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UMA ONDA DE GREVES PERCORRE O PAÃ S

Que as centrais sindicais convoquem uma paralisação nacional para unir as greves e retomar as demandas de junho

22 May 2014   |   comentários

A greve dos rodoviários de São Paulo termina de colocar no centro do cenário político nacional não só a crescente disposição de luta da classe trabalhadora, mas também o desgaste das direções sindicais e os métodos radicalizados de luta operária.

Os comerciais de televisão tentando enaltecer o Brasil do futebol para vender produtos tomam conta da imprensa. O governo se esforça para vender a imagem de uma Copa que faz bem para o povo. Mas o sentimento que cala fundo e que ninguém consegue esconder é o de que enquanto bilhões foram gastos para receber o megaevento, a maioria da população, que assistirá aos jogos como se fossem em qualquer outro país pelos preços elitistas dos ingressos, segue amargando com enchentes, filas nos hospitais, escolas caindo aos pedaços, transportes precários e caríssimos, falta de moradia, corrupção, e mais recentemente também a falta de água, a ameaça de falta de luz e a perda do poder aquisitivo pela crescente inflação. Ainda por cima, para impedir que as contradições sociais inerentes a essa realidade venham àtona nas mais variadas formas de protestos que têm sido frequentes desde as jornadas de junho – não só as grandes manifestações de massas, mas também as greves, os movimentos de moradia e as explosões sociais nas favelas –, o governo opera uma brutal militarização da sociedade, gastando outros bilhões em armamentos e aumento dos contingentes policiais e colocando o exercito e a marinha nas ruas.

Uma onda de greves percorre o país

Nas últimas semanas, várias greves passaram a ganhar cada vez mais importância no cenário político nacional. Os professores municipais de São Paulo fazem uma greve que já dura quase um mês, na qual reivindicam que seu piso salarial seja elevado para R$ 3.000,00. Os rodoviários do Rio de Janeiro estão mostrando sua força com paralisações parciais combinadas com piquetes de centenas de trabalhadores, exigindo reajuste de 40% dos salários. Os funcionários da USP, numa assembleia de mais de 2 mil trabalhadores, aprovaram deflagrar greve a partir do dia 27 de maio, com possibilidades dessa se expandir para uma luta unificada das universidades estaduais paulistas. Várias outras categorias de servidores públicos já estão paradas ou ameaçam parar nas próximas semanas, dentre elas o conjunto dos servidores federais, e os metroviários de São Paulo.

A greve dos rodoviários de São Paulo termina de colocar no centro do cenário político nacional não só a crescente disposição de luta da classe trabalhadora, mas também o desgaste das direções sindicais e os métodos radicalizados de luta operária. Agora foi a vez dos cobradores e motoristas de ônibus de São Paulo passarem por cima da direção de seu sindicato, colocando em prática um novo método de luta que tira os ônibus das garagens para logo abandoná-los atravessados, interrompendo o trânsito nos principais terminais e avenidas da maior metrópole do país.

Depois do triunfo dos garis, que conquistaram 37% de aumento salarial além do ganho de vários outros benefícios, e com as várias greves que estão em curso, qualquer peão acha pouco “lutar†por 1 ou 2% acima da inflação oficial como vinham fazendo nos últimos anos.

Barremos os ataques na indústria

Na indústria de automobilística, a patronal, que vem ganhando lucros recordes nos últimos anos, obtendo polpudos subsídios fiscais do governo e realizando grandes investimentos, se aproveita dos elementos de crise com a redução das vendas para chantagear os trabalhadores buscando reduzir os custos de produção. Uma onda de férias coletivas e suspensões dos contratos de trabalho se alastra em praticamente todas as fábricas do setor.

O governo Dilma articula uma lei que institucionalize a suspenção do contrato de trabalho (lay-off), permitindo que a patronal pague apenas metade do salário durante esse período, obtendo ainda mais ajuda dos cofres públicos. Assim, o governo do PT, tomando para si o projeto histórico de reforma trabalhista do PSDB, busca ampliar e generalizar em nível federal esse tipo de ataque às condições de trabalho e salário que antes era restrito a cinco meses e passível de ser implementado apenas em algumas fábricas. Um brutal ataque que precisa ser barrado!

Na Mercedes Bens de São Bernardo do Campo, onde os operários estão sendo ameaçados com milhares de demissões e estão sendo forçados a aderir ao Plano de Demissões “Voluntárias†, paralisações parciais da produção foram realizadas, mostrando disposição de luta para resistir a esses ataques.

