Domingo 20 de Outubro de 2019

Movimento Operário

GREVE DA CONSTRUÇÃO CIVIL EM FORTALEZA

Os operários deram um exemplo, mas a direção não esteve àaltura

14 May 2008   |   comentários

Nas últimas semanas Fortaleza, capital do Ceará, esteve marcada pela luta operária, com greves da construção civil, dos rodoviários e dos agentes municipais de saúde. A prefeita petista Luzianne Lins, da corrente Democracia Socialista (DS), ficou ao lado da patronal, contra os trabalhadores e no caso dos agentes de saúde ameaça com a ilegalidade da greve, a convocação de policiais municipais para substituir os grevistas e punição.

No dia 22 de abril os operários da construção civil iniciaram uma greve que durou 14 dias, paralisando as obras, fazendo passeatas e piquetes radicalizados que mostravam disposição de enfrentar a patronal e impor suas reivindicações. A greve se encerrou no dia 6 de maio, depois de muita pressão dos patrões e de uma campanha reacionária da imprensa qualificando de vândalos os piqueteiros que não vacilavam em quebrar os canteiros de obras que impunham resistência aos grevistas. Uma atitude exemplar dos operários, pois somente com medidas duras e decididas pode-se dobrar a patronal e mostrar aos trabalhadores mais atrasados que a luta é para valer.

Contudo, essa importante greve não pode ser uma luta exemplar para todos os trabalhadores do país. A direção sindical e política (PSTU) estava bem distante da disposição e decisão dos operários. Não se preparou para uma greve longa e dura, e sim para mais uma campanha salarial rotineira. Já no segundo dia de greve (23) o presidente do sindicato Geraldo Magela declarava que “pelo jeito pode ser que fiquemos (em greve) até segunda-feira (28), pois eles (os empregadores) não querem se reunir logo para resolver a questão†[http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/04/23/ult23u1996.jhtm].

Nessa entrevista o presidente Magela mostra que a patronal propunha, na última negociação antes da greve, 8,16% sobre o piso salarial, que passaria de miseráveis R$ 392,00 para R$ 424,00. E o presidente do sindicato patronal dizia os 15% exigidos pelo sindicato seria “irreal no Brasil, que teve uma inflação no último ano em torno de 5%†. Os capitalistas lucram cada vez mais, às custas de salários miseráveis e condições indignas de trabalho para os operários.

Os operários mais explorados deram um grande exemplo

A direção sindical viu-se obrigada a convocar a greve, pela pressão dos trabalhadores. Passados 14 dias de piquetes radicalizados e sacrifícios, os serventes, que estiveram na linha de frente, ouviram dos mesmos dirigentes que a greve deveria ser encerrada em troca de R$ 4,00 acima do que a patronal havia oferecido antes da greve, tendo seu piso salarial “subido†para R$ 428,00. Todavia, os mestres de obras ’ quem oprime e tem poder de demitir os operários ’, que obviamente não fizeram greve, receberam 12,1% (sobre um salário que já era quase o triplo do piso dos serventes)! Mais uma vez comprova-se que as campanhas salariais, os sindicatos e as direções sindicais não representam os trabalhadores mais explorados, que botam a cara para bater, mas no final ganham menos que os setores acomodados e de maiores salários, inclusive os chefetes. Onde está, então, a vitória propagada pelos dirigentes do sindicato e do PSTU?

A força e a disposição dos operários davam para muito mais, por isso os operários não saíram derrotados. Ficou um gosto amargo. Os dirigentes não estiveram àaltura dos operários radicalizados da construção civil. Até mesmo o diretor do sindicato José Batista reconheceu, ao defender o fim da greve, que “todo reajuste é pouco, companheiros, mas esse é o resultado de muita luta e muito suor†[www.pstu.org.br].

Como dizia Marx, qualquer reajuste salarial continua mantendo a escravidão assalariada ’ a venda da força de trabalho como mercadoria ’, mas isso não significa que a luta deve ser preparada sem levar em conta o conteúdo das reivindicações. As campanhas salariais ’ herança da estrutura sindical varguista ’ obedecem ao ritual de luta uma vez ao ano, com uma pauta determinada pelas imposições de negociação com a patronal. Reposição da inflação do ano anterior é a base de toda campanha salarial. Ocorre que os preços, principalmente os de primeira necessidade, os mais consumidos pelos trabalhadores de menores salários (os mais explorados), aumentam todos os dias aumentam, corroendo o poder aquisitivo enquanto os patrões enchem os bolsos. Além do programa, as lutas devem ser preparadas com a coordenação dos sindicatos e dos trabalhadores, pois isolados e separados nossa força é diminuída.

A direção da Conlutas (e do PSTU) não foi capaz de unir e coordenar sequer os próprios sindicatos e ativistas para cercar de solidariedade os operários da construção civil. Na última semana, estavam parados também os rodoviários de Fortaleza, mas as duas greves ficaram sem coordenação, sem política efetiva para ganhar a simpatia e o apoio da população para enfrentar a campanha reacionária da burguesia e da imprensa contra os grevistas.

Esta greve deixa algumas lições fundamentais: a) os dirigentes devem se preparar como estrategistas de uma guerra de classes e não meros “negociadores†(ainda que combativos); b) é imprescindível romper com a velha tradição petista-cutista de campanhas salariais isoladas por categorias e sindicatos, com “programas viáveis†para negociar com a patronal; c) as lutas operárias devem avançar como lutas políticas contra o sistema de exploração, e o programa de luta deve expressar os interesses reais dos trabalhadores, principalmente das camadas mais exploradas e precarizadas, pois entre esses encontraremos os mais abnegados combatentes, porque são os que nada têm a perder e tudo a conquistar; d) a unificação dos trabalhadores e suas organizações para a luta é fundamental para potencializar as forças e enfrentar o cerco da patronal, da justiça, da imprensa e a repressão policial.

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