Nacional

Operação Herodes

Escancara hipocrisia do Estado em negar direito ao aborto

20 Oct 2014   |   comentários

Na última semana foi divulgada pela mídia nacional a maior operação policial contra uma quadrilha que mantinha sete clínicas clandestinas no município do Rio de Janeiro. Foram presas 57 pessoas e mandados de prisão e apreensão foram despachados em vários municípios do estado.

Na última semana foi divulgada pela mídia nacional a maior operação policial [1] contra uma quadrilha que mantinha sete clínicas clandestinas no município do Rio de Janeiro. Foram presas 57 pessoas e mandados de prisão e apreensão foram despachados em vários municípios do estado. Entre os presos estão policiais militares, médicos, sargento do Corpo de Bombeiros, militar do Exército, policiais civis e enfermeiros. De acordo com a investigação, esta quadrilha formava uma espécie de “holding†que administrava e atuava nas setes clínicas espalhadas pela Zona Sul, Norte e Oeste da cidade, nos bairros de Bonsucesso, Campo Grande, Copacabana, Botafora, Rocha, Tijuca e Guadalupe.

Uma verdadeira indústria de matar mulheres

Nestas clínicas eram realizados abortos até em adolescentes de 13 anos e mulheres que interrompiam as gestações com 7 meses, procedimento de alto risco para as gestantes, que no desespero de não levarem adiante a gravidez se submetiam a situações como esta, a um custo de R$ 7.500. Um dos médicos, chamado Aloísio Soares Guimarães, que mora em Leblon, bairro rico da Zona Sul carioca, é acusado por realizar abortos clandestinos desde 1960.Ele tinha uma conta na suíça de 5 milhões, e só em sua casa foram apreendidos 532 milhões entre dólares e reais.

Apesar do presidente do CREMERJ (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro), Sidnei Ferreira [2] defender a descriminalização e legalização do aborto, a instituição premiou o médico Evangelista Pinto da Silva Pereira [3] , um dos acusados pela operação, pelos cinquenta anos de carreira, mesmo ele já tendo oito passagens pela polícia pelo “crime†do aborto. Agora se encontra foragido no exterior.

O montante de dinheiro encontrado na casa do médico e contas em bancos fora do país mostra a grande indústria que gerava muito lucro para os envolvidos nesta máfia em detrimento da vida de centenas de mulheres. Cada aborto custava em média de R$ 3.000,00 a R$ 7.500,00, e eram realizados em condições insalubres, onde as mulheres eram humilhadas e obrigadas a saírem das macas de cirurgia enxotadas para que pudesse ser realizado o maior número possível de procedimentos por dia.

Com certeza a maioria desses médicos e enfermeiros não são os que defendem e impulsionam uma campanha entre a sociedade de médicos e enfermeiros pela legalização do aborto, pois seria contraditório com a manutenção do negócio que alimentam seus lucros e privilégios.

O Estado do Rio de Janeiro, em 2103, ultrapassou a marca de 67 mil abortos, segundo pesquisa feita por Mario Giani, do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro [4]. Se considerarmos que todos foram feitos na clandestinidade e em clínicas clandestinas, a um valor médio entre 3 e 5 mil reais [5], daria um rendimento de 201 milhões de reais só no Rio de Janeiro. Se considerarmos o número de abortos clandestinos por ano no país em 800 mil, conforme estimativas existentes, este valor seria 2 bilhões e 400 milhões de reais. Um faturamento que supera o do tráfico nacional, que em 2010 chegou a 1 bilhão e 400 milhões de reais [6].

A hipocrisia e o envolvimento das instituições do Estado

O nome da operação policial, chamada Herodes, que faz referência a um rei conhecido por mandar matar sua família e todas as crianças que nasciam, com medo de que viessem a tomar o seu trono, tenta dar o sentido de que é uma operação contra criminosos com desvios psicológicos, que matam mulheres e crianças, justamente como forma de desviar o que está por trás desta verdadeira indústria de mutilação e assassinatos de mulheres.

Esta operação só reafirma o que foi comprovado no caso de Jandira (caso de assassinato por aborto clandestino que ficou conhecido em todo o país recentemente) e o que ocorre em tantos outros casos de mortes em clínicas clandestinas: o envolvimento e fomento destas máfias por parte do próprio Estado. É tão escandaloso que não é possível esconder o sol com a peneira.

