Terça 25 de Junho de 2019

Primeira Conferência - Parte II

08 Oct 2007   |   comentários

O início do movimento operário russo

Como assinalamos no número anterior, o movimento operário se desenvolvia impetuosamente no continente europeu; algo bastante diferente do que se sucedia na Rússia, que era uma sociedade semi-feudal que sofria sob a ditadura da autocracia [1] czarista, que não só governava o território da Rússia, como também os dos povos da Ucrânia, Bielorrússia, etc., que pertenciam ao seu império. A Rússia, que então havia participado das guerras e da repartição da Europa, tinha, no entanto, uma economia muito atrasada.

Mas é necessário apontar que, apesar de estar submetida a uma ditadura feudal, a Rússia não foi totalmente alheia a este processo de constituição do proletariado moderno. Em 1796, houve distúrbios protagonizados por operários de fábrica em Kazan, em 1797 na província de Moscou e em 1798 e 1800 novamente na província de Kazan. Em 1806, na província de Moscou e na de Iaroslav, praticamente simultânea com o desenrolar da batalha na qual Napoleão acaba dominando a Alemanha [2] . Em 1811, há levantamentos na província de Tambov; em 1814, o fazem os operários em Kaluga; em 1815, novamente levantamentos em Iaroslav; em 1816, em São Petersburgo; novamente em Iaroslava e Kazan em 1817 e 1819; em Voronezh e Kaluga em 21, em Vladimir e Moscou em 1823. Em 1829, em Kazan e Moscou, que eram os centros proletários mais importantes. Ainda mais, em dezembro de 1825, uma parte da nobreza baixa e dos oficiais do czarismo se levantam contra o czar, o que se conheceu como a revolução dezembrista, e os operários das fábricas de Moscou saem às ruas a aplaudir as tropas. E depois temos outros levantamentos de novo em Kazan e Moscou em 1834, em Tula em †™37, na província de Moscou em 1844 e na província de Voronezh em 1851.

Ou seja, ainda que houvesse um pequeno proletariado e ainda que seu peso social não fosse dominante, respondeu, já desde o seu surgimento, aos acontecimentos que sacudiram a classe operária européia durante o século XIX.

Isso é importante para ver que o marxismo, na Rússia, não caiu do céu. Eram levantes sem um programa claro, espontâneos, que não geravam tendências àcriação de um partido operário; eram, melhor dizendo, frutos de um desespero movido pela fome, mas acompanhavam, de alguma maneira, o grande ascenso do proletariado nos países ocidentais. Podemos dizer, então, que é incorreta a teoria de que o proletariado russo começa a lutar a partir de 1860 ou 1870. O certo é que começa a lutar praticamente como irmão de classe da Europa ocidental, ainda que de forma muito mais primitiva pelas condições de vida do país.

O desenvolvimento desigual e combinado

Depois desta visão geral sobre o proletariado na Europa e na Rússia, vamos ver a estrutura do país, aquilo a que Trotsky lhe deu o genial nome de “desenvolvimento desigual e combinado da Rússia†[3] .

Na Rússia, em fins da década de 1860, havia somente 1.500 quilómetros de linhas férreas. Nas duas décadas seguintes, entre 1880 e 1890, foram construídas vias férreas em um número quinze vezes maior. Entre 1892 e 1921, foram construídos 26.000 quilómetros. Junto aos pólos industriais de Moscou e São Petersburgo, surgiram novos centros fabris no Báltico, em Baku e Donbass. A produção de petróleo aumentou duas vezes. A produção de carvão, por exemplo, aumentou três vezes neste período. Estas cifras mostram que o desenvolvimento do capitalismo na Rússia se deu de maneira impetuosa, em duas ou três décadas, combinado com um grande atraso da sociedade. No entanto, o seu capitalismo não teve o desenvolvimento orgânico que teve o capitalismo ocidental ’ particularmente, o da Inglaterra ’, quer dizer, não ocorreu uma revolução industrial. Na Inglaterra, com a Revolução Industrial de 1780 a 1820, 70% dos trabalhadores ingleses eram assalariados industriais, cifra que praticamente não voltou a se repetir na história do capitalismo: homens, mulheres e crianças eram trabalhadores industriais, sobre tudo têxteis e metalúrgicos, porque essas eram as grandes indústrias com as quais a Inglaterra abastecia a todo o planeta com a produção que realizavam a partir da matéria-prima expropriada das colónias.

