Nacional

LUTA CONTRA O AUMENTO DAS PASSAGENS

Os atos contra o aumento da passagem podem marcar um novo levante de juventude no Brasil?

19 Jan 2015   |   comentários

Começamos o ano com atos importantes nas principais capitais do Brasil, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Recife, Florianópolis e São Paulo. FOTO UOL.

Começamos o ano com atos importantes nas principais capitais do Brasil, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Recife, Florianópolis, com destaque em São Paulo no primeiro contando com cerca de 10 mil pessoas. Maiores do que os atos que iniciaram Junho, é possível surgir um novo levante de juventude?

Novamente as questões sociais e a pauta dos transportes seguem latentes para a população, principalmente a juventude, e é um problema para a burguesia conter esse descontentamento em um ano de já anunciados ajustes, demissões e aumento do custo de vida. As cartas estão na mesa para um novo levante, junto a um novo movimento operário ativo, o qual já se apresenta com a greve das Volks nesse janeiro. Para isso é preciso que a juventude supere suas direções governistas, que também se preparam para esse ano conter as mobilizações para passar os planos de ajuste do governo, usando por um lado medidas de cooptação, por outro de repressão e divisão dos trabalhadores da juventude.
 
Quatro desafios para a juventude em 2015
 
"Coração Valente" só para as empresas.

 
Nesse engodo contraditório o PT, questionado em Junho e que em 2014 passou por uma das eleições mais acirradas desde a redemocratização, vem tomando medidas para conter possíveis manifestações da Juventude e ao mesmo tempo relegitimar o partido frente a população.

O próprio logo de Dilma "Coração Valente" queria mostrar a presidente com um perfil jovem, lutadora, na tentativa do governo dialogar com esse sentimento de insurretos que marcou a juventude pós Junho. Isso porque, há mais de 10 anos no governo numa situação nacional e internacional estável, o PT foi se afastando de qualquer posição ligada as bases do movimento estudantil e operário, suas figuras sindicais ficando velhas e descaradamente burocratizadas. Por conseguinte seu papel histórico de desvio e contenção das lutas posto em xeque.

A questão geracional em relação a juventude é ainda mais drástica, pois esta não guarda relações orgânicas com esse partido, como muito provavelmente seus pais mantiveram, uma nova geração que só viu o PT no governo como mais um partido da ordem, corrupto e que governa para os empresários. Isso é um problema para a burguesia!

Por isso desde Junho o próprio Lula vem com um discurso de "voltar ao PT das origens", nas eleições tentou convencer a todos da necessidade de votar no PT contra a suposta "ameaça da direita†, isso para recriar a identidade de um partido de esquerda e do povo, como se os diversos casos de corrupção, desde o Mensalão até o recente escândalo da Petrobrás, fossem problemas individuais de pessoas que se desviaram do “verdadeiro projeto do PT†.

Para isso, a juventude tem uma localização chave. Lula lançou nesse ano vídeos para internet justamente para atingir esse setor, ao mesmo tempo em que as organizações governistas se orientaram para ganhar centros acadêmicos e Diretórios Centrais nas Universidades.

No estado de São Paulo, o governismo ganhou forças em CA’s importantes na USP, como a Letras; na Unicamp ganharam o DCE dirigido ha 12 anos pelo PSOL, além de dirigirem a Universidade de Minas Gerais, a UERJ no Rio de Janeiro, a grande maioria das Universidades no norte do país. Esse movimento, que para muitos pode parecer um refortalecimento do PT ou do governismo em si, o que seria um contra-senso ao questionamento colocado em 2013, mostra na realidade um vazio de politização deixado por Junho no seio da juventude, que a esquerda reformista e centrista, não conseguindo responder, abriu caminho livre para o PT se localizar. Contudo, mais uma prova de que não significa o fortalecimento das idéias do governo é o fato de que a grande maioria das correntes governista como UJS (PCdoB), o Levante Popular da Juventude, Esquerda Marxista, e outras não usam do discurso governista, pelo contrário, se escondem por trás de sentimentos autonomistas, corporativistas ou mesmo fomentando a despolitização para ganharem essas posições.

Esse giro do governismo é a preparação para conter qualquer tipo de levante estudantil que questione mais a fundo os projetos do governo, como por exemplo, o corte de R$1,8 bilhões da educação esse ano. Ou como em Campinas, com o atual DCE da UJS apoiando o projeto do prefeito Jonas Donizette do PSB de desconto na passagem Universitária como grande conquista tirando foto junto ao prefeito, cantando vitória a uma medida da prefeitura de dividir os estudantes de toda a população trabalhadora, e a juventude não universitária que vai ter sua tarifa aumentada. Nesse mesmo sentido que a UNE, a UEE e a Juventude do PT sentaram nessa ultima quinta-feira com o prefeito de São Paulo, Haddad do PT, para negociar uma nova pauta sobre o transporte, o que na pratica é uma medida de subordinar a juventude ao governo, ao mesmo tempo que alegaram que não participarão mais dos atos e que agora levarão “sua própria pauta†de conciliação de classe, como se fosse possível garantir os interesses da população e dos empresários.

Assim, superar essas direções do governo é o principal desafio para a juventude hoje, não se iludir com o canto da sereia das supostas concessões, do diálogo do "povo". O governo usa desse discurso para tentar conter a maior radicalização. Por isso é necessário retomar as entidades para serem um instrumento que organize os estudantes para o combate, com uma política que jamais se concilia com o governo, mas sim levanta as principais demandas sentidas pelos estudantes e pela população.
 
