Sexta 24 de Maio de 2019

Nacional

Os trabalhadores e o acidente em Congonhas: uma noite no local da tragédia

17 Jul 2007 | “É tudo peão aqui, no horário do acidente, todo o pessoal da administração já tinha saído, quem [o acidente] pegou é a peãozada do operacional que fica até mais tarde.†  |   comentários

Estivemos ontem no local do acidente com o Airbus da TAM, no aeroporto de Congonhas. Por volta das 22 horas uma coluna gigantesca de fumaça escura ainda tomava o céu da região e o fogo ainda ardia no prédio do terminal de carga da própria TAM, onde o avião bateu matando não só seus passageiros e tripulação, mas também trabalhadores do terminal. Enquanto as redes de televisão falavam do deputado morto, fomos procurar os trabalhadores, que perderam companheiros e amigos no acidente.

O primeiro encontro foi com um grupo de motoboys que justamente naquela hora eram expulsos pela polícia da rua onde esperavam notícias. São trabalhadores de outra empresa, prestam serviço justamente no prédio da TAM, retirando malotes que chegam por via aérea. Enquanto em Brasília o ministro da defesa, Waldir Peres foi o último a saber do pior acidente da história da aviação brasileira, W e M e mais uma dezena de motoboys se falaram pelo rádio assim que aconteceu o acidente para verificar se todos estavam bem. Por sorte, estavam todos ilesos. Ainda assim, permaneciam lá, até as 23h, debaixo de chuva, a espera de notícias dos colegas da TAM. “A gente tá lá todo dia, né?†, disse W, são companheiros. Eles desconfiam: “a reforma do aeroporto foi muito rápida e não valeu pra nada†, a pista, entregue às pressas sem condições de segurança, foi o mais provável causador do acidente. “Isso foi responsabilidade do governo†, da mesma forma, sobre a greve dos controladores, “o governo devia ter dado o que eles pediam†, opinou M.

Um pouco mais a frente, contornando uma séria de ruas escuras para chegar no aeroporto, encontramos alguns trabalhadores da TAM, muito jovens, ainda de uniforme, numa padaria próxima ao acidente. A maioria iria entrar no turno das 22h, mas A. não. Ele estava dentro do prédio na hora do acidente. “Eu tava de costas quando eu ouvi uma batida e começou a tremer tudo. Vi reflexo de fogo na parede, olhei pro lado só vi fumaça, olhei no corredor e todo mundo correndo na minha direção. Aí comecei a correr em direção a coleta, que é onde eu trabalho. Falei †˜vamo ajudar†™. Aí eu não sei quem voltou, mas eu voltei. Vi alguém preso debaixo de uma parede, aí eu olhei, era o Bira. Eu to acostumado a carregar peso, mas a parede é mais de tonelada. Aí eu tive que chamar todo mundo pra me ajudar, um monte de gente correu, alguns vieram e a gente conseguiu tirar ele†. Perguntamos se estavam em contato com o hospital, para saber da situação do companheiro do qual salvou a vida: “Não. Quem tem contato é a supervisão†.

Outro trabalhador, que não se identificou, falando baixo com a gente porquê o supervisor da empresa rodeava nossa conversa, lançou: “por incrível que pareça, o terminal de carga é onde dá mais lucro pra TAM, mas, por incrível que pareça, é o setor mais excluído†e o outro completa “é tudo peão aqui, no horário do acidente, todo o pessoal da administração já tinha saído, quem [o acidente] pegou é a peãozada do operacional que fica até mais tarde.â€

Consciente da riqueza que seu trabalho cria, compara com os riscos que correm. “O terminal é muito em cima da pista, da outra vez que o avião ficou de bico aqui, a gente pensou †˜se descer vai parar onde? Na nossa cabeça†™†. Infelizmente, os trabalhadores da TAM estavam certos. Um outro completa com a dura realidade “mas a gente vai trabalhar onde? Não tem outro lugar.â€

A cobiça infinita das empresas aéreas, inclusive da TAM, garantem que um aeroporto no meio da cidade, com uma pista curtíssima para aviões grandes demais e pesados demais para carregar mais carga, mais passageiros e portanto mais lucro continue funcionando. A mesma cobiça infinita não quis esperar que a pista estivesse pronta e segura. Seriam 25 dias de espera, 25 dias a menos dos lucros gigantescos que a TAM e outras empresas têm no aeroporto mais movimentado de São Paulo. E duzentas mortes a menos, passageiros e trabalhadores mortos por responsabilidade das empresas e dos governos que obedecem como cães treinados àquem financia suas campanhas.

No saguão do aeroporto quase vazio a única movimentação era de trabalhadores. Funcionários da limpeza, empresa terceirizada, olhar desconfiado, não quiseram falar por medo dos supervisores. Os funcionários da TAM, olhos vermelhos, nervosos, chorando. O clima mais tenso que se pode imaginar. Os que trabalham em terra perderam colegas e amigos. Os que trabalham no ar perderam também a segurança de trabalhar amanhã. Nessa situação, ainda são mantidos de uniforme, trabalhando, atendendo os passageiros enfurecidos que perderam seus vóos e que querem explicações.

Agora vêm uma enxurrada de soluções rápidas. O governo vai fazer vistorias, a empresa vai trazer condolências. Vão fazer as “averiguações†. Mas enquanto o aeroporto continuar nas mãos do governo e dos patrões, trabalhadores e passageiros vão continuar em risco. A cobiça e o lucro não podem dar lugar àsegurança. Perguntado por nós se aquele aeroporto não seria motivo de risco constante aos trabalhadores e moradores, o chefe da defesa civil da cidade de São Paulo se calou em frente às câmeras: “Essa resposta eu vou ficar te devendo†.

No aeroporto, o barulho das sirenes e helicópteros oculta o zunido baixo da conversa nos corredores. Pra todo lado os trabalhadores do aeroporto comentam o acidente. Os que trabalham na pista sabem como tudo aconteceu, sabem das condições da reforma, comentam como o avião derrapou. Os do terminal de carga sabem que a empresa lucra pesado com seu trabalho e por isso não pode esperar com a pista fechada. Os motoboys sabem que o aeroporto não pode ficar no meio da cidade. Esse zunido baixo, cochichado para que a empresa não descubra que os trabalhadores pensam e refletem o mundo, a mídia não escuta. Esse choro contido dos funcionários da TAM não aparece na televisão nem no rádio é o sofrimento e a reflexão da classe que move o mundo, que levanta aviões, que transporta a riqueza que ela própria produz.

Nos olhos e vozes desses trabalhadores se pode ler uma verdade inegável. Nas mãos dos patrões, o aeroporto será um constante risco àvida de todos. Só esses trabalhadores, sensíveis às tragédias, preocupados com a segurança e não com o lucro podem gerir um transporte aéreo seguro, pautado na qualidade e na universalização do serviço. Essa realidade, que agora parece distante, tem que ser discutida. A estatização do sistema aéreo sob controle dos seus trabalhadores é a única maneira de salvar outras vidas, assim como A. salvou a vida de Biro, dentro do prédio em chamas da TAM.

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