Internacional

Qual o lugar da luta de classes em meio a queda dos preços do petróleo?

06 Dec 2014   |   comentários

Os grandes jornais e noticiários financeiros internacionais vêm se debruçando sobre o tema da queda do preço do petróleo e seu impacto sobre a economia mundial. Para a maioria dos especialistas as conseqüências não atravessam os limiares da política econômica e da produção interna dos países; com maior raridade, alguns poucos dedicam algumas reflexões sobre os efeitos nas relações entre os estados (diminuindo tendências a (...)

Os grandes jornais e noticiários financeiros internacionais vêm se debruçando sobre o tema da queda do preço do petróleo e seu impacto sobre a economia mundial. Para a maioria dos especialistas as conseqüências não atravessam os limiares da política econômica e da produção interna dos países; com maior raridade, alguns poucos dedicam algumas reflexões sobre os efeitos nas relações entre os estados (diminuindo tendências a enfrentamentos). Mas a chave de interpretação dos efeitos da queda dos preços das matérias primas (como o petróleo, que atingiu um declínio de 38% nos preços internacionais, de US$115 para US$80 o barril, de junho a novembro) sobre a luta de classes é praticamente inexistente, mesmo para países onde a relação é mais evidente, como mostram as greves na China.

Queda nos preços como produto da crise econômica mundial

A queda no preço do petróleo pode remontar-se a uma combinação de fatores, associando-se fundamentalmente a um incremento sustentado na oferta de petróleo nos últimos anos, disparada em particular pela extração de petróleo de xisto nos Estados Unidos, que pressionou os maiores exportadores de petróleo convencional a aumentarem a produção.

Para os EUA, trata-se de conquistar melhores condições numa “nova ordem energética mundial†, com menor dependência frente a países adversários, como a Rússia, ou aliados instáveis, como a Arábia Saudita (além de deixar abrir margem frente àprodução chinesa). Nesta disputa da matéria-prima geopolítica por excelência, os EUA aumentou sua produção de 8,5 para 9 milhões de barris diários, sendo assinalado pelo The Economist como a causa do incremento de quase 2 milhões de barris diários em todo o mundo.

Apesar da Rússia, terceira maior produtora do mundo, seguir envolvida no conflito da Ucrânia, e produtores como Iraque, Síria, Nigéria e Líbia se encontrarem com crises políticas internas, todos elevaram a produção, segundo o jornal britânico. A OPEP já anunciou que manterá constante a produção, como decisão da Arábia Saudita, que se negou a cortar a extração petrolífera para frear a queda nos preços, em base a uma estratégia que visa desalentar o negócio do petróleo de xisto norteamericano, cortando a rentabilidade dos EUA (que produz a preços mais altos que a extração convencional).

Entretanto, a debilidade da economia mundial e as perspectivas de desaceleração imprimem uma tendência contrária aos preços crescentes das matérias-primas que se impuseram desde 2010, em função principalmente da demanda chinesa, então em rápido crescimento econômico. A isto, juntando-se o prognóstico de uma nova recessão na Europa e um estancamento do Japão, a China com um menor crescimento anual e os países “emergentes†em forte desaceleração, a perspectiva é de queda na demanda, o que não corresponde ao aumento mencionado na produção.

Estas tendências àsuperprodução são a base dos riscos de prolongados problemas deflacionários em vários países, como a China, que se vê golpeada pela supercapacidade crônica e estoques elevados de matérias-primas como cimento, carvão e aço, cuja baixa demanda diminui os preços desses produtos e também desencoraja o consumo interno.

Conflitos interestatais: “neo-harmonicismo†ou tendências a choques?

Martin Wolf, do Financial Times, compara o atual declínio do petróleo com outra grande queda de magnitude, em 1985-86. Segundo o editorialista, neste momento a queda dos preços esteve assinalada por dois fatores: um rebaixamento do consumo de energia e a produção gerada pelas duas “crises do petróleo†na década de 1970, e pela entrada na produção mundial de novos produtores por fora da OPEP, como México e Reino Unido. No contexto atual, nomeia a importância dos “efeitos de reativação†que estes baixos preços teriam sobre a economia.

