Movimento Operário

GREVES MINEIRAS NA Ã FRICA DO SUL

Por trás da democracia sul-africana e da potência do minério, o maior massacre desde o Apartheid

17 Sep 2012   |   comentários

Há um importante processo de ruptura com as direções sindicais burocráticas. Os mineiros da Gold Fields incluiu na sua pauta de reivindicações a expulsão da burocracia e na Gol One’s os mineiros lutam por reincorporar seus companheiros demitidos, entre eles os que criaram o PTAWU, um sindicato paralelo que lutavam para reconhecer.

A à frica do Sul possui uma grande fortaleza em mineração, onde é líder mundial. Tem as maiores reservas mundiais de magnésio e de platina, além de estar entre os países com as maiores reservas de ouro, diamante, vanádio, entre outros, fundamentalmente importantes para o desenvolvimento da indústria e da especulação financeira sobre metais preciosos a nível mundial. O setor é responsável por mais da metade das exportações do país, representando mais de 30% de todas as ações que giram na Bolsa de Valores de Johannesburgo.

Em um país marcado pela colonização inglesa, não é possível dizer que tal riqueza seja apropriada pelos trabalhadores da nação. As grandes mineradoras tem suas sedes na Inglaterra ou nas mãos da pequena camada branca da população, que desde a colonização e através do apartheid se consolidou como a burguesia local, historicamente opressora do povo negro.

A LONMI – mineradora que ordenou junto ao governo sul-africano o massacre contra os trabalhadores em greve nas minas de Marikana, que deixou 44 mortos, 70 feridos e mais de 250 mineradores detidos – é a principal líder do mercado de platina.

Este massacre da empresa e da polícia, longe de amedrontar os trabalhadores desatou uma mobilização ainda maior. Dias depois irromperam greves em outras minas como Anglo American Platinium e Royal Bafokeng Platinum. Por outro lado, o governo pró-imperialista de Jacob Zuma do Congresso Nacional Africano (CNA) tratou de continuar com a linha repressiva e de julgar os protestos usando uma lei do Apartheid pela qual se culpa os manifestantes pelas vítimas da repressão. Assim, os 270 ativistas presos durante o massacre foram acusados pela morte de seus companheiros.

Estas greves de um dos mais lucrativos setores da economia revelam as péssimas condições de trabalho a qual só pode ser submetida uma população com expectativa de vida de cerca de 48 anos, 1 a cada 6 habitantes infectado pelo vírus da AIDS, uma altíssima taxa de analfabetismo, um índice de estupro epidêmico e condições precárias de saneamento básico.

Os 44 trabalhadores assassinados a mando do governo sul-africano para favorecer a LONMI, assim como os milhares de trabalhadores junto aos quais faziam greve, reivindicavam o aumento de seu salario de R5.600 para R12.500 (de R$1.300 para R$3.040 aproximadamente), valores condizentes com os gastos necessários para manter uma vida onde nenhum aspecto básico é fornecido pelos recursos do Estado, entretanto bastante inferiores aos altíssimos lucros das mineradoras, trabalho roubado dos que morrem em acidentes de trabalho.

O processo segue em aberto, com a direção histórica da categoria, o Sindicato Nacional de Mineiros (de sigla NUM em inglês), negociando de perto com a empresa e o governo para encerrar a greve, que apesar de brutalmente reprimida, segue forte com cerca de 8% dos trabalhadores comparecendo àmina para trabalhar. A empresa alega que só negocia com a mina funcionando, e no dia 06 de setembro o NUM, a Câmara de Minas, a Solidariedade (central sindical menor que a COSATU – da NUM e que a NACTU – da AMCU) e a Associação Unificada da à frica do Sul, com o apoio do ministro do Trabalho Mildred Oliphant, assinaram um acordo de paz que exige a volta dos mineiros ao trabalho, determinando uma data limite de retorno.

Enquanto isso, a AMCU (Associacao dos Mineiros e Trabalhadores da Construção), ruptura do NUM que tem sido a direção mais radicalizada do movimento, negou-se a assinar o documento e opina que os trabalhadores não devem ser espectadores de uma negociação de reivindicações que já haviam aparecido nas greves mineiras de 2007, e que ate hoje não haviam sido conquistadas. Nesse sentido, a paz está condicionada ao aumento salarial, e não a um acordo assinado pelos patrões. Há um importante processo de ruptura com as direções sindicais burocráticas. Os mineiros da Gold Fields incluiu na sua pauta de reivindicações a expulsão da burocracia e na Gol One’s os mineiros lutam por reincorporar seus companheiros demitidos, entre eles os que criaram o PTAWU, um sindicato paralelo que lutavam para reconhecer.

Desde então o ativismo segue em ascensão, e no dia 12 de setembro mais de mil mineiros bloqueavam a entrada da mina de Thembelani, na região de Rustenburg, a uma distância de 40km de Marikana (do mesmo grupo ao qual a empresa LONMI esta aglomerada, a Amplats), para além dos quase 15 mil em greve na mina Gold Fields, espalhada em quatro localidades distintas do país. A indignação não se deve apenas àrecusa de negociação por parte das empresas, mas também pelo fato de os trabalhadores detidos no dia do massacre terem sido responsabilizados pela morte de seus companheiros, demonstrando que o governo não quer assumir as responsabilidades sobre a atrocidade que cometeu. Frente a esta situação, foi convocada para esta quarta-feira uma greve geral de mineiros no país.

Declaramos todo nosso apoio àgreve dos mineiros e exigimos, lado a lado a esses trabalhadores, que o governo, a polícia e a empresa sejam responsabilizados e punidos por esse triste massacre, que traz ànossa memoria Soweto e grandes massacres da população negra durante o Apartheid, que só seguem ocorrendo porque ao mesmo tempo em que somos descartáveis, somos também perigosos para o capitalismo.

É preciso que os trabalhadores de conjunto avancem para questionar o governo do CNA (Conselho Nacional Africano), que ao fim do apartheid iludiu os trabalhadores e cumpriu o papel de transição compactuada: acalmou o sentimento anti-racista das massas pela via da figura de Nelson Mandela, mas ascendeu ao poder com a promessa de manter a sociedade da maneira como estava, impedindo a punição sobre os assassinos do apartheid e mantendo a mesma situação de terras e de trabalho determinadas anteriormente pela burguesia branca. Marikana nos escancara que desde 1994 nada mudou, a não ser as saídas burguesas de aparências democráticas.

Artigos relacionados: Movimento Operário , Internacional









  • Não há comentários para este artigo