Educação

O ato do dia 15 seria um Junho às avessas?

18 Mar 2015   |   comentários

O problema da educação sobre os olhos dos trabalhadores e estudantes

Segue-se debatendo principalmente nas redes sociais se a manifestação do dia 15, composta por centenas de milhares de pessoas, foi um ato de direita, e se isso mudaria ou não a situação nacional para um cenário mais conservador. Realmente, foi um ato composto majoritariamente pela classe média e chamado por partidos como PSDB, para além de ter tido expressões totalmente fascistas como militares - essa escória da humanidade, ainda que uma parcela bastante minoritária - pedindo a volta da ditadura. Marcando sim uma subjetividade geral de um ato de direita,mas o que não quer dizer também que todos os milhares são de direita ou votantes do PSDB.

O ato não marca uma nova situação, mas sim que a insatisfação aberta em Junho não se fechou. Existe uma má canalização da insatisfação nacional, que pode se expressar, como vimos, num ato de direita, mas também pela esquerda, como vimos desde o começo do ano diversas greves e mobilizações estudantis.

Nesse sentido a dita polarização nacional entre PT e PSDB tem muito mais variantes. Na realidade, os dois partidos não conseguem dar uma saída para a crise de regime instaurada e o maior risco, para ambos, é despertarem outras forças sobre as quais ambos possuem poucas condições para conter.

Não por acaso quando estoura a lista do Lava Jato, que aprofunda a crise do regime, os partidos da ordem precisam diminuir a tensão política e rumar ao pacto para garantir uma relativa governabilidade (http://www.palavraoperaria.org/Muito-ajuste-muito-desgaste-politico-e-menos-impeachment), por dois motivos centrais: primeiro passar os cortes e ajustes que é o que unifica a burguesia nacional, e outro, impedir que esses escândalos deem ignição a uma profunda insatisfação popular que culmine em novos atos tipo “junho†.

Ou seja, essa polarização tem o limite da necessidade de os partidos burgueses se unificarem para passar os cortes. O verdadeiro risco para os principais polos do regime burguês, PT e PSDB, é que a insatisfação popular volte a se expressar pelos trabalhadores e a juventude. Aqui, Junho permanece nas greves de professores do Paraná e de SP, garis e diversas outras, na insatisfação popular, na contínua legitimidade dos atos e nas expressões de luta dos jovens por educação.

O ato do dia 15 é seu oposto, ao não ter expressão os temas sociais estruturais do país, que não podem ser resolvidos por dentro desse regime político – e que encabeçaram Junho – não questionaram diretamente a casta política, mas nomearam apenas o governo federal e Dilma, sem levantar as demandas populares. Uma insatisfação da classe média com o aumento do custo de vida que visa questionar o governo Dilma, em primeiro plano, ainda que alguns políticos como Bolsonaro também foram vaiados no ato, mas que de maneira alguma, questiona o sistema de conjunto.

Porque junho foi mais ameaçador?

Dilma em sua declaração pós ato do dia 15, colocou “que as manifestações do fim de semana foram menos traumáticas do que as de junho de 2013†(http://brasil.elpais.com/brasil/2015/03/16/politica/1426543268_907167.html). Essa frase mostra abertamente o caráter de classe do Estado, mesmo com o tamanho das manifestações de domingo (com números inflados pela PM), eles não geram tanto risco ao governo.

Isso porque, junho de 2013 questionou problemas estruturais do Estado capitalista que nenhum partido da ordem conseguiu responder e canalizar: O problema da educação, saúde e transporte levantados, são marcas características e estruturais de um país atrasado onde a maioria da população é obrigada a viver em condições precárias. Ou seja, questionamentos que não só apontavam para uma figura, como Dilma, mas para todo o regime, nesse sentido foi mais ameaçador por incitava um rompimento com a ordem estabelecida.

A juventude nesse sentido tem uma postura preponderante, foi sujeito das manifestações por carregar em si a possibilidade de levantar essas demandas sociais sentidas por todos, além disso, essa juventude não carrega nenhum vínculo sentimental ou político com o petismo, tendendo a um rompimento mais agudo com o governo. Junho, pelas suas pautas sociais e sua característica explosiva de juventude que se inspirou nos processos internacionais, abriu uma nova situação no país dificilmente encaixável nesses “dois lados da polarização†.

