Partido

Por que construir um partido revolucionário no Brasil hoje?

29 Aug 2014   |   comentários

É inegável a enorme politização entre a juventude e os trabalhadores em meio às eleições presidenciais. Nas fábricas e nos bairros há um amplo debate. Mas isso não tem a ver somente com os candidatos que aí estão, ou as reviravoltas deste processo, mas com o fato de que a via eleitoral traz de volta, como mentiras, a “agenda das massas†que irrompeu em junho do ano passado. Só que dessa vez é pela voz da demagogia burguesa e seus candidatos que prometem saúde, educação e transporte, e não pela voz das ruas.

Que os trabalhadores não devem votar nos candidatos da burguesia e dos patrões, e mesmo daqueles que se dizem nossos aliados, mas estão na base de apoio do governo Dilma, é uma premissa fundamental. Mas uma das principais lições de junho, que também se confirmou no que podemos chamar de “maio operário†, é de que a esquerda tradicional (PSTU, PSOL, PCB, PCO) não havia passado “àprova†, ou seja, que anos (e em alguns casos décadas) de discurso socialista e sindicalismo não serviu para ser uma alternativa revolucionária para os trabalhadores.

É isso que se confirma nestas eleições, como expressamos nas páginas deste jornal. As candidaturas do PSTU, por exemplo, não estão a serviço das lutas, mas falam de “socialismo†. Para o PSTU, que se considera o partido revolucionário no Brasil, não há uma relação entre o desenvolvimento da auto-organização dos trabalhadores (com organismos democráticos da classe) e o avanço na luta por um partido revolucionário no Brasil que, para nós, será necessariamente um processo de rupturas e fusões na esquerda e com o mais avançado da vanguarda operária. O PSTU está há décadas dirigindo sindicatos e muitas vezes deixam de levar lutas adiante culpando a base, para mascarar sua incapacidade de forjar uma vanguarda consciente capaz de enfrentar os patrões e os governos. Não romperam a velha tradição petista-cutista de luta sindical separada da luta política. A fraqueza desta esquerda, escancarada em Junho, é resultado de décadas de uma estratégia sindicalista.

Ao contrário disso, nós consideramos que a classe operária brasileira, que já colocou de pé dois partidos de massas, o PCB até a década de 1960 e o PT nas décadas de 1970 e 1980, e que começa a exercitar seus músculos com importantes greves que marcam rupturas com sindicatos vendidos e com o próprio “lulismo†, será protagonista real da construção de um verdadeiro partido revolucionário no Brasil, do qual nós da Liga Estratégia Revolucionária nos preparamos para ser parte, lutando cada dia por este objetivo.

Por isso, para nós, isto não vai se dar por fora dos processos mais avançados de luta e auto-organização da classe trabalhadora, que é tarefa dos revolucionários alentar e construir, retomando as lições mais profundas da classe operária internacional, que não somente retomou sindicatos das mãos de burocratas, construiu comitês de fábricas, mas colocou de pé organismos de duplo poder como os sovietes (conselho de delegados operários) e colocou fábricas sobre seu próprio controle. Esta tradição revolucionária aliada àapropriação do marxismo como ferramenta teórica, ideológica e de tradição da classe operária contra a burguesia são premissas fundamentais.

É por isso que quando os trabalhadores se deparam com as eleições nada mais veem do que mentiras e promessas, mesmo dos candidatos da esquerda tradicional. Luciana Genro diz ser a “voz de junho†, mas onde está junho em sua campanha? O PSOL já repete o caminho do PT como tragédia. Sem encontrar na esquerda tradicional uma alternativa política – mesmo que minoritária – não é de se espantar que muitos queiram votar nulo.

Entretanto, queremos abrir uma discussão com os trabalhadores que vieram despertando sua consciência e especialmente com aqueles que vêm protagonizando importantes greves, como a greve na USP, UNESP e Unicamp, onde nós da LER-QI estamos construindo o Movimento Nossa Classe com dezenas de trabalhadores. Depois de despertar nossa consciência de classe, vai ficando claro que é preciso se organizar, inclusive para além dos sindicatos. Na greve da USP chegamos àconclusão com dezenas de trabalhadores que precisávamos manter organizada esta força que se expressava na greve, e por isso colocamos de pé o Movimento Nossa Classe.

Mas é preciso ir além: conforme construamos este Movimento, mais claro ficará que nós trabalhadores precisamos de um instrumento superior da classe operária, pois, por mais que lutemos e nos organizemos nas empresas e fábricas e nos sindicatos – construindo uma nova direção combativa, democrática e classista; expulsando a burocracia sindical e retomando os sindicatos –, a história demonstra que não é suficiente. Nós precisamos de um partido revolucionário de trabalhadores, internacionalista, pois a exploração capitalista é mundial e a nossa classe é uma só, sem fronteiras. Um partido que carregue em si a tradição e as lições da classe operária mundial, de seus erros e acertos, transformando isso em teoria que “guie†nossa ação futura.
Mas precisamos de tudo isso não somente para unir toda a nossa classe. Quando nas greves buscamos levar adiante a luta por uma hegemonia operária ou a auto-organização, estamos buscando atuar nestes processos para criar um embrião e como um ensaio de uma nova sociedade. Por isso, precisamos de uma ferramenta para coordenar, dirigir e levar a classe operária ao poder, mediante a revolução social em aliança com as demais classes e setores explorados e oprimidos, colocando fim a esta sociedade de classe e construindo uma sociedade sem classes, sem fronteiras, sem dinheiro, sem mercadoria, onde tudo que é produzido está a serviço da necessidade de todas as pessoas. Isso é o que consideramos o comunismo.

Aos trabalhadores que começam a atuar conosco no Movimento Nossa Classe ou que começam a se aproximar das ideias do marxismo revolucionário, chamamos a abrir este debate. Não temos dúvida que esta é a tarefa mais apaixonante que uma época de tanto individualismo e opressão nos impõe. É a única forma de se rebelar de forma consciente contra a exploração capitalista e por uma vida verdadeira humana.

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