São Paulo

O fundo do poço

23 Jan 2015 | A praticamente um ano a população de São Paulo vem enfrentando racionamento e todos os problemas causados pela crise da água, mas a existência do racionamento era negada terminantemente por Alckmin e todo alto escalão do governo paulista, com frases hipócritas sobre “escassez hídrica†e outras do mesmo gênero.   |   comentários

A praticamente um ano a população de São Paulo vem enfrentando racionamento e todos os problemas causados pela crise da água, mas a existência do racionamento era negada terminantemente por Alckmin e todo alto escalão do governo paulista, com frases hipócritas sobre “escassez hídrica†e outras do mesmo gênero.

A praticamente um ano a população de São Paulo vem enfrentando racionamento e todos os problemas causados pela crise da água, mas a existência do racionamento era negada terminantemente por Alckmin e todo alto escalão do governo paulista, com frases hipócritas sobre “escassez hídrica†e outras do mesmo gênero.

Era época eleitoral e dentro da lógica dos políticos ligados aos interesses dos capitalistas, cuja única perspectiva é sua própria eleição e não o bem estar da população, se justificava a enganação em relação àgravidade do problema como forma de garantir a reeleição.

Já garantido em seu cargo e com o problema se agravando cada vez mais, mesmo que estejamos em época de chuvas, Alckmin teve que admitir o óbvio: em declaração no dia 14/01 reconheceu a existência do racionamento. Foi forçado a isso por decisão judicial que proibia a cobrança de multa dos moradores que consumissem mais água que a média se não houvesse reconhecimento oficial do racionamento.

Também a grande imprensa patronal parece ter acordado de sua letargia e começou a ter uma atitude mais crítica em relação ao governo do estado. Durante todo o ano passado a questão era tratada como um problema natural, causado simplesmente pela falta de chuva, mas depois do período eleitoral e com as evidências cada vez maiores da negligência do governo tucano ficou impossível tentar continuar a tapar o sol com a peneira.

Mas não nos enganemos, essa “sinceridade†repentina que acomete o governador e a imprensa patronal estão mais para lágrimas de crocodilo do que um sentimento real de tentar dialogar com a população em busca de uma resolução concreta do problema; se admitem agora o racionamento, depois de praticamente um ano de sua existência, é porque percebem que o problema atingiu proporções gravíssimas, e tentam de antemão limpar sua cara, como se não fosse o governo tucano, com conivência da imprensa, o grande responsável pelo problema.

Problema natural ou negligência e falta de planejamento?

Desde o começo da crise da água Alckmin e o alto escalão do governo paulista culpam a estiagem, os problemas naturais imprevisíveis, pela falta de água. Não nos deteremos aqui sobre como esses supostos problemas naturais tem também causas sociais, a relação predatória que estabelece o capitalismo com o meio ambiente, a falta de planejamento e a busca desenfreada do lucro, sem levar em conta a reprodução do ecossistema e as necessidades das futuras gerações.

Detenhamo-nos sobre os fatos divulgados pela imprensa durante as últimas semanas que por si só já mostram o quão falaciosos são esses argumentos: desde 2003 técnicos da Sabesp informaram o governador (que era Geraldo Alckmin na época) sobre a possibilidade de escassez de água em São Paulo e da necessidade de que fossem feitos investimentos visando sanar os problemas, relatório reforçado em 2008 (ainda gestão tucana) e nada foi feito.

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo a pesquisadora da Universidade Stanford, na Califórnia, Newsha Ajami, diretora do programa Water in the West, que visa àpesquisa e desenvolvimento de soluções para a crise de água no Oeste dos EUA, declarou: “É, sim, um problema nacional de seca, mas [no Estado] ele é exacerbado pela falta de gerenciamento e de soluções†.

Newsha Ajami na mesma entrevista declarou que uma maneira óbvia de enfrentar o problema em curto prazo seria investir na manutenção do sistema de distribuição de água, extremamente precário e por isso mesmo responsável por um grande volume de desperdício de água potável. A pesquisadora estadunidense declarou ainda ter ficado surpresa ao ficar sabendo que a cidade de São Paulo é cortada por dois grandes rios em meio a escassez e como ninguém teve a ideia de buscar um programa de tratamento das águas desses rios que permitisse sua utilização futura. Quanto a redução da pressão da água como forma de realizar o racionamento (método utilizado pelo governo) a pesquisadora disse ser contraproducente, pois aumenta em muito o risco de contaminação, o que mostra o quão pouco se preocupam com a saúde da população Alckmin e seus funcionários.

Um governo que não toma a medida básica de fazer manutenção ativa no sistema de distribuição de água frente a relatórios que mostravam a possibilidade de escassez ainda tem a cara deslavada de culpar a falta de chuva pela crise; é muita hipocrisia, e pior é querer tratar a nós trabalhadores e o conjunto da população como idiotas.

É necessário que nós trabalhadores demos uma resposta independente àcrise da água

Frente àhipocrisia e incapacidade do governo tucano de dar uma resposta a uma questão tão aguda, que pode causar graves problemas sociais, nós trabalhadores não podemos frechar os olhos e cruzar os braços. É necessário que busquemos uma resposta independente do governo que serve o interesse dos patrões e que já mostrou que não se importa com a saúde e o bem estar do conjunto da população.

É necessário, portanto, que construamos um comitê de frente única com os sindicatos, organizações populares, movimentos sociais (MTST, MPL, etc), associações de bairro, para lutar contra a crise da água e que leve a população às ruas e a esclareça sobre a gravidade da situação e a necessidade da mobilização independente como única forma de dar uma saída de fundo para a questão.

Defendamos também a estatização de todo o sistema hídrico, da coleta, tratamento e distribuição, a começar pela reestatização total da Sabesp, sem indenização e sob controle dos trabalhadores e usuários, com abertura de seus livros contábeis, para que possamos nós trabalhadores gerir a distribuição de água, frente àincompetência já demostrada pelo governo.

Só organizados e com um programa claro e independente nós trabalhadores podemos
dar uma resposta alternativa a do governo tucano que caminha para produzir uma crise que pode ter efeitos sociais catastróficos.

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