Na Rússia, em transformação, a burguesia ascendeu demasiado tarde, comparado ao cenário histórico, para poder aproveitar a situação e transformar-se em uma classe dominante estável. Na indústria, dominava o capital estrangeiro, mediante o mercado e o capital financeiro. Assim Trotsky o explica em seu livro História da Revolução Russa: “A fusão do capital industrial com o bancário se efetuou na Rússia em proporções que talvez nenhum outro país haja conhecido. Mas a intervenção dos bancos na indústria equivalia àintervenção sofrida pelo mercado financeiro da Europa ocidental. A indústria pesada (metal, carvão, petróleo) se encontrava submetida quase por inteiro ao controle do capital financeiro internacional, que havia criado uma rede auxiliar e mediadora de bancos na Rússia. A indústria leve seguiu o exemplo. Em termos gerais, cerca de 40% do capital de ações investido na Rússia pertencia a estrangeiros, e a proporção era consideravelmente maior nos ramos principais da indústria [4] . Sem exagero, pode-se dizer que os pacotes de ações que controlavam os principais bancos, empresas e fábricas da Rússia estavam nas mãos de estrangeiros, devendo advertir-se que a participação dos capitais da Inglaterra, França e Bélgica representava quase o dobro do da Alemanha†. Concluindo, a burguesia russa era extremamente débil e o capital estrangeiro, extremamente forte. Isso é o que se conhece pelo nome de desenvolvimento desigual e combinado, razão pela qual os marxistas opinamos que se faz mais fácil a revolução proletária: o proletariado se concentra e se faz muito forte, mas a burguesia é muito débil. Esta é a base da teoria da revolução permanente, que vamos desenvolver mais adiante. É dessa forma peculiar então, que a Rússia entrou na história moderna, quase como um país semicolonial, ainda que fosse um gigante que havia participado da repartição da Europa. Entrou desta forma tão rápida (em trinta ou quarenta anos), abalando centenas de anos de desenvolvimento lentíssimo, dando lugar àcontradição entre um proletariado relativamente forte e concentrado, uma burguesia russa dependente do capital financeiro internacional e um aparato estatal feudal.

As revoluções burguesas, como a francesa, haviam centralizado os aparatos estatais, continuando o processo iniciado através das monarquias absolutas [5] . Mas na Rússia existia este estado feudal formado pelos donos das terras, independentemente de que houvesse capitalismo; isto é, ainda que o capitalismo tenha se mesclado ao feudalismo, o aparato estatal era de tipo feudal e impedia o grande desenvolvimento do estado capitalista e a acumulação de fortuna para a burguesia russa, já que grande parte do excedente era destinado a manter o aparato estatal. Então, a burguesia russa se encontrava na contraditória situação de ter que se apoiar no feudalismo contra o proletariado, ou apoiar-se no proletariado contra o feudalismo, que bloqueava suas possibilidades de desenvolvimento e reprimia selvagemente os massivos levantes camponeses.

Os camponeses levavam adiante medidas radicais para enfrentar as enormes cargas do estado czarista, inclusive queimavam as aldeias e se imolavam para negar-se a pagar os impostos. E ainda assim, com medidas tão radicais não conseguiam libertar-se do aparato feudal do czarismo, porque era um território de milhões de kilómetros quadrados, uma das maiores zonas do mundo e o czarismo seguia associando-se ao capital estrangeiro, impedindo relativamente o desenvolvimento da burguesia e dando-lhe algumas concessões só aos grandes milionários. Em 1861 se produz a emancipação dos servos da gleba. Mas os camponeses ficaram apenas com 30% da terra, e 70% das melhores zonas de pasto, bosques, etc fica com os latifundiários. Além disso, tem que pagar uma taxa por sua emancipação da servidão.

