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O que está por trás dos levantes contra as embaixadas norte-americanas no Magreb

14 Sep 2012   |   comentários

Novamente os países do Magreb, um dos palcos mais importantes dos levantes da Primavera à rabe, e do mundo árabe encontram-se sacudidos por protestos, que desatam uma nova crise cujos resultados são ainda imprevisíveis

Novamente os países do Magreb, um dos palcos mais importantes dos levantes da Primavera à rabe, e do mundo árabe encontram-se sacudidos por protestos, que desatam uma nova crise cujos resultados são ainda imprevisíveis. No dia 12/09, quase coincidindo com o 11º aniversário do 11 de Setembro, o embaixador norte-americano na Líbia, Christopher Stevens, foi morto em Bengasi junto a mais três funcionários da embaixada sob circunstâncias ainda não esclarecidas de todo. Trata-se do primeiro assassinato de um embaixador norte-americano desde 1979, e que já está trazendo importantes efeitos sobre a política norte-americana para a região.

A morte de Stevens se deu em meio a uma série de protestos que aconteciam naquele mesmo momento em frente àembaixada norte-americana. Outras mobilizações igualmente massivas se deram no Egito, Iêmen e agora também na Tunísia. Estas foram motivadas pelo repúdio ao filme Inocência dos Muçulmanos. O diretor do filme, que usa o pseudônimo de Sam Bacile, reside na Califórnia, e já teve que cumprir pena de 21 meses por fraude bancária. O filme foi rodado através do financiamento de sionistas dos Estados Unidos, e mostra Maomé como ladrão e pedófilo, tendo despertado a ira de diversos setores do mundo árabe. Mas este é apenas o estopim de um processo mais profundo, que está trazendo contradições para Obama em meio àdisputa presidencial norte-americana.

Líbia, Egito, Iêmen e Tunísia: inflexão dos governos eleitos após a Primavera à rabe

Ainda que o filme tenha acendido a faísca que desatou os enfrentamentos, é evidente que a natureza profunda dos últimos acontecimentos supera enormemente o alcance da paródia produzida por Sam Bacile. Mesmo que a imprensa burguesa internacional não busque fazer a associação direta, tentando restringir a raiva popular que se expressa distorcidamente a uma mera ação em resposta àconvocação das direções islâmicas, o fato é que para além da ofensa religiosa, a juventude e o povo que tomaram as ruas estão motivados também pelo descontentamento social. Isto por que mesmo que se tenha derrubado governos, as demandas mais sentidas pelos trabalhadores e o povo não foram resolvidas. Isso é o que deixa a Casa Branca em estado de alerta, sendo um perigo para a dominação imperialista sobre a região muito superior àAl Qaeda.

O sentimento anti-imperialista em geral, e anti norte-americano em particular, que estiveram ausentes na maioria dos processos da primavera árabe e sendo um importante limite para o desenvolvimento destes, pode se desenvolver agora. Como assinala o jornal Clarín de 13/09/2012: "O ataque aponta o problema da vulnerabilidade dos EUA nos países em que acompanhou os grupos rebeldes que derrubaram ditadores durante a primavera árabe, e nos quais, entretanto, seguem ativos diversos grupos que não se esquecem do passado, em que os EUA apoiaram ditadores" [1]. Ainda que movidas por um sentimento difuso e distorcido, as mobilizações nas embaixadas norte-americanas podem colaborar para corroer o respiro obtido pelo imperialismo após a intervenção da OTAN na Líbia, considerada até então pelo imperialismo norte-americano um sucesso.

Sem custos muito altos, Obama e seus aliados haviam conseguido colaborar para impedir que o processo de levantes populares de fevereiro de 2012 se desenvolvessem em chave independente, controlando o Conselho Nacional de Transição líbio, garantindo melhores condições para a exploração dos recursos naturais do país após a queda de Kadafi, e posando de "defensor da democracia" em meio àprimavera árabe, o que reverteu parcialmente o desgaste por ter defendido Hosni Mubarak no Egito até pouco antes deste ser derrubado pelas mobilizações. Isso ao mesmo tempo em que costurava acordos de pacificação com os partidos islâmicos moderados, como a Irmandade Muçulmana egípcia e de figuras como Mustafa Abu Shagur, eleito como chefe do governo de transição líbio com o apoio dos Estados Unidos.

Porém, frente àescalada dos protestos tudo indica que há uma grande possibilidade de que o tiro saia pela culatra. A resposta por parte do imperialismo não tardou. Apesar do discurso denunciado pelos republicanos como "frouxo", Obama deu luz verde para a ação dos "drones" (aviões não tripulados) para destruir os locais onde supostamente estariam os membros da Al Qaeda. Em verdade esta operação busca intimidar os protestos, que se espalharam por diversos outros países como o Iêmen, a Tunísia e o Egito, impedindo, nos dois últimos casos, que estes comecem a questionar mais abertamente os governos de transição que ascenderam como produto dos levantes da Primavera à rabe.

A resposta aos ataques às embaixadas norte-americanas expressam o caráter servil das mediações eleitas após a derrubada dos governos da região pela Primavera à rabe. Confirmam que estes processos não se constituíram como "revoluções democráticas triunfantes". No Cairo, Mohammed Morsi, eleito como candidato da Irmandade Muçulmana, condenou o assassinato do embaixador dos EUA, enquanto sua organização conclama a manifestações pacíficas, "mas não em frente àembaixada". A polícia impediu que os manifestantes se aproximassem da embaixada, enquanto os clérigos salafistas (ala conservadora dentre os islâmicos) se limitaram a dar um sermão na Praça Tahrir. Porém isso não impediu que houvesse enfrentamentos com tropas da ONU instaladas na fronteira entre o Egito e a Faixa de Gaza. No Iêmen houve uma dura repressão às manifestações. Enquanto reprimia e assassinava seu povo, o presidente deste país, Abdu Rabu Mansur Hadi, que substitui o ditador Ben Ali, pedia "sinceras desculpas ao presidente Obama". Na Tunísia os confrontos terminaram com dois mortos e vinte e oito feridos. Na Líbia o saldo é de um morto e vinte e cinco feridos. O repúdio sequer está restrito às embaixadas norte-americanas. Em Jartum, capital do Sudão, o clérigo Mohamed Jizuly convocou a uma marcha na embaixada da Alemanha em protesto contra pichações anti-islâmicas em mesquitas de Berlim. Centenas de manifestantes sudaneses ocuparam a embaixada alemã e quando a polícia chegou estes se dirigiram para a embaixada britânica.

Como revolucionários marxistas não compartilhamos com o terrorismo individual. Entretanto, nos colocamos resolutamente contra qualquer repressão e endurecimento por parte do imperialismo e dos governos dos países que estão sendo sacudidos pelas manifestações contra as mobilizações.

[1Ataque en Libia: Obama prepara una ofensiva por el crimen de su embajador

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