Movimento Operário

GREVE DA USP

"O ’não tem arrego’ é pra mostrar a nossa força no Hospital Universitário"

30 Jul 2014 | Entrevistamos Cezar Pio, membro do Comando de Greve pelos trabalhadores do Hospital Universitário   |   comentários

JPO: Como está a greve do Hospital Universitário nesse novo momento?

A greve está se mantendo firme, o pessoal está muito confiante. Depois de 19 anos sem parar, o hospital estava uma calamidade estávamos revoltados. Muitos se rebelaram, saíram do armário, mostraram sua cara e entraram na luta. Estão se empenhando cada dia mais, e após a ameaça de corte dos salários pensamos que muitos iam retroceder. No HU houve retorno de funcionários, mas outros entraram definitivamente na greve. Quem estava em escala mínima entrou na greve de vez, dizendo que a partir de hoje não trabalha mais.

Não tem alternativa, se houver o desconto o pessoal vai radicalizar, se fazendo escala mínima não iam receber então não vão mais entrar pra trabalhar. Isso mostra que o trabalhador tem consciência, sabe que tem uma lei que ampara o direito de greve, então ele tem mais postura. Isso há anos não víamos no HU. Nunca participei de greve no HU, tenho 5 anos lá, mas eu sempre ouvia reclamações para tudo que é lado, mas dessa vez o pessoal está se mantendo firme e isso é muito bom.

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JPO: Os garis do Rio de Janeiro trouxeram àtona a palavra de ordem “Não tem arrego†e lá no HU todas as reuniões terminam com “Não tem arrego†. Qual o sentido dessa frase pra vocês?

Repúdio! O “Não tem arrego†é um repúdio, pois existe uma hierarquia muito grande no HU e isso revolta muita gente, é chefe de setor que tem uma postura patronal, médico que manda e desmanda, e o que acontece? O funcionário uma hora vai se rebelar, não vai aguentar e a bomba vai estourar e estourou tudo de vez só.

Queremos acabar com esse sistema de hierarquia lá dentro. Eles pegam uma enfermeira e colocam como chefia de um setor que não tem ligação com a enfermagem. Isso revolta o pessoal, pois é uma hierarquia imposta aos funcionários. Tudo bem que está dentro do HU, mas não é o cargo dela. O pessoal se rebelou por causa disso. Gostam mesmo dessa frase lá, porque nós vamos até o fim. Isso é pra mostrar a nossa força.

Por que podemos dizer que a greve do HU é histórica, tanto pra USP, quanto pra luta da saúde?

No meu ponto de vista, após a derrota de 1995 se organizou uma ditadura em cima dos funcionários, não tínhamos direito de lutar e de reivindicar, estávamos alienados, presos. Enquanto víamos a universidade lutando, nosso companheiro lutando a cada ano, em greve, não tínhamos esse poder. O pessoal hoje tem outra visão, depois das manifestações do ano passado, contra o aumento da passagem, as visões acabaram se ampliando.
O pessoal percebeu que no HU havia uma ditadura. Por mais que você sente para conversar com a chefia, com o diretor de unidade, é complicado, não existe resposta. Todo mundo é ser humano e tem direito de resposta. Assim que entrei, com 7 meses de HU em uma reunião com a diretora perguntei por que não tinha contratação de funcionários nem reforma no hospital e no meu setor. E deixou bem claro pra todas as diretoras, nutricionistas, técnicas e funcionários que estavam presentes que o setor da nutrição no hospital não é prioridade.

Esperava uma revolta com essa reunião, mas pelo contrario, foi ai que descobri que dentro do HU existe uma ditadura. O “Não tem arrego†na greve, vamos ter que mostrar daqui para frente que vai ter que ter mudanças, sabemos que essa luta vai ser difícil, mas vamos ter que bater de frente e manter a organização dos trabalhadores, o que não tinha antes.

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Muitos companheiros de trabalho diziam que o sindicato não existia mais, que ele já era com os aumentos do Rodas, ele estava dando dinheiro todo o ano. Eu ouvia aquilo e ficava muito chateado, pois mesmo o funcionário ganhando aumento e os pagamentos extras tem direito de reivindicar, mas não reivindicava, achava que o sindicato estava errado. Eu sempre debatia que não era bem assim, e hoje na greve do HU estão abrindo os olhos. Falamos insistentemente para o pessoal que a greve não é do HU, está junto com toda a universidade e com as demais universidades estaduais, a briga é longa e a briga é essa.

A gente tem que manter o pé firme, deixo bem claro para todo mundo, se recuarmos agora, como será o nosso amanha? Não saberemos. Se você está com o pé na lama vai até o final para ver o que vai dar. Ser perdermos vamos poder falar, eu perdi, mas perdi com a cara limpa, eu batalhei pelos meus direitos e dos meus companheiros.

Depois de 19 anos do hospital sendo sucateado, e passando aos poucos para as mãos das fundações privadas, é preciso mudar isso radicalmente, uma vez que somos funcionários desse hospital. O nosso amanha não sabemos como será, será muito complicado, então a hora de lutar é essa.

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