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GRÉCIA

Os revolucionários e a questão do “governo de esquerdaâ€

09 Jun 2012   |   comentários

O fenômeno eleitoral da Syriza entusiasmou a muitos na esquerda que se reivindica trotskista, que rapidamente tomaram como sua a consigna de “governo de esquerda†que eventualmente poderia surgir depois das eleições de 17 de junho, quer dizer um governo da Syriza, do Partido Comunista Grego (KKE) e Esquerda Democrática (uma ruptura pela direita com a Syriza que atraiu a vários parlamentares do (...)

As eleições de 6 de maio mostraram que a grande maioria do povo grevo repudia o brutal ajuste da “troika†(a UE, o FMI e o Banco Central Europeu) implementado pelos principais partidos da burguesia: Nova Democracia e PASOK. O afundamento dos partidos tradicionais foi capitalizado pelo Syriza (Coalizão da Esquerda Radical), uma coalização reformista de esquerda, cujo principal membro é o Synaspismos, uma velha ruptura do Partido Comunista grego que integra junto a outros velhos partidos comunistas reciclados, como Die Linke (Alemanha), Izquierda Unida (Estado Espanhol) e o Partido Comunista Francês o chamado Partido da Esquerda Européia. Syriza praticamente quadruplicou sua porcentagem de votos, saiu das eleições como a segunda força e abriu uma crise política de envergadura ao se negar a formar governo com o PASOK e a Nova Democracia, o que precipitou o chamado a novas eleições para 17 de junho.

O meteórico crescimento eleitoral da Syriza é expressão de uma profunda polarização social e política, produto de três anos de ajustes e “resgates†, e de cinco anos consecutivos de recessão, no marco de uma crise social sem precedentes e persistente resistência dos trabalhadores, dos jovens e setores populares. A outra cara deste processo de polarização nas eleições foi a extrema-direita neo-nazista da Aurora Dourada, que apelou ao sentimento nacionalista e xenófobo que se exacerbou com a crise.

Sem sombra de dúvidas, a mensagem política da Syriza de rechaçar o “Memorandum†de ajuste junto a se manter no euro, empalmou com um estado de consciência de amplos setores de trabalhadores, estudantes, jovens “indignados†e setores pauperizados pela crise, que apesar de ter protagonizado 17 greves gerais nos últimos dois anos e inumeráveis mobilizações contra as medidas brutais de austeridade, ante a falta de uma alternativa política revolucionária, ainda abrigam a ilusão de que sua salvação passa por seguir no marco da União Européia.

Ainda que o panorama eleitoral ainda está incerto, frente àgrande fragmentação de votos que caracterizou as eleições de 6 de maio, as próximas eleições parecem refletir uma tendência a concentrar um “voto útil†tanto àdireita tradicional, representada pela Nova Democracia, como a esquerda “possível†representada pela Syriza, o que poderia levar a uma redução importante da porcentagem de votos da extrema direita neo-nazi Aurora Dourada e também de organizações de esquerda como o Partido Comunista Grego (KKE) e Antarsya.

A Nova Democracia e o PASOK – apoiados pelos grandes meios de comunicação imperialistas europeus – centraram sua campanha em aprofundar os temores das classes médias a que justamente um governo da Syriza seria incapaz de sustentar sua promessa de manter a Grécia dentro da eurozona, e agita o fantasma, tão temido por uma maioria que poderia oscilar entre 65% e 80% segundo a pesquisa, de que o país seja expulso do euro.

Para fazer frente a esta campanha de pânico, Aléxis Tsipras, principal figura da Syriza, vem deixando claro que, em caso de chegar ao governo, não tomará nenhuma medida “unilateral†que afete àUE, como por exemplo, deixar de pagar a dívida, menos ainda nacionalizar os bancos nem afetar os interesses capitalistas, enquanto busca aliados como o presidente francês Hollande ou inclusive Obama para pressionar por outra linha que não seja só austeridade. A Syriza promete ao mesmo tempo rechaçar o memorandum do ajuste e negociar com Merkel e a troika a permanência da Grécia no euro, especulando que para as potências européias a saída da Grécia da zona do euro seja mais custosa que negociar alguns pontos do ajuste, já que poderia disparar uma espiral de crise que arraste a Espanha, Itália, e com elas o conjunto da União Européia, com implicações em todo o mundo. A posição da Syriza, que, desde seu êxito eleitoral de maio não tem feito algo mais que moderar seu discurso, é afrouxar a pressão da UE e do FMI esperando que a economia recupere algo de dinamismo para assim poder fazer frente às obrigações gregas e encarar o programa das “reformas estruturais†.

