Crônica

OLHAR ESTRANGEIRO

Quando um trabalhador desafia uma multinacional

06 Nov 2014   |   comentários

Crônica de uma experiência junto aos trabalhadores de Lear, Donnelley e do Estaleiro Rio Santiago na Argentina.

As fábricas vão passando pela janela do carro em movimento na famosa “Panamericana†, rodovia que liga o centro econômico da Argentina com o Brasil. Parecem não ter fim, algumas com muros a perder de vista. É a zona norte da Grande Buenos Aires, coração industrial da Argentina.

Os trabalhadores de Lear, uma grande multinacional de autopeças que fornece para a Ford, e que passaram a ser chamados por alguns como “os indomáveis†, realizam mais uma de suas jornadas contras a demissão de mais de 100 trabalhadores, com mais de cinco meses de uma luta que ficou conhecida em todo o país com o lema “famílias na rua, nunca mais†.

Desta vez não havia o operativo de centenas policiais que marcou a maior parte das jornadas. Depois do desgaste político provocado pela última repressão – que contou com dezenas de presos e feridos por mais de 20 projéteis de balas de borracha, inclusive contra o Deputado Federal Nicolás del Caño –, depois que até mesmo os partidos políticos dos capitalistas foram obrigados a se pronunciar contra esta brutalidade, a justiça acatou as denúncias feitas pelos advogados que apoiam a luta dos operários.

Terminada a ação, uma delegação de trabalhadores do Estaleiro Rio Santiago, que vieram de outra cidade, sentaram para tomar mate e conversar com os operários de Lear. Os fazedores de navios vieram prestar sua solidariedade.

Em meio àconversa, um trabalhador contou que na década de 90, quando era criança, se lembrava de ter ido prestar solidariedade àgrande batalha que impediu a privatização do estaleiro na cidade de La Plata. Uma luta que se transformou num emblema argentino, pois foi a única grande empresa pública que se manteve como estatal.

O pai de família disse que aquela experiência dos anos 90 cumpriu um papel fundamental em sua educação, pois se não fossem as gerações anteriores de lutadores, hoje muito provavelmente ele não estaria trabalhando no estaleiro. E então comparou aquela experiência com a atual luta dos operários de Lear, dizendo que agora eram eles que estavam proporcionando uma boa educação para seus filhos.

Quando, no meio de sua fala, este pai de família agradeceu a deus, me dei conta de que ele não era militante da esquerda. Nesse momento senti a força das experiências de grandes batalhas da luta de classes para fazer avançar a passos largos a consciência política da classe trabalhadora.

Um operário de outra fábrica vizinha pede a palavra. Ele trabalha em uma das maiores gráficas do mundo, uma norte-americana chamada Donnelley, que também tem várias fábricas no Brasil. Ou melhor, trabalhava, porque os donos da empresa foram embora, abandonando os operários na rua. Mas estes resolveram ocupar a fábrica e colocá-la para produzir sob a administração dos próprios trabalhadores, e agora ela chama MadyGraf, numa homenagem àfilha de um dos operários. Os operários do estaleiro foram convidados a conhecerem a fábrica que ficava a alguns quilômetros dali e me integrei a essa comitiva.

Madygraf: três grandes ideias para levar adiante

Novamente a Panamericana mostrava as fábricas a perderem de vista, de todos os tamanhos, as multinacionais mais conhecidas. Chegamos.

Depois de mostrar uma parte da fábrica, um trabalhador jovem, com uma tranquilidade curiosa, começou a contar o que estavam vivendo ali. Me chamou a atenção a forma simples com que ele transmitiu três ideias muito profundas.

A primeira era de que as batalhas de MadyGraf e dos trabalhadores de Lear eram uma só, que era a luta da classe trabalhadora para que nenhuma família mais seja jogada na rua sem emprego por causa da sede de lucro dos capitalistas. Ele contou como se alimentaram mutuamente de solidariedade e que isso foi muito importante para que o governo não tenha lhes expulsado da fábrica ocupada. E contou a solidariedade que prestaram a inúmeras lutas dos trabalhadores, buscando uma união mais ampla de distintos setores da classe.

A segunda ideia foi a importância do apoio que conquistaram da população. Contou como eles prestaram solidariedade aos atingidos pelas enchentes dos bairros vizinhos. E contou os cadernos que imprimiram e levaram às crianças das escolas mais pobres da região, que não tinham onde escrever. Ligado a essa última experiência, explicou que o que eles defendiam era que a empresa pudesse cumprir uma função social, pois ela tinha capacidade para imprimir livros didáticos em escala gigantesca e a um custo muito mais barato do que faziam as empresas capitalistas. Essa era a ideia mais de fundo que estava por trás do programa de estatização da fábrica que defendem: que o estado comprasse sua produção colocando-a a serviço das necessidades da população e ao mesmo tempo permitindo que as funções do Estado sejam exercidas de forma mais barata. Então ele explicou que o governo não queria isso porque precisava dos empresários para financiar suas campanhas eleitorais, e iria acabar a enorme fonte de corrupção e desvio de recursos públicos que existe por trás do superfaturamento de contratos de prestação de serviços entre as empresas capitalistas e o Estado.