Isto se baseia, para o autor, em que a queda de 40 dólares no preço do barril representa uma transferência de aproximadamente 1,3 trilhão de dólares (cerca de 2% do PIB mundial) dos países produtores para os países consumidores.

Não obstante, essa análise passa por cima de grandes contradições geopolíticas. Em geral para os exportadores, o negócio não sai bem. Países produtores de petróleo como México, Venezuela e Rússia, começam a ter problemas fiscais e nos balanços de conta corrente, assim como no desenvolvimento econômico geral.

A crise econômica venezuelana desde a posse de Maduro vem provocando redução dos gastos públicos e ajuste na economia. Mas os “gigantes†Brasil e Rússia seguem pior. Segundo The Economist, não só o volume das exportações destes dois países está em queda, mas o preço do que exportam também (soja, açúcar e minério de ferro, além do petróleo), o que incrementa os problemas domésticos, sendo que ambos os países aumentaram as taxas de juros e rumam para aplicação de programas de ajuste fiscal.

A Rússia, envolvida na crise da Ucrânia, recebeu uma nova rodada de sanções econômicas por parte da UE e dos EUA, o que, combinada com a queda nos preços, debilita ainda mais sua economia altamente dependente das exportações de energia (mais de dois terços da receita vem da exportação de petróleo e gás). O rublo caiu mais de 23% em três meses, afetando a capacidade de pagamento das dívidas em dólares do país (90 bilhões no próximo semestre). Para piorar, a Agência Internacional de Energia prevê queda na demanda e manutenção do preço médio do petróleo em US$83 o barril em 2015, bem abaixo dos US$90 de que necessita a Rússia para escapar da recessão.

Além disso, na OPEP, os países de renda petrolífera do Oriente Médio, como Arábia Saudita, utilizam esses rendimentos para subsidiar serviços essenciais àpopulação e financiar seus investimentos em infraestrutura, além de que uma redução nas receitas impacta politicamente em sua influência internacional. A ajuda que o Irã e a Rússia prestam ao regime de Assad na Síria, e que o auxílio bilionário que a Arábia Saudita presta àditadura militar no Egito dependem altamente do petróleo.

Estas disputas interestatais, tensionadas por ora no nível econômico, prognosticam agravamentos geopolíticos e não acalentam nenhuma teoria “neo-harmonicista†no já convulsivo cenário internacional.

Luta de classes: a maldição do “ouro negro†na China

A queda do preço do petróleo é uma faca de dois gumes para a China. Superficialmente, isso poderia ajudar a maior consumidora de petróleo do mundo a diminuir gastos com importação. Entretanto, a China é também a quarta maior produtora mundial. A diminuição das receitas petrolíferas nas províncias produtoras na China começa a gerar conflitos operários. Greves de professores e trabalhadores industriais se desenvolvem na província de Heilongjiang, onde fica campo de petróleo de Daqing, o maior na China, em que o governo local cortou salários e benefícios.

A taxa mais baixa em cinco anos nos preços do carvão devastou a economia do interior da China, palco de rebeliões mineiras na província de Shanxi (que produz 25% do carvão nacional). Enquanto a atividade manufatureira conseguiu atingir o crescimento mais lento nos últimos oito meses, a taxa de crescimento do PIB chinês foi de 7,3% no terceiro trimestre, o menor desde 2009, e inferior ao objetivo de crescimento do governo chinês, de 7,5%.

Sem estabelecer uma relação automática entre dificuldades econômicas e emergência de conflitos abertos entre as classes, cumpre dialetizar esta relação desaparecida das análises econômicas, e mostrar como a queda do petróleo indica, ao contrário de perspectivas de “reativação†, como anda mal a marcha da economia mundial, o que pode elevar tendencialmente os choques interestatais e a luta de classes.

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