Isto criava no campo permanentemente uma situação inflamável, que não tinha saída; porque o feudalismo tinha um exército fabuloso, reinava sobre milhões de hectares de território e, ainda que fosse um regime totalmente improdutivo era impossível para os camponeses pobres derrota-lo.

Apesar do impetuoso desenvolvimento da classe operária ’ por exemplo, entre 1865 e 1898, o número de operários se multiplicou de 706.000 a 1.432.000, e até 1914 a metade dos operários industriais que eram três milhões, trabalhavam em fábricas de mais de quinhentos operários, e um quarto destes três milhões trabalhavam em fábricas de mais de mil operários -, entretanto, a classe operária estava rodeada de uma enorme massa camponesa. Com a queda do preço do grão que se produziu na década de 1880, se arruinaram camadas inteiras do campesinato que, como já dissemos, ateavam fogo nas propriedades dos latifundiários, se suicidavam, tomavam medidas de luta desesperadas que, entretanto, não feriam o coração do regime czarista.

Como a maioria dos camponeses não podia viver do campo, havia um semi-proletariado rural que se oferecia para trabalhar a terra de seus vizinhos, e em outro extremo havia uma classe de camponeses ricos, o que se conhece em russo com o nome de kulaks. Os kulaks compravam os camponeses pobres, os poucos hectares que estes tinham de terra, e eram os que dominavam a estrutura social camponesa da Rússia, que se articulava no mir, a base da comuna russa [6] . Tanto é assim, que muitos populistas e inclusive alguns marxistas, começaram a discutir se esta base de trabalho comunitário no campo, estabelecendo laços com o proletariado ocidental não abria a possibilidade de que na Rússia se saltasse a etapa da acumulação primitiva capitalista.

No ciclo anterior á revolução industrial, que vai de 1780 a 1820, com o trabalho feminino infantil, com a exploração das colónias, a matança dos povos originários na América Latina e em todo o mundo, se produz uma enorme acumulação de riquezas, que é a base da grande acumulação capitalista. Então, o que se perguntavam os marxistas russos a finais de 1870 é se a partir do mir, ligado ao proletariado ocidental, se pode saltar esta etapa de acumulação. Inclusive há uma famosa carta de Vera Zazulich [7] ’ uma socialista que logo se transforma em marxista, que era heroína do movimento populista russo porque havia ajudado a matar Trépov, o Ministro do Interior do regime czarista ’ àMarx a qual este lhe responde que não se pode excluir que na base da estrutura do mir se possa dar este salto, mas que o vê extremamente difícil, exceto que houvesse uma revolução na Alemanha ou em outros países centrais [8].

Em 1831 se deu um enfrentamento muito agudo de camponeses pobres e semi-proletários, por um lado, e camponeses ricos, os kulaks que se assemelhavam a uma burguesia rural. Então, se combinavam o caráter altamente concentrado da indústria, com a conseqüente criação de enormes destacamentos operários, junto com este processo do campesinato. Já estavam traçados os pontos estratégicos da sociedade e da economia.

As greves do fim do século XIX

Entre 1880 e 1884 há 101 greves com 99 mil grevistas. Entre 1885 e 1889 há 221 greves com 226 mil grevistas. Em 1885, por exemplo, os operários fazem um gesto heróico. Tomam a fábrica Nikolske, de Morózov; o czarismo manda ao exército, os operários se defendem, há centenas de mortos e termina numa derrota, mas o czarismo logo se vê obrigado a fazer algumas concessões àclasse operária. Por exemplo, até então se o operário passava por diante do patrão e não tirava o gorro, lhe cobravam uma multa; se cantava quando estava trabalhando, também. Então, uma das primeiras conquistas legais que os operários russos conseguem é que se reduzam estas multas.

Entre 1890 e 1894 há greves nas quais participam 115 mil trabalhadores. Mas em 1895 começa um dos maiores ascensos do movimento operário, há greves que abarcam a meio milhão de trabalhadores. Um quarto de toda classe operária russa está em greve. Esta situação fortaleceu as posições dos marxistas russos, cuja origem a partir da fundação do grupo Emancipação do Trabalho em 1883 encabeçado por G.V Plekhanov, esteve ligado àpolêmica com os populistas russos sobre qual classe terá o papel revolucionário central na luta contra a autocracia, o proletariado, ou o campesinato, como sustentavam os populistas. Esta disputa entre o marxismo e o populismo russo será desenvolvida na próxima discussão.

