Diálogos

O que a falta d’água tem a ver com a dengue?

22 Feb 2015 | A chuva, a alta temperatura e o estoque de água contribuem para a proliferação do mosquito Aedes Aegypti, o qual tem preferência por água limpa. O Chikungunya é um novo vírus, transmitido pela picada do mesmo mosquito, o Aedes Aegypti, e tem sintomas muito parecidos com os deste. A grande diferença está no fato de o novo vírus avançar nas juntas do paciente, causar inflamação, vermelidão e calor local; outra diferença importante é que esta febre pode deixar sequelas irreversíveis.   |   comentários

A chuva, a alta temperatura e o estoque de água contribuem para a proliferação do mosquito Aedes Aegypti, o qual tem preferência por água limpa. O Chikungunya é um novo vírus, transmitido pela picada do mesmo mosquito, o Aedes Aegypti, e tem sintomas muito parecidos com os deste. A grande diferença está no fato de o novo vírus avançar nas juntas do paciente, causar inflamação, vermelidão e calor local; outra diferença importante é que esta febre (...)

Breve Retrospectiva e alguns dados

O fatídico ano de 2014, ano greve dos garis do Rio de Janeiro,de Copa do Mundo, de greve no metrô, nas universidades paulistas, luta pela não privatização do Hospital das Clínicas de São Paulo e início da crise hídrica, foi também um ano de epidemia de dengue.

A cidade de Campinas fechou o ano com o maior número absoluto de casos de dengue do país, constando, segundo o Ministério da Saúde, mais de 40 mil casos. O segundo colocado foi a cidade de São Paulo, com quase 34 mil casos da doença; nesta cidade, até a quarta semana de abril foram notificados 3.730 casos. Em Campinas, nesse período, foram mais de 17 mil.

2015 se mostra um ano que não será diferente. Já vivemos um cenário de crise na educação, com exemplar greve no Paraná, austeridade, também, na educação do estado de São Paulo e uma nova greve que estoura na General Motors de São José dos Campos. Em relação àdoença, nas quatro primeiras semanas do ano, já são quase 41 mil casos em todo o país. Na cidade de Campinas, 211 casos em janeiro e mais de 900 que aguardam resultados de exames. Nesse contexto de luta e de inúmeros afetados pela dengue, há uma demanda básica e, hoje, quase inacessível, em diversas cidades e regiões de São Paulo que não tem passado em branco: a luta da população pobre pelo acesso àágua.

Sobre a dengue, os hospitais e a crise da água

Com um orçamento de 1 bilhão de reais, a cidade de Campinas apresentou, em 2014, completa falta de estrutura no atendimento primário aos pacientes; nos procedimentos mais básicos, como exames e consultas em um momento de pior epidemia de dengue da história da cidade, segunda maior do estado de São Paulo.

Muitos postos e centros de saúde foram fechados por não haver condições mínimas e oito unidades de saúde se encontram fechadas desde 2011. Enquanto isso, a população sofre com fila, superlotação e falta de atendimentos e estes, quando tem, são ultra precários, com pacientes sendo atendidos nos corredores do hospital e alguns, quando conseguem maca, são deixados agonizando ao léu sem atendimento, por falta de médicos.

Nesse ano que se inicia, a prefeitura do municipio anunciou a verba de 1,1 bilhão para a saúde e anunciou, também, que haverá apenas metade dos agentes de prevenção àdengue por falta de verba. Mas e a água com tudo isso?

O Levantamento Rápido de à ndice para Aedes Aegypti (LIRAa), em uma de suas análises de levantamento, mostrou que 37,5% dos focos estão localizados em depósitos de água, como caixa d’água, tonéis e galões, segundo pesquisa feita em 2013 em mais de mil cidades brasileiras. Essa porcentagem se dá em cidades onde há neglicência de abastecimento de água, fornecimento quase inexistente ou completamente nulo; veja que isso se dá em um cenário pré crise da água.

