Sábado 24 de Agosto de 2019

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Rebelião na Turquia

07 Jun 2013   |   comentários

A situação aberta na Turquia mostra uma vez mais que, quando há mato seco, uma faísca é o suficiente para acender uma fogueira política. A duríssima repressão policial contra um grupo de jovens ambientalistas que estavam na praça Taksim em Istambul, protestando contra a construção de um shopping onde agora há um parque, se transformou em uma rebelião nacional contra o governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP). A repressão estatal contra esta onda de protesto deixou um saldo provisório de dois jovens mortos pelas forças repressivas e mais de 1500 detidos.

O governo que havia adotado uma posição dura contra os manifestantes mudou sua política. Aproveitando a ausência de Erdogan em viagem ao Marrocos, o vice-primeiro-ministro pediu desculpas pelos “excessos repressivos†, reconheceu como legítimo o protesto dos ambientalistas e propôs uma mesa de diálogo.

Mas até o momento, nem este gesto do governo nem a intervenção em andamento do opositor Partido Republicano do Povo, tradicionalmente ligado às Forças Armadas, puderam acabar com a rebelião em curso. Após dias de mobilizações massivas, principalmente dos setores da classe média urbana e diversas minorias oprimidas, o protesto entrou em uma nova etapa no dia 5 de junho com a greve e a mobilização convocada pela Confederação de Sindicatos do Setor Público (KESK) e a Confederação de Sindicatos de Operários Revolucionários (DISK) que dizem ter 240 mil e 350 mil membros respectivamente. Dessa maneira, amplos setores da classe trabalhadora se somaram àluta. Ao grito de “Taksim, resista, os trabalhadores chegam!†dezenas de milhares de pessoas confluíram na Praça Taksim, que se transformou no coração da revolta, exigindo a destituição dos chefes de polícia, a libertação de todos os detidos e a suspensão do polêmico projeto de “urbanização†do governo. Cenas semelhantes se repetiram em Ankara e outras cidades importantes do país.

Ainda que a mobilização não seja suficiente para derrubar o governo, que após uma década no poder ainda conserva o apoio de importantes setores da população, Erdogan enfrenta a primeira crise política de magnitude cujo final permanece aberto.

Os motores da mobilização

Esta revolta social explosiva, que surpreendeu o governo, mostra que sob a aparente estabilidade política, sustentada por uma década de altas taxas de crescimento econômico, vinha se gestando um profundo descontentamento contra o regime autoritário e opressor. O protesto, com uma alta cota de espontaneidade, é produto da combinação de demandas democráticas e sociais imediatas com problemas políticos que estão na base da constituição do Estado turco, entre eles: a opressão nacional da minoria curda; a tensão entre o nacionalismo laico e as forças políticas islâmicas; o papel da Turquia como principal aliado do imperialismo norte-americano e membro da OTAN e sua localização como “ponte†entre o Ocidente e o Oriente Médio.

Amplos setores das classes médias laicas veem como o Partido da Justiça e do Desenvolvimento, apesar de representar uma variante moderada do islamismo e não ter respeitado o caráter laico do Estado, tenta avançar na imposição de valores religiosos – como a restrição ao consumo do álcool – o que potencialmente coloca em perigo direitos democráticos, como o direito ao aborto conquistado em 1983. Por sua vez, Erdogan impulsiona uma reforma constitucional que implicaria uma mudança mais bonapartista para um regime presidencialista, e lhe permitiria um novo turno no poder, desta vez como presidente.

Junto com estas demandas democráticas, é evidente a profunda desigualdade social que se aprofundou, apesar de uma década de crescimento com taxa média de 7,5% que transformou a Turquia na 17ª maior economia mundial. Na sombra do AKP se enriqueceu uma burocracia política submissa e uma elite empresarial que tirou vantagens das políticas neoliberais e das privatizações. O programa de “urbanização†impulsionado por Erdogan, e que desatou a atual onda de protesto beneficia aos capitalistas e aqueles que podem pagar por casas de luxo, enquanto buscam expulsar os pobres e os trabalhadores dos bairros centrais de Istambul. Isso explica parte do ódio popular, sobretudo entre os setores juvenis, que são os que mais foram afetados pelo desemprego agora que o “milagre turco†se esgotou e o crescimento econômico não ultrapassa os 3%.

Outro elemento que alimenta o descontentamento com o governo é a oposição crescente àpolítica intervencionista na Turquia, em particular, sua ingerência direta no conflito na Síria com o beneplácito dos Estados Unidos, sobretudo após o atentado terrorista atribuído a simpatizantes do regime de Assad que custou a vida de 46 civis.

As consequências regionais da crise do modelo turco

A crise aberta na Turquia tem projeções regionais: o país é um aliado estratégico do imperialismo norte-americano no mundo muçulmano, é uma peça chave para sustentar os interesses geopolíticos imperialistas e do Estado sionista no Oriente Médio, e está tendo um papel central na guerra civil síria, além de ser membro da OTAN.

Por isso, Washington está mais que preocupado pelo golpe que significaria a queda revolucionária de Erdogan. Os EUA promovem o chamado “modelo turco†, isto é, um regime de democracia tutelada, baseado na hegemonia política do islamismo moderado e no papel das Forças Armadas como garantidor do regime pró-imperialista, como saída política de desvio nos países nos que, produto da “primavera árabe†caíram as ditaduras pró-imperialistas, como acontece no Egito e na Tunísia com o governo da Irmandade Muçulmana. A crise deste “modelo†produto da mobilização popular pode alentar a luta de amplos setores da vanguarda operária e juvenil que vem enfrentando estes governos reacionários.

Até agora a Turquia havia se mantido a margem da “primavera árabe†, quiçá esta crise seja uma advertência de que está chegando sua vez.

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