Porém, a dureza de Merkel, que defende antes de tudo os bancos e os grandes capitais alemães, mostra que este programa reformista de “salvar o euro†, quer dizer, em primeiro lugar os bancos alemães e a Europa capitalista (incluindo a burguesia grega) e ao mesmo tempo os trabalhadores gregos, é completamente utópico. No fundo a Syriza compartilha um importante ponto de programa com a Nova Democracia e o PASOK que é manter a Grécia como um “capitalismo viável†dentro do euro, só que a direita tenta se mostrar como a mais eficiente para fazê-lo. Isto explica que nas últimas pesquisa já não há certezas sobre o triunfo de Syriza e apareça a direita tradicional da Nova Democracia com possibilidades de ficar em primeiro lugar.

As ilusões em um “governo de esquerda†conciliador com o imperialismo

O fenômeno eleitoral da Syriza entusiasmou a muitos na esquerda que se reivindica trotskista, que rapidamente tomaram como sua a consigna de “governo de esquerda†que eventualmente poderia surgir depois das eleições de 17 de junho, quer dizer um governo da Syriza, do Partido Comunista Grego (KKE) e Esquerda Democrática (uma ruptura pela direita com a Syriza que atraiu a vários parlamentares do PASOK).

A LIT (cujo principal partido é o PSTU do Brasil) se pronunciou a favor da formação de um “governo anti-ajuste†. Em sua declaração chama a formar uma “Frente de Esquerda†entre “Syriza, o KKE, e Nova Democracia†(supomos que se referem a Esquerda Democrática – nota do revisor) e outras forças de esquerda como Antarsya, que assuma o governo e levante um programa que “rompa com a Troika†, repudie o memorandum e faça um “verdadeiro plano de resgate dos trabalhadores e do povo†, onde as inconsistências da Syriza com o que poderia ser uma política revolucionária, nada mais e nada menos que seu programa de reforma das instituições imperialistas da UE, são somente uma “desculpa†que não deve servir para não se subordinar a um governo de “esquerda†sob sua direção. A LIT nem sequer se propõe a se diferenciar programaticamente, aderindo ao programa mínimo “anti-memorandum†. Esta política oportunista e eleitoralista de unir todos que estão “contra a direita†não é nenhuma novidade para a LIT. Sua seção portuguesa não só se manteve anos dentro do Bloco de Esquerda convivendo com uma esquerda reformista e parlamentarista, afastada da luta de classes, como também vem defendendo a anos construir uma “alternativa de governo†àesquerda do Partido Socialista com o Partido Comunista Português, que, tal como a Syriza, levanta uma política de renegociar a dívida e os ajustes e tem uma linha de colaboração de classes para fazer confluir os trabalhadores com “os democratas e patriotas que não estejam conformados com a liquidação da soberana de seu país†(larepublica.es, 27/5/12).

O Secretariado Unificado da Quarta Internacional (da qual faz parte a ex-LCR hoje no NPA da França) não faz rodeio e diretamente chama a assumir como seu o “plano de emergência†de 5 pontos que a Syriza levantou. Este plano inclui, entre outras reivindicações, a suspensão do pagamento da dívida e sua auditoria, para separar a dívida “legal†da “ilegal†e o controle público sobre os bancos (algo que Tsipras se encarregou de esclarecer que não se trata de nenhuma nacionalização). Em uma declaração pública o SU chamou abertamente a votar no Syriza, inclusive contra a política de sua seção grega, OKDE-Spartacus, que se apresentará nas eleições como parte da coalizão anti-capitalista Antarsya, a seção grega defende que o programa da Syriza é reformista, e o posicionamento do SU está gerando debate nas fileiras desta organização internacional. A direção do SU não tirou nenhum conclusão da crise do NPA na França, produto de sua falta de definição estratégica e sua construção em espaços eleitorais e não na luta de classes, gerando correntes internas abertamente oportunistas que lutam por abandonar toda pretensão de “esquerda anti-capitalista†para confluir com a Frente de Esquerda de Mélenchon e o PCF. Isto levou o NPA àparalisia e a sofrer uma sangria de militantes.