A população é obrigada, pela falta de água, a armazená-las, quando tem acesso a este bem que se transformou em mercadoria, em tonéis, barris, baldes e até mesmo piscinas de plástico, para uso e reuso. Estes locais se transformam rapidamente em locais de proliferação do mosquito pois este tem preferência por água limpa. A população, então, é culpada por esta possível epidemia de dengue que pode se alastrar por 2015? Jamais. A culpa é dos governos.

Os governos, primeiramente, culpam a falta de chuva e o consumidor pobre trabalhador, dizendo que este "desperdiça" água. Mas a grande contradição disto está no fato de apenas 7% do consumo de água ser doméstico, é um número irrisório, enquanto nos grandes bairros de classe alta das cidades não há falta. Ora, se o problema é a chuva, por que não falta água nas torneiras dos patrões e para suas empresas?

Por que, então, com tanta chuva neste começo de 2015, com tantas inundações e tantos casas de bairros pobres sendo alastradas pela chuva, continuar saindo apenas indignação de suas torneiras? A estiagem já estava, há muito, prevista, sem que os governos nada fizesse para prevenir o problema que viria, não ampliou os reservatórios, mesmo aumentando a vasão da água. Na verdade, a Sanasa e a Sabesp tem se apresentado uma hidrelétrica de corrupção, nada além disso.

"Na verdade, o mesmo governo que culpa a natureza vem trabalhando contra a natureza: não preservou os mananciais e bacias de onde vem a água, não protege florestas (e mananciais e florestas têm a ver com oferta de água) e polui desatinadamente e dia após dia, década após década, os rios de São Paulo e da bacia que alimenta São Paulo, Campinas e redondezas. O governo de Minas, onde nascem todos esses rios, faz o mesmo. E de quebra, esses governos promovem, na agricultura, o maior consumo de pesticidas e adubos químicos do mundo, toda uma massa de poluentes que compromete os mananciais subterrâneos e os rios e represas; ao mesmo tempo em que despejam esgotos nas nossas águas."

A culpa não é da população: os governos nada fizeram para prevenção da estiagem; continuam desmatando, literalmente, "como se não houvesse amanhã"; aliás, como diz o texto linkado a cima, para se ter água, é preciso ter floresta; culpam a população mas, na realidade, 70% da água vai para o consumo do agronegócio e, 20%, para as indústrias. Nos enfiam, "guela a baixo", o volume morto e água de esgoto reutilizado, sem tratamento e sem filtrar adequadamente, causando grande mal estar na população no último semestre de 2014.

Pelo que lutar?

A luta contra a dengue é, também, a luta contra o chikungunya, contra todas as doenças que podem alastrar pelo país como causa ou consequência da falta de água.

Lutar contra a dengue, contra seu alastramento e pelo tratamento adequado e digno dos infectados nos hospitais, lutar para que a população pobre e trabalhadora tenha água hidratada, sem ter de ser comprada, para acabar com a desidratação causada pela dengue (outra contradição é o fato de, além da falta de água causar dengue, um dos importantes sintomas da doença é a desidratação, que requer água limpa, filtrada e encanada, o que não é o caso das regiões pobres), para que volte a receber água em suas torneiras e deixem de ficar dias a fio sem água em suas casas, sendo obrigadas a armazenar e ainda ouvir nos noticiários que não há falta de água em São Paulo, é lutar para que todos os hospitais particulares sejam estatizados e controlados pela população pobre e pelos trabalhadores, do mesmo modo os hospitais já estatizados e, que assim, tenham tratamento digno, rápido e eficaz.

É lutar para que a Sabesp e a Sanasa, assim como todas as empresas que controlam a água do país, sejam 100% estatizadas e, da mesma forma, sob controle operário popular.

A luta contra a dengue não pode ser separada de todas as lutas em curso, pois não há como resolver um ou outro problema, as lutas só serão ganhas, os problemas só serão resolvidos se os unirmos em torno de sua única causa e ela tem nome: governo Alckimin , que controla todos os nossos direitos, nossos bens, nossos salários, nossa saúde, nossa vida e nossa dignidade. Este governo não só controla e administra mal nossos recursos hídricos, que não eram escassos, como também é o grande propagador de doenças!

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