Internacional

ENCONTRO DE TRABALHADORES "FAÇAMOS COMO OS GARIS"

Relato de Alejandro Vilca sobre a experiência do Encontro com os garis do RJ

07 Apr 2014 | Alejandro Vilca, dirigente do PTS e delegado dos coletores de lixo do SEOM de Jujuy na Argentina, viajou ao Brasil para o Encontro de Trabalhadores "Façamos como os garis do RJ!", organizado pela LER-QI, conhecendo estes lutadores, suas experiências e contribuindo no debate. Resume neste relato a emocionante experiência com o mais avançado da luta de classes no Brasil.   |   comentários

Alejandro Vilca, dirigente do PTS e delegado dos coletores de lixo do SEOM de Jujuy na Argentina, viajou ao Brasil para o Encontro de Trabalhadores "Façamos como os garis do RJ!", organizado pela LER-QI, conhecendo estes lutadores, suas experiências e contribuindo no debate. Resume neste relato a emocionante experiência com o mais avançado da luta de classes no (...)

"Quando via as fotos dos garis tomando as ruas do Rio...via meus próprios companheiros, como em um espelho, quando os escutava....estava ouvindo meus companheiros, cada relato de seus padecimentos era como um dia em nossas vidas...eles, mais que ninguém, se deram conta de que somos uma mesma classe, eles diziam ‘nossa classe é internacional e temos um mesmo inimigo’...
...não só ganhei amigos aqui, mas encontrei irmãos de classe!!"

- partes do discurso de Vilca no Encontro

Às mobilizações de junho de 2013, pelo transporte, contra as corrupções nas obras do mundial, pela saúde, etc., onde o mais dinâmico foi a juventude, seguiu-se em outubro a greve dos professores do RJ, onde pararam, quase depois de uma década, os professores municipais. Lutas que foram desviadas.
Mas a entrada em cena dos garis, um dos setores mais explorados da classe operária, foi uma quebra na luta de classes no Brasil, e ao mesmo tempo uma continuidade dos processos anteriores.
Como diziam, custou-lhes muito sair a lutar, foram muitos meses em que mastigaram a raiva e as idéias, onde falavam em voz baixa. Mas, chegado o momento, não o puderam deter mais... eles planificaram! No meio do carnaval do Rio os garis arruinaram a festa dos capitalistas e do prefeito Paes, superando também a burocracia da UGT... mostrando a verdadeira cara da cidade maravilhosa, o rosto dos explorados nas ruas!!

Não foi de menos conseguir um triunfo depois de oito dias de greve, em que cada dia adquiria mais força e massividade, um aumento de 37%, em um país onde a inflação anual é apenas superior a 6% (aqui na Argentina uma inflação de 40% anual e os professores, com uma greve histórica contra o governo e a burocracia, conquistaram 31% de aumento, quando o governo oferecia apenas 22%) e R$ 1.100 de mínimo; este, entretanto, é apenas o primeiro “round†. Ainda resta muitas lutas a dar e os garis sabem disso, para equiparar a renda mínima familiar estimada em 2.700 reais, e outras melhorias trabalhistas. Ao triunfo dos garis do RJ, seguiram-se outras batalhas dos garis de diversas cidades (como agora na região do ABC de São Paulo). Isso mostra que o mais importante foi o “despertar†àluta sindical de setores precarizados da classe trabalhadora, que dá a sensação de que já são milhares no Brasil. Os métodos de luta: a assembléia, a democracia direta, a solidariedade de classe, uma posição anti-patronal... e uma saudável avidez política! Uma demonstração de criatividade na luta, que pode antecipar que se começa a por de pé a poderosa classe operária do Brasil, com epicentro no RJ, em um país que acumula grandes desigualdades e contradições que podem estourar nas mãos de Dilma.

As canções que se cantavam em junho agora as entoavam esses esquecidos trabalhadores, em sua maioria negros, como o grito de guerra: “Ôoo, o gari acordou!†Os garis são trabalhadores “plebeus†, em sua maioria negros, dos setores mais empobrecidos do Rio, da zona norte dos morros e favelas.

A LER-QI, seus militantes, com um fino instinto classista, esteve desde o primeiro instante com eles, levando solidariedade e rodeando de apoio a dura luta que empreenderam, em troca foram ganhando a amizade, o respeito e a confiança, que abrem a possibilidade de poder avançar mais profundamente com sua vanguarda. Isto foi um salto importante na qualidade do grupo,uma lição enorme de experiência, que os forja, sendo parte viva que acompanhou este “despertar†, e que nos dá muita personalidade. Diferentemente do centrismo e dos reformistas, que chegaram apenas depois do triunfo da greve.

Foi um acerto o Encontro de Trabalhadores “Façamos como os Garis do RJ!â€

Pude estar num ponto de ônibus, onde ouvi as conversas entre dois trabalhadores, “nós ganhamos muito pouco...temos que fazer algo...se os garis conseguiram um aumento...nós estamos mal assim...o jeito é fazer como eles†...

O Encontro só foi o coroamento de um importante e audaz trabalho político dos companheiros da LER-QI no movimento operário, um grande desafio, que colocou um condimento importante de qualidade, que contribuiu para o grupo e para a militância. As políticas e resoluções, discutidas entre todos, que se propuseram são justas e importantes para impulsionar um movimento ao redor desta experiência com as principais lições.

Com mais de 200 trabalhadores, em sua maioria jovens, de diferentes estruturas (metroviários, metalúrgicos, professores, rodoviários, garis, trabalhadores da USP, bancários, etc.) me deixaram a melhor impressão pelo nível político das discussões.

Mas a delegação dos garis do RJ decididamente “ganhou†o Encontro, com muito boas intervenções, simples e muito políticas, com profundas definições programáticas, classistas, com emotivos relatos da luta, carregados de força e um profundo ódio de classe “antipatronal†, algo contagiante!! Mais de uma vez (e não só comigo) se escorreram lágrimas e um brilhante sorriso ao mesmo tempo.

Teria gostado muito que meus companheiros do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS) e da Fração Trotskista (FT-QI) pudessem ter participado deste importante Encontro. É uma grande conquista para todos, me senti privilegiado, e estou profundamente agradecido aos companheiros da LER-QI por haver podido participar e conhecer os garis...

Saudações, Alejandro.

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