Internacional

ENTREVISTA

O ebola e os riscos que o povo brasileiro corre

13 Oct 2014   |   comentários

Gilson Dantas, médico e militante da LER-QI, explica porque o sistema de saúde brasileiro não está preparado para enfrentar uma chegada do vírus ao país.

A seguir entrevistamos Gilson Dantas, médico e militante da LER-QI, que explica porque o sistema de saúde brasileiro não está preparado para enfrentar uma chegada do vírus ao país. No dia 09/10, Souleymane Bah, de 47 anos, foi o primeiro diagnosticado com suspeita de ebola no Brasil. Ele chegou da República da Guiné, na à frica, em 18/09, e ficou hospedado em um alojamento para imigrantes.O Ministério da Saúde informou neste sábado (11) que o exame do paciente suspeito de infecção pelo vírus ebola teve resultado negativo. A confirmação, no entanto, só deve ocorrer após um segundo exame comprovar que o paciente realmente não tem o vírus.

Site Palavra Operária: Qual o risco de uma epidemia ou mesmo de um surto de ebola no Brasil?

Gilson Dantas: De acordo com o Dr. Dráuzio Varella, porta-voz do pensamento médico dominante e vedete da mídia global, não há esse risco. No entanto, muita gente pensa diferente. Se o vírus circular entre nós e, portanto, passarmos a depender do sistema de saúde pública sucateado e precarizado, estaremos em maus lençóis.

Quem pensa assim leva em conta o seguinte: o vírus hoje em dia anda de avião e de barco e o Brasil recebe 16 voos por dia procedentes daquele lado do mundo, e também dois navios por semana. O passageiro suspeito de ebola, que veio da Guiné para o interior do Paraná, dia 18/9, passou pelo aeroporto sem controle. Ficou ao final, quando foi ao hospital no dia 8/10, teve que esperar 4 horas para ser atendido. E já se sabia que na Guiné tem epidemia de ebola.

Pensando em grande escala: caso o ebola consiga chegar ao Brasil, quanto vai ter que esperar cada paciente para ser atendido? Quantas pessoas serão contaminadas antes disso e depois disso se levarmos em conta que o vírus conta com 21 dias para incubação? E observe-se que nos aeroportos brasileiros ainda não há um sistema, como há em outros lados, para medir sequer a temperatura dos passageiros que chegam aqui vindo daquele lado do mundo (o vírus do ebola produz uma febre entre 38 e 39º).

Palavra Operária: Como está equipado nosso sistema de saúde pública frente a essa ameaça e a quantas anda a qualidade nutricional e a imunidade da classe trabalhadora brasileira para enfrentar esse vírus?

Gilson Dantas: Em épocas de crise econômica como agora, uma das primeiras medidas do governo é cortar no orçamento da saúde e da educação, por mais baixos que já sejam. A Organização Mundial de Saúde recomenda que se aplique 5% do PIB em saúde. O Brasil vem na base dos 1,6% na média e não aplica, por vezes, nem a metade do previsto.

Doenças como a tuberculose fizeram 71 mil casos ano passado. Fora malária, dengue, Chagas. E as unidades de saúde vivem superlotadas (igual ao sistema de transporte, meio de transmissão de vírus). Na saúde falta pessoal, faltam equipamentos e a precariedade salarial e de material de atendimento é aquém da crítica. O sucateamento é amplo. Ao mesmo tempo em que os planos de saúde e hospitais privados vivem do lucro, o governo corta “custos†na saúde pública.

E para complicar, os primeiros sintomas do ebola são muito parecidos com o da gripe, tipo febrão, dores no corpo, fraqueza, para mais adiante atacar o aparelho digestivo, com vômitos, diarreia e cólica abdominal. Neste processo, surgem as hemorragias por vezes intensas.

De cada dois pacientes com ebola, um morre. E como já foi dito, o doente de ebola pode passar despercebido no período de 3 a 21 dias, que é o período de incubação após o contágio por fluidos corporais. Período no qual pode eclodir a doença. Uma vez instalada, seis dias é o prazo para saber se o paciente vai sobreviver ou não.

Não há drogas para cura. A sobrevivência do paciente vai depender fundamentalmente do organismo da pessoa, de suas defesas. Pergunta: a quantas anda a qualidade de saúde, de imunidade e o estado de nutrição do brasileiro em épocas onde a maioria das famílias trabalhadoras ganham menos de dois salários mínimos, a precarização do trabalho e do saneamento é notória e as condições de insalubridade ambiental e no trabalho são deploráveis (e até água está faltando)?

A conclusão é clara: podemos ter sorte, mas se depender da patronal capitalista e do governo, o Brasil pode, sim, engrossar a lista dos mais de 4 mil mortos pelo ebola na à frica, por mais que as vedetes da Globo e do ministério da Saúde digam o contrário.

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