Os companheiros do Partido Operário (Argentina) também se somaram a este coro de organizações que saíram a defender a consigna de “governo de esquerda†contra a direita; em um artigo de Prensa Obrera 1224, apesar de expor os limites do programa reformista utópico da Syriza e de reconhecer o fato evidente de que, no caso de chegar ao governo, esta esquerda não faria mais que “ganhar tempo†para evitar ter que gerir o colapso, Altamira termina defendo que “nestas condições, mais que nunca, defendemos a consigna de um ‘governo de toda a esquerda’, contra a alternativa da direita.†A esta política ele agrega o chamado a que “rompa com o imperialismo, ou seja com a União Européia, e tome medida anti-capitalistas e impulsione um governo de trabalhadores†. Ao não existir organismos das massas na luta que tendam a criar um duplo poder, este chamado do PO apela àvontade da direção da Syriza par que “impulsione†um governo de trabalhadores, o qual, longe de combater o reformismo e pacifismo, fortalece as ilusões parlamentaristas alimentadas por esta centro-esquerda. A política do PO de “defender a perspectiva de um governo da esquerda contra a direita, denunciando o caráter ou as limitações estratégicas do programa desta esquerda†é, nos fatos, uma política de apoio crítico a um eventual governo de esquerda dirigido pela Syriza, algo que o próprio Altamira havia considerado até somente duas atrás como “o perigo de uma abordagem oportunista, como seria um apoio – inclusive ‘crítico’ – àSyriza em nome de ‘uma luta contra o ajuste’†(Prensa Obrera, 1222). Apesar de Altamira afirmar que deste modo está apoiando a “campanha eleitoral da esquerda revolucionária da Grécia – o EEK†, o que parece reforçar, no entanto, são as ilusões na Syriza e na esquerda reformista, que, longe de impulsionar um governo dos trabalhadores poderiam se transformar em um instrumento de desvio a serviço do capitalismo grego e da UE.

O chamado a um eventual “governo de esquerda†encabeçado pela Syriza, longe de contribuir para que setores dos trabalhadores e jovens avancem para tirar as conclusões de que o único programa para enfrentar o ajuste é um programa anti-capitalista e revolucionário, alimenta as ilusões de que é possível uma saída parlamentar e pacífica àcrise, sem enfrentar as instituições imperialistas como a UE nem atacar os interesses dos capitalistas. Esta política é particularmente oportunista frente a perspectiva de que o aprofundamento da crise e um salto na luta de classes desenvolvam tendências abertamente contra-revolucionária que contem com o aval de setores da burguesia e das classes médias assustadas, tendências estas antecipadas pela emergência do neo-nazista Aurora Dourada.

A defesa de "governo de esquerda" se parece a outros similares feitos por partidos da corrente ’morenista’, nos quais a tática do ’governo operário e camponês’, enquanto exigência a direções operárias reformistas ou pequeno-burguesas das massas em luta (não de movimentos eleitorais) no marco de situações revolucionárias, para que rompam com a burguesia e tomem o poder, indissoluvelmente ligada ao impulso audaz de surgimento de organismos de duplo poder de tipo ’soviético’, se corrompe pelo apoio eleitoral a candidaturas e programas de colaboração de classes.

Os trabalhadores e os jovens gregos mostraram uma grande vontade de resistência e uma grande combatividade para enfrentar os planos de austeridade nas ruas. Inclusive alguns setores avançados, ainda que minoritários, tiveram experiências de ocupações de lugares de trabalho. No entanto, até o momento, estas ações e energias de luta foram canalizadas por uma burocracia sindical vendidas aos partidos patronais, que, se enfrentando, com dias de greve isolados, têm conseguido que não se desenvolva uma tendência àgreve geral. Nisto também tem grande responsabilidade o KKE, que com sua política que combina a auto-proclamação e o sectarismo com um programa reformista e eleitoralista tem sido um obstáculo para desenvolver a frente única operária. Para derrotar os planos da União Européia e da burguesia grega faz falta um programa revolucionário. Um programa que esteja àaltura da ofensiva dos capitalistas para fazer que os trabalhadores carreguem com o peso da crise, que deve combinar medidas urgentes como o cancelamento da dívida e dos programas de austeridade, com medidas transicionais como a nacionalização dos bancos, sob controle dos trabalhadores, a expropriação dos grandes capitalistas na perspectiva de impor um governo operário e popular, baseado nos organismos de democracia operária, para seja um primeiro passo na luta pelos Estados Unidos Socialistas da Europa.

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