Quem nos puxa o tapete
 
Muitos já comentam o claro perfil de direta que passadas as eleições o governo Dilma não demorou em concretizar com Katia Abreu no ministério da Agricultura (defendendo os latifúndios) e Joaquim Levy, neoliberal clássico para comandar a economia. Este ultimo, chamado pela própria mídia burguesa de “czar da economia†deixou claro que 2015 será um ano duro, com a economia brasileira estagnada e a “árdua†tarefa de arrumar as contas da União. O plano já é certo, cortar gastos públicos com educação (principalmente), mas também nas questões trabalhistas como seguro desemprego, auxílio por acidente de trabalho e outros. Enquanto isso Dilma em seu discurso de posse falava sobre a pátria educadora, promete dinheiro da Petrobrás para a educação e um segundo projeto do PAC, mas não toca nem na crise da estatal e das grandes empresas da construção civil, e menos ainda na crise econômica.

Esse descompasso no discurso não é nada mais que tentar salvar as figuras do PT, principalmente Lula das crises desse ano, enquanto o “portador das más notícias†fica a cargo de Levy. No tempo que esse “czar†anacrônico nos puxa o tapete, o governo para não começar a ser amplamente questionado por seu caráter direitista de sua agenda econômica, mantém um discurso populista dialogando com demandas democráticas muito sentidas no Brasil, como a questão negra e LGBT. Em SP o prefeito Haddad aprovou um salário mínimo para as trans poderem voltar a estudar, claramente uma questão importantíssima, uma vez que esses setores mais oprimidos tem altos índices de evasão escolar, contudo é também uma primeira mostra de como o governo pode usar das demandas democráticas como barganha para se represtigiar com a juventude, e atacar por outro lado. É uma possibilidade frente a crise que esse método de usar das demandas democráticas para destencionar as tensões sociais seja mais estendido, por isso a importância da juventude levantar juntos aos LGBTs e a população negra sua própria pauta independente do governos, para que as conquistas sejam arrancada pela mobilização e não por acordos conciliados a burguesia.
 
Dividir para conquistar
 
Nesse mesmo sentido, é importantíssimo que a juventude se ligue aos trabalhadores, que começam a sofrer mais duramente com a inflação, o congelamento dos salários, e mesmo a inicial falta de emprego. Não só em relação às questões democráticas, mas também nas sociais, como do transporte onde diversas prefeituras, como Campinas e São Paulo concederam passe para estudantes Universitários, fingindo responder a essa demanda, mas que na verdade busca isolar programaticamente a vanguarda Universitária do resto da população dando uma concessão a só esse setor enquanto todo o resto vê suas tarifas aumentarem.

Essa é uma medica clássica para dividir a juventude dos trabalhadores, pois o maior risco para a estabilidade das empresas e do governo é se a juventude se alia aos trabalhadores que também aprenderam que é possível vencer fazendo greve e manifestações. Em Julho essa mesma lógica tambem foi usada pelo PT quando chamou uma marcha das centrais sindicais no refluxo das manifestações de massa para levantar a política do governo, querendo criar uma separação dos supostos “vândalos†dos trabalhadores.

Superar essa divisão é a principal tarefa da juventude hoje, uma vez que são os trabalhadores os únicos que não recebem nenhum privilégio desse sistema e ao mesmo tempo são os que produzem todas as riquezas. Forjar um movimento estudantil que tenha como principal norte a aliança com os trabalhadores tanto nas lutas como levantando demandas que respondam aos problemas de toda a população, que em cada fato defenda e lute sob os olhos dos mais oprimidos. É essa aliança a mais perigosa que pode desestabilizar os privilégios das empresas e governos, e diferente de Junho quando os trabalhadores ainda estavam atomizados, 2014 esse novo movimento operário acordou com os Garis, Rodoviários, USP, e já começa o ano com uma greve de milhares da Volks.
 
Na repressão PT e PSDB andam de mãos dadas
 
Por ultimo, os partidos da ordem se unem na repressão, em São Paulo o governo Alckmin, junto ao prefeito Haddad do PT, já usaram de dura repressão nos dois atos contra o aumento da tarifa, e pretende continuar, nesse caso PT e PSDB tranqüilamente se unem para tirar violentamente, com métodos da ditadura, a juventude das ruas. Sem falar da repressão nacionalizada que houve em junho para conter os atos, esse ano a burguesia vem usando de uma tática de desgaste, ou seja, não reprime como no dia 13 de Junho, (quando até os repórteres foram alvos), mas sim reprimem seletivamente para tentar amedrontar os jovens que estão nas ruas, mas sem causar escândalo para a opinião publica.
 
E aqui, a melhor arma contra a repressão é massificar os atos, articular os estudantes e a juventude trabalhadora desde seus locais de trabalho e estudo, para ganhar apoio popular, e mostrar que “violento é o estado†, já que as manifestações são direito legitimo do povo mostrar sua indignação e colocar as suas próprias pautas nas ruas.
 
Ainda não sabemos se esse ano vai se repetir algo tão enorme como 2013, mas com certeza estamos passando por novos tempos, uma nova situação nacional que tem várias faíscas que podem virar chama. Para isso tirar as lições dos processos passados é fundamental para aproveitar da melhor forma a situação que nos abre. Conseguirá a juventude quebrar as manobras das direções estudantis e operárias em 2015 para não unir estudantes e trabalhadores? Disso depende um novo junho.

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