As clínicas clandestinas de aborto no Brasil são uma rentável fonte de dinheiro para médicos, enfermeiros, policiais e sargentos do Corpo de Bombeiro, que envolvem também políticos e empresários.

Ao mesmo tempo que se vangloria da “maior operação já feita contra o crime do aborto†, o Estado continuará alimentando esta indústria. Não foram poucas as vezes que esses médicos e policiais foram presos e soltos e continuam lucrando com este negócio.

E o discurso do Estado, de que estão combatendo um crime que mata mulheres, escancara sua hipocrisia, pois na realidade também criminaliza as mulheres que realizam abortos clandestinos, tornando as vítimas como criminosas, que na maioria são pobres, trabalhadoras e negras como ocorreu recentemente com uma bancária de São Gonçalo que foi levada para a delegacia e obrigada a pagar uma fiança de 250 reais ao ter confessado para a médica que havia tomado um remédio abortivo. E está indiciando 35 mulheres, que ao invés de receberem cuidados médicos e psicológicos e passarem pelo procedimento do aborto seguro e legal, serão tratadas como criminosas como os próprios médicos e policiais.

A resposta do Estado também é uma forma de desviar a atenção que a própria mídia foi obrigada a dar com posições progressistas diante dos casos de Jandira e Elisângela, que por terem grande repercussão nacional colocaram a necessidade da sociedade combater a hipocrisia e retomar o debate sobre o direito da legalização do aborto.

Mais do que na hora de legalizar o aborto garantido pelo Estado

A operação Herodes se vangloria de ser da “maior operação†contra o crime dos “açougueiros†das clínicas clandestinas, mas se silencia diante da falta de direito de escolha das mulheres, da falta das condições básicas para as mulheres exercerem a maternidade e terem acesso àum sistema de saúde público e de qualidade, e até mesmo da dificuldade que passam as mulheres para realizarem o procedimento mesmo nas circunstâncias legais.

Para terminar com a máfia da indústria do aborto clandestino e do feminicídio que atinge milhares de mulheres por ano, até mesmo a mídia reconhece que já passou da hora de colocar um ponto final na hipocrisia do Estado, governos e do parlamento e colocar em pauta a legalização do aborto.

As organizações feministas devem ser chamadas a participar da investigação dos crimes cometidos pelas clínicas clandestinas como o único caminho para garantir a punição exemplar a todos envolvidos porque não é possível confiar na justiça, nos policiais e no Conselho de medicina do Rio de Janeiro que acobertam os médicos. Também devem ser confiscados todos os bens dos policiais, médicos e enfermeiros envolvidos.

O movimento de mulheres e as organizações de esquerda e de direitos humanos devem encarar a luta pelo direito ao aborto, legal, seguro e gratuito como algo urgente e elementar na vidas das mulheres.

O silêncio dos candidatos do segundo turno para a presidência mostra que tanto Dilma como Aécio são conviventes com estas máfias e serão responsáveis pela continuidade de milhares de morte de mulheres no Brasil todo ano. Por isso já passou da hora da retomada de uma grande campanha por um projeto de lei pela legalização do aborto impulsionada nos locais de trabalho e estudo que tome as ruas para terminar de uma vez por todas com as mortes e garantir o direito de escolha de todas as mulheres.

1- http://oglobo.globo.com/rio/policia-prende-57-pessoas-entre-elas-seis-medicos-em-megaoperacao-contra-clinicas-de-aborto-ilegal-14239131

2- http://www.ofluminense.com.br/editorias/cidades/presidente-do-cremerj-quer-aborto-legalizado

3- http://oglobo.globo.com/rio/interpol-deve-ir-atras-de-medico-acusado-de-dirigir-clinica-de-aborto-em-botafogo-14260242

4- http://oglobo.globo.com/rio/estado-do-rio-ultrapassou-marca-de-67-mil-abortos-no-ano-passado-segundo-levantamento-14029362

5- Média do valor mais barato de um procedimento realizado em clínica clandestinas

6- http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2010/06/06/interna_brasil,196279/index.shtm

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