O dia 15 de maio retoma as jornadas nacionais de protesto

O dia 15 de maio, ao se dar no marco da onda de graves que percorre o país, permitiu a coincidência entre manifestações de vanguarda da juventude, ações operárias e protestos dos movimentos sociais de sem-teto que bloquearam as principais avenidas e rodovias em metrópoles chaves como São Paulo e Brasília. Desta forma, o 15M contou a inédita coluna de 1.500 operários da manutenção do metrô, que paralisaram o trabalho e marcharam pelas ruas do centro da cidade; as colunas de operários metalúrgicos dirigidos pela Força Sindical, que marcharam na zona sul e na zona leste; e a marcha multitudinária de professore, que novamente parou o trânsito da principal capital do país.

Desde o dia 7 de setembro do ano passado não víamos emergir uma jornada nacional de protesto como o 15M. Apesar da imprensa e o governo se esforçarem para desqualificar os protestos como “fracos†e minoritários, não conseguem esconder seu medo de que se potencialize a aliança entre a juventude nas ruas, as greves operárias e os movimentos sociais em luta, não só retomando as manifestações de massa do ano passado, mas desta vez como maior centralidade da classe trabalhadora. Medo esse que se potencializa pelas crises na finalização dos estádios, na obras de infraestrutura inacabadas, na falta de água e nas explosões de violência urbana nas cidades-sede dos eventos.

Que as centrais sindicais convoquem uma paralisação nacional

Lula e os petistas de toda estirpe tentam desqualificar as greves e protestos em curso dizendo que fazem o jogo eleitoral dos tucanos (com a ajuda do PCO). Por suposto, não explicam porque esses movimentos, assim como as jornadas de junho, se voltam tanto contra o PT como o PSDB. Para não prejudicar “seu†governo, a burocracia CUTista, além de avalizar os ataques nas montadoras, de se transformar em uma paladina dos supostos “legados†da Copa, em uma defensora de que devemos esquecer as mazelas do país para torcer cegamente pela seleção, contém a disposição de luta dos trabalhadores e desvia ou deixa minguar isoladas as greves que eclodem. A Força Sindical, que por ser oposição ao governo vem alentando algumas greves e protestos, devido a sua subordinação àpatronal e ao PSDB, fará de tudo para essas mobilizações servirem apenas como plataforma eleitoral de seus candidatos.

Nesse marco, as centrais sindicais antigovernistas, como a CSP-Conlutas (dirigida pelo PSTU) e a Intersindical (dirigida pelo PSOL) deveriam exigir que a CUT, a CTB e a Força Sindical convoquem uma paralisação nacional para unificar as greves em curso e retomar as demandas de junho. Uma paralisação organizada em assembleias de base, que dê lugar a piquetes e marchas de centenas e milhares de operários levantando suas próprias demandas de forma independente da burocracia sindical, das patronais e dos governos.

Um chamado como esse deveria servir para que todos os setores classistas e combativos da vanguarda se dirigissem às bases dos sindicatos dirigidos pelas centrais pelegas para convencê-los da necessidade de travar essa batalha, permitindo que façam uma experiência concreta com suas direções ao calor da luta de classes, obrigando-as a aderir ao chamado ou passando por cima das mesmas para tal. Esse chamado seria tão mais poderoso quanto maior fosse o número de sindicatos das bases da CSP-Conlutas e da Intersindical que o fizessem desde suas assembleias de base, em especial as categorias que estão em greve ou campanha salarial e que possuem peso político para se fazer ouvir, como a Confederação dos Servidores Federais, o Sindicato dos professores estaduais e municipais do Rio de Janeiro, o Andes e o sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, que também vêm de sofrer vários ataques. Especialmente os metroviários de São Paulo, por seu poder de paralisar a economia da principal cidade do país e gerar uma crise política de dimensão internacional por causa da Copa, podem ser um exemplo para o conjunto da classe trabalhadora. As próximas jornadas nacionais de protesto como o 15M esses sindicatos precisam fazer reverberar esse chamado nacionalmente paralisando suas próprias bases como uma demonstração de forças de que é possível ultrapassar as mobilizações corporativas de cada categoria unificando-as em demandas comuns.

A unificação das distintas categorias em luta numa paralisção nacional deveria levantar como demandas:

 Seguindo o exemplo dos garis, aumento geral dos salários de 40%, rumo ao piso mínimo do Dieese (R$ 3.019,07) e ao reajuste mensal automático de acordo com o aumento do custo de vida.

 Estatização dos transportes e aumento de verbas para a educação sob controle dos trabalhadores e usuários. Não ao pagamento da dívida pública e impostos progressivos aos capitalistas! Estatização do ensino privado e fim do vestibular!

 Fim da flexibilização das condições de trabalho e das demissões na indústria! Abaixo a lei que busca ampliar e generalizar as suspensões de contrato (lay-off)!

 Que todo parlamentar, juiz ou funcionário de alto escalão receba o mesmo salário que um professor ou trabalhador da saúde e dos transportes.

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