Plekhanov e Lênin

Sobre a liderança revolucionária da classe operária

Gueorgui Valentínovich Plejánov (1856-1918), fundador do marxismo russo, afirmava em 1889, ante o primeiro Congresso da II Internacional: “O movimento revolucionário unicamente pode triunfar na Rússia como movimento revolucionário dos operários. Em nosso país não há nem pode haver outra saída!†.

Vladimir Illich Uliánov, Lenin (1870-1924), dizia em 1894 em sua primeira grande obra revolucionaria intitulada “Quem são os †˜Amigos do povo†™ e como lutam contra os social-democratas†: “Hoje os trabalhadores russos não compreendem ainda o papel da classe operária como hegemónica ou só setores individuais a compreendem; mas se aproxima o tempo no qual todos os trabalhadores avançados da Rússia o compreenderão. E quando isto acontecer , a classe operária russa liderará ao campesinato, e levará a Rússia àrevolução comunista†.

[1Sistema de governo no qual a vontade de uma pessoa só é a suprema lei. Se refere geralmente àmonarquia absoluta, mas especialmente ao regime czarista russo, cujo dirigente assumia o título de “Autocrata de Todas as Rússias†.

[2Se refere àBatalha de Jena, que teve lugar em 14 de outubro de 1806, e enfrentou o exército francês sob o mando de Napoleão contra as tropas prussianas comandadas por Federico Guillermo III.

[3Os novos desenvolvimentos técnicos obrigam a um país, se não quer ficar atrasado na história a incorporá-los. Mas se o país é como a Bolívia, incorporará o desenvolvimento técnico do petróleo, mas numa zona onde não haverá caminhos; então há um desenvolvimento desigual, porque haverá oleodutos num lugar onde não há caminhos para levar o gás liquido. É muito atrasado, mas é combinado, porque o mais moderno da técnica se une com o mais atrasado das formações económicas pré-capitalistas.

[4Isto lembra a situação da Argentina ou Brasil, por exemplo, isto é que a Rússia era parecida a um país semicolonial desde o ponto de vista do desenvolvimento industrial e da ditadura do capital financeiro e dos bancos, sobre o capital industrial do país.

[5Há uma discussão no marxismo sobre se a monarquia absoluta, como por exemplo a de Kuiz XIV ’ que foi antecessor da revolução francesa ’ foi o primeiro governo burguês da história ou o último governo feudal. Um grande historiador marxista inglês, Perry Anderson, sustenta que é uma reorganização do feudalismo para permitir as condições de acumulação capitalista. Por exemplo, Luis XIV quita os territórios dos donos das terras, onde havia levantamentos permanentes contra o rei, e os concentra no palácio de Versalhes; se faz um sistema de impostos mais modernos, etc. Pr exemplo, na Espanha ’ que não teve revolução burguesa -, se calcula que cada dezenove pessoas que trabalhavam no campo, mantinham um nobre. Isso impedia a acumulação capitalista.

[6Instituição comunal rural que surge após a abolição da servidão na Rússia por Alexandre II (1861). Os novos camponeses livres devem pagar a redenção da servidão e as terras que exploram. O mir serve para organizar tal exploração e, sobretudo para facilitar o Estado a cobrança de impostos, que dever ser pago pelo mir, e não os camponeses particulares.

[7Vera Zasulich (1849 - 1919) Revolucionária russa. Pertenceu a grupos anarquistas e populistas e, exilada na Suíça, funda o grupo A Emancipação do Trabalho, junto com Plekhanov e Axelrod. Colaborou com Lênin no jornal Iskra, mas quando se produziu uma ruptura entre Lênin e Plekhanov, passou àfração menchevique, da qual foi um de seus máximos representantes até revolução de 1917.

[8Se refere a um texto conhecido como o primeiro esboço de resposta de Marx àcarta de V. Zasulich, de 16 de fevereiro de 1881.









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