Essa força social ligada aos trabalhadores é o que realmente aflige o governo: não esteve no 15M. Não só a juventude, mas também os trabalhadores olharam com olhos desconfiados para a jornada. Se por um lado levantam problemas como a corrupção e o aumento do custo de vida, sentido por todos, por outro, o apoio da TV Globo (rechaçada em Junho) e da mídia oficial, além da convocação do PSDB, PPS e outros partidos de direita, delimitaram o que seria o ato.

Educação, a pedra no sapato de Dilma

O problema da educação segue como um fio de continuidade de junho, sendo a pauta mais profunda e mais dinâmica. Desde o começo do ano a “Pátria educadora†de Dilma vem sendo ironizada pela realidade, com os cortes bilionários do governo federal no setor, com a crise no FIES, e nas Universidades públicas, além das greves de professores, como do Paraná, que girou a pauta nacional.

Isso porque os jovens que viveram a década petista se formaram com novas ambições de entrar numa Universidade e ter uma ascensão de vida. O problema é que esse Brasil propagandeado pelo governo não existe mais, a situação econômica com a diminuição de importações para a China, a desvalorização do real e a saída de capitais, mostra um país em crise. Esse choque de aspirações com uma realidade de crise gera um descontentamento profundo, e a educação que deveria ser um direito básico, e também é a principal forma de ascensão para os jovens, é a primeira pauta a ser sentida.

Tanto que Dilma teve que reconhecer erros no FIES, após milhares de estudantes correrem o risco de perderem suas bolsas e gerar um descontentamento generalizado, Dilma declarou "Vou te dizer onde. No FIES. O Governo cometeu um erro, porque passou para o setor privado o controle dos cursos†. Com um discurso enviesado, pressionada pelos estudantes por um lado, e pelos empresários que querem manter seus lucros seguros por outro, o governo teve que ceder nos cortes ao projeto e aceitar manter o FIES para as instituições de ensino privado que reajustaram suas mensalidades acima de 6%.

Isso depois de terem ocorridos diversos atos nas Universidades privadas contra os cortes do governo. Sabendo que a grande maioria da juventude que cursa faculdade está nas instituições privadas e que programas como o PROUNI e FIES eram os cartões postais do governo para falar de democratização da educação. Dilma busca não afastar a juventude da base de apoio – ainda que desconfiada e passiva – do governo, ou ao menos não deixar que a oposição capitalize esta insatisfação.

O problema da educação sobre os olhos dos trabalhadores e estudantes

O dia 26 pode ser um primeiro ensaio desde as assembleias de base e organização nas escolas e universidades, da juventude a partir da sua luta por educação começar a propor e a ser sujeito de levantar um programa que dialogue com a população e mostre que a saída não é nem com as marchas como do dia 15, nem mantendo o governo do PT, pai dos empresários e articulador dos cortes, mas sim com a luta dos dos trabalhadores e juventude aprofundando a crise

A questão é que essas medidas só aprofundam a crise, enviando mais dinheiro público para manter os tubarões do ensino, enquanto mantém os cortes das universidade públicas. O dia 26 deste mês será um dia de mobilização nacional pela educação, e é também o momento dos jovens confluírem com os trabalhadores e professores, como no estado de São Paulo que estão em greve, e levantarem uma pauta que possa responder àesquerda a esse descontentamento social.

Nem com a Dilma nem com a direita a demanda social por educação pode ser uma faísca para a organização dos estudantes, jovens e trabalhadores. Para conseguir colocar um outro projeto de sociedade é preciso levantar a bandeira da estatização das universidade privadas que já são bancadas por dinheiro público, garantindo educação pública para todos que queiram e precisam. O dinheiro público deve vir para garantir as demandas da população e não para privilegiar políticos. A luta por educação deve também avançar para questionar essa democracia dos ricos e da corrupção, e assim lutar para acabar com essa casta de políticos privilegiados, instaurando uma câmara única de executivo e legislativo, onde cada político ganhe o mesmo que um professor.

O dia 26 deve ser um primeiro ensaio da juventude, em assembleias de base em seus locais de estudo, da luta por educação, em que se mostra a necessidade de se levantar um programa que dialogue com a população e mostre que a saída não é nem com as marchas do dia 15, nem com a manutenção do governo do PT - que é pai dos empresários e articulador dos cortes -, mas que é preciso uma saída independente dos trabalhadores e da juventude, aprofundando a crise no regime mostrando que é possível uma saída independente que aponte para a construção de uma nova sociedade sem privilégios de poucos e sem exploração de muitos.

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