A terceira ideia foi a de que tudo isso não teria acontecido se eles não tivessem construído uma poderosa organização independente através de assembleias permanentes onde discutiam e decidiam sobre todos os problemas. Assembleias analisavam coletivamente a conjuntura nacional, os problemas políticos do país, para tomarem as melhores decisões sobre como seguir a luta. Ele contou que isso não existia antes, e que foi algo que aprenderam e construíram ao longo dos últimos anos, em cada batalha contra a patronal. Explicou que fizeram um profundo trabalho prévio de preparação. Que viam como a patronal estava fazendo movimentações estranhas, pois apesar de ter lucrado horrores no último período, estava terceirizando partes da produção enquanto a capacidade da fábrica não estava sendo toda utilizada. Relatou a detalhada investigação da produção que fizeram para descobrir os planos da patronal e se prepararem para uma eventual tentativa de fechamento da fábrica, exigindo que se abrissem todos os livros de contabilidade.

Indagado sobre o que aconteceria se a fábrica fosse estatizada, ele disse que não aceitariam que o Estado colocasse seus funcionários políticos para administrar MadyGraf e cumprirem o papel de novos patrões. Que agora que tinham vivido a experiência de se auto gerir através das assembleias, não vão querer passar o chicote para um novo chefe os explorar. E que por isso a defesa que faziam da estatização se vinculava com a manutenção da gestão operária da fábrica pelos próprios trabalhadores.

Unidade da classe trabalhadora, hegemonia proletária e auto-organização: três partes fundamentais do programa e da estratégia dos marxistas explicadas por um operário que as estava vivendo na pele.

Um sentimento que vale àpena viver

Um outro trabalhador de MadyGraf que participava da roda de conversa pediu a palavra. Ele tinha 34 anos e quatro filhos. Contou que, pela quantidade de horas extras e jornadas de trabalho nos finais de semana que fez ao longo de muitos anos para pagar os crediários e dívidas que fazia, não tinha visto seus filhos crescerem, não tinha participado da infância deles. E então transmitiu um sentimento de que a luta que travaram o fez perceber que os trabalhadores não precisam entregar suas vidas para a sede de lucro dos capitalistas, que por mais que se tenha um salário bom e se possa comprar boas coisas para a família, o que o sistema capitalista suga de nossas vidas dentro da fábrica faz com que percamos a melhor parte, e que quando nos damos conta o tempo já passou. Então disse que agora tinha uma outra relação com seus filhos e transmitiu o sentimento de que era muito mais feliz com sua família.

O que senti quando escutei aquele relato é que não se tratava apenas de mais tempo livre, de não fazer horas extras nem trabalhar nos finais de semana. E nem muito menos de ter mais facilidade financeira. Pelo contrário, ocupar a fábrica e colocá-la para produzir exigiu enormes sacrifícios individuais de cada um, possibilidade de repressão, ficar sem receber salário, as exigências de dedicação da própria batalha. O que senti é que aquela felicidade que ele transmitia dizia respeito a uma inversão de valores, que lhe permitia viver uma vida mais plena de sentido.

Uma semente que é necessário plantar

Um terceiro trabalhador de MadyGraf que participava da conversa tomou a palavra. Disse que tudo aquilo não havia caído do céu. Que por trás de toda aquela batalha estava o trabalho cinza, paciente e cotidiano de um partido político chamado PTS (Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo), que era o mesmo partido que estava por trás da luta dos operários de Lear, e que também esteve presente na grande luta do Estaleiro Rio Santiago na década de 90. Contou que sem o apoio da juventude universitária do PTS, que colocou seu corpo presente nas batalhas de rua e todo seu conhecimento técnico e científico a serviço de ajudá-los na administração da produção, tudo aquilo seria muito mais difícil.

Relatou que nas últimas eleições eles fizeram assembleias dentro da fábrica e discutiram a necessidade de apoiar os candidatos da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, da qual o PTS faz parte, e que agora sentiam na pele a importância de existirem políticos que defendem os interesses dos trabalhadores no parlamento e participam de suas lutas. Destacou que nenhum partido capitalista tinha vindo apoiá-los, enquanto o Deputado Federal Nicolás del Caño e do Deputado Estadual Cristian Castillo não só batalharam para que se aprovasse uma lei de estatização da fábrica discutida com os próprios trabalhadores, mas que colocavam seu próprio corpo nos protestos que cortaram a rodovia Panamericana, sendo reprimidos junto com os trabalhadores.

Enquanto eu almoçava uma deliciosa torta de carne com os trabalhadores de MadyGraf no refeitório da fábrica e lhes respondia perguntas sobre meu país, senti orgulho de fazer parte da mesma corrente internacional que o PTS, e de no Brasil batalhar para construir uma nova tradição no movimento operário que siga esse mesmo caminho.

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