um centro academico militante (impulsionada pela Juventude às Ruas junto a estudantes independentes), expressando em pequeno como com uma política baseada em métodos de organização pela base, de combate ao regime, tribuno das questões populares e aliada aos trabalhadores, é possivel emergir um novo movimento estudantil. Na greve, onde as diferenças se mostraram mais evidentes, entidades importantes como os DCEs da USP e da Unicamp não fizeram muito além de soltar notas ou mandar alguns militantes em uma ou outra atividade para marcar presença, longe de romper com as práticas rotineiras.
Isso porque as correntes de esquerda, engessadas, seguem na concepção de se manter ano a ano ganhando a entidade como principal intuito. É assim que o PSOL atua na Unicamp, onde há 12 anos na entidade se mantem adaptado ao regime da universidade, cumprindo um papel de desconstrução, e durante a greve se absteve de organizar assembleias de cursos, de chamar debates, de levar estudantes a atos e a se solidarizar com os trabalhadores. E o PSTU, junto ao MES (PSOL) na USP, onde fazem parte da gestão do DCE, e no local onde os ataques estão sendo muito maiores, como a possibilidade de PDV para trabalhadores, cortes no orçamento e ameaças constantes de cursos pagos, seguem uma política semelhante.
Desde o início da gestão no CACH buscamos fazer o contrário. Podemos sintetizar em três ideias fundamentais o que isso quer dizer:

Primero: uma entidade que se organiza desde as bases com o método de assembleias. Isso para que os rumos do movimento sejam decididos de forma democrática e a partir desses espaços se discutam as principais políticas. Foi assim que no ato do dia 14/8, um dos mais importantes da greve, na frente do palácio dos bandeirantes, fomos o único CA que organizou um ônibus de estudantes para participar e se somar a luta.

Segundo: um CA que rompa com o corporativismo, ao contrário da rotina do movimento estudantil de separar as demandas específicas de cada lugar da luta politica. Buscamos aproveitar o momento de greve, onde o debate de educação está instalado nacionalmente, para levantar questões como a falta de professores, o problema do enxugamento dos currículos, da falta de políticas de permanência, para impulsionar um debate sobre qual projeto de educação defendemos. E só é possivel ter essas conquistas a partir de avançarmos para a democratização radical do acesso, mais professores para mais vagas a partir do fim do vestibular e da estatização das universidades privadas.

Terceiro: uma entidade que se choque com a estrutura de poder da universidade, que atualmente se sustenta por um estatuto criado na ditadura militar, e também por conselhos universitários que na realidade são instrumentos de intervenção dos governos e empresas dentro da universidade, onde estão membros da FIESP. Esse ano esses "administradores" aprovaram 0% de reajuste para os trabalhadores em meio aos escândalos de dezenas de casos de super salários. Aí nos perguntamos: onde está a verdadeira crise? Nesse sentido que desde o começo da greve votamos em assembleia a luta para acabar com o CO e a Reitoria, defendendo uma estatuinte livre, soberana e democrática que crie um governo dos três setores. Não precisamos de um órgão que referenda uma honraria ao ditador Jarbas Passarinho, ao que respondemos com uma grande mesa com mais de 100 pessoas para debater o problema dos resquícios da ditadura na universidade, e a necessidade de lutarmos contra essa estrutura de poder.

Esses três pontos articulados a aliança com os trabalhadores, profunda independência das reitorias e dos governos e a defesa de entidades com gestão proporcional (em que cada concepção que disputa a eleição esteja expressa proporcionalmente aos votos que tiveram) são medidas para avançarmos na constituição de um movimento estudantil combativo e democrático. Nessa greve, tanto no CACH como na atuação na USP e UNESP, a Juventude às Ruas mostrou que estando ou não na direção das entidades é possível construir um movimento estudantil que também “não tem arrego†.

Nas assembleias de curso e gerais chamamos cada estudante para, mais que apoiarem, se vejam como uma força determinante nesse momento chave do conflito. Fizemos diversos chamados ao DCE para que coloque sua força na greve. E inclusive fizemos um chamado para que os membros da gestão do DCE que estão com candidaturas eleitorais – como os do PSOL e do PSTU – dispusessem seu tempo de TV para que o comando de greve fale e expressar a luta.

Contra o qualquer rotineirimo, é assim que encaramos esses 100 dias; a cada piquete, as grandes faixas estendidas pela cidade, os cortes de rua e diversos exemplos. Chamamos os estudantes construir a Juventude às Ruas e fortalecer essa nova tradição no movimento estudantil.

Artigos relacionados: Movimento Operário , Juventude









  • Não há comentários para este artigo