Internacional

Nova onda de resistência dos estudantes da Califórnia

27 Nov 2014   |   comentários

Uma dura série de incrementos no valor das mensalidades propostas pela Universidade da Califórnia incendiou o ressurgimento de um massivo e radicalizado movimento estudantil na Califórnia. O aumento no valor das faturas universitárias foi proposta pelo reitorado do sistema das UCs (Universidades da Califórnia, espalhadas em várias cidades) e pelo antigo chefe do Departamento de Segurança Nacional, Janet (...)

Uma dura série de incrementos no valor das mensalidades propostas pela Universidade da Califórnia incendiou o ressurgimento de um massivo e radicalizado movimento estudantil na Califórnia. O aumento no valor das faturas universitárias foi proposta pelo reitorado do sistema das UCs (Universidades da Califórnia, espalhadas em várias cidades) e pelo antigo chefe do Departamento de Segurança Nacional, Janet Napolitano. Os reitores das UCs, os oficiais apontados antidemocraticamente que controlam a maior e mais prestigiada rede de universidades da Califórnia, votaram a implementação de um aumento de 27,6% nas mensalidades nos próximos 5 anos.

O aumento das mensalidades incrementa o preço para os estudantes californianos de US$3,000 para US$15,560, e para os alunos de outros estados, os preços vão de US$10,000 para US$44,756. Enquanto os estudantes californianos tem uma parte deste fardo amenizado por ajudas financeiras, está longe de cobrir suficientemente os aumentos nos preços. Também encorajou a universidade a aceitar mais alunos internacionais e de outros estados. Coloca a Universidade, desde já uma instituição de elite, ainda mais fora do alcance de estudantes provenientes de famílias operárias.

Os estudantes responderam imediatamente, mobilizando centenas na tentativa de implodir o encontro de Reitores em São Francisco em que foi votada a proposta de aumento de tarifas. A polícia respondeu com agressões violentas contra os estudantes nas barricadas. Eles prenderam um estudante de 21 anos, Jeff Noven, que agora se depara com acusações de vandalismo e “incitamento de desordem†.

Depois que o aumento nas mensalidades foi aprovado, os estudantes levaram a luta para os seus próprios campi. Na UC Berkeley, um centro histórico do movimento estudantil norteamericano, centenas de estudantes se reuniram e iniciaram uma ocupação por tempo indeterminado de um dos principais prédios do campus, Wheeler Hall. Os estudantes apresentaram a seguinte série de demandas:

1) Nenhum aumento das mensalidades;
2) Total transparência no orçamento das UCs;
3) Abaixo todas as acusações contra Jeff Noven

No dia seguinte, na UC Santa Cruz centenas de estudantes se reuniram e se lançaram a ocupar seu prédio. A UC Santa Cruz foi o epicentro de um radicalizado movimento estudantil em 2009-2010 que lançou a consigna “´Occupy Everything†[Ocupar tudo], algo que serviria de inspiração ao movimento Occupy nacional. Bandeiras vermelhas apareciam das janelas do prédio ocupado, uma festa realizada, com a placa do Reitor sendo substituída por uma com a inscrição “comunismo total†. Um comunicado da ocupação dizia que:

“Os diretores passaram seu aumento de mensalidades, mas esta guerra não acabou. Estamos convocando nossos aliados para que esta mobilização cresça: mais ocupações certamente se seguirão a esta (não sabemos quem as planeja!), e mais greves, mais reuniões institucionais interrompidas, mais barricadas, mais estudantes e aliados nas ruas. Não para que retornemos ao passado, mas para construirmos um novo futuro.

Os estudantes, longe de limitar suas ações aos interesses corporativos estudantis, também estabeleceram claros vínculos entre sua luta e os conflitos ao redor dos Estados Unidos. Ligações entre a violência policial contra os estudantes e a muito mais brutal violência estatal contra as comunidades negras. Num comunicado separado, esta ligação ficava explícita:

Alguns companheiros perguntaram como a repressão no Missouri está conectada com a austeridade na Califórnia. Para nós, não há dúvida: a conexão é nossa luta. Assim como os insurgentes em Ferguson bloqueiam o tráfego antecipando o veredito, aquelas ações ressoam. Seus ecos podem ser ouvidos através dos corredores dessa universidade vampiresca, na medida em que os estudantes de comunidades pobres e marginalizadas põem o corpo para dizer que não, não deixaremos que drenem a última gota de nosso sangue. Recusamos permitir que executivos corruptos se presenteiem com aumentos salariais enquanto destroem o futuro de toda uma geração. Nos recusamos a permitir que a polícia racista mate mais uma pessoa. Nos recusamos a permitir que a violência estatal nos previna de recuperarmos nossos prédios e nossas ruas.

O ressurgimento de um movimento estudantil radicalizado através da Califórnia e especificamente no centro político histórico da Bay Area (casa dos Panteras Negras e do Movimento Liberdade de Opinião de Berkeley) é mais uma expressão de que a paisagem política dos Estados Unidos está mudando fundamentalmente. A primeira erupção da resistência estudantil da Califórnia em 2009-2010, que criou uma nova geração de militantes estudantis, não foi um acidente. Foi, como aqueles que participamos nela acreditamos, um dos principais fenômenos de um abalo tectônico na política americana. Com os resultados da crise financeira de 2008-2009, nada ficou como antes, e não haverá retorno fácil ànormalidade para a burguesia norteamericana.

O descontentamento de massas que o Occupy representou (especialmente em suas expressões mais radicais e mais ligadas àclasse trabalhadora, na Bay Area) pode ter sido sufocado em meio á repressão. Mas as contradições fundamentais que o produziram permanecem de pé e se intensificam. Uma nova geração está começando a tomar para si ideias radicais e crescentemente recorre àação direta. Das ruas de Ferguson aos corredores do Wal-Mart os trabalhadores e os oprimidos se sintonizam nestes dois aspectos: adotando idéias radicais e se comprometendo com a ação direta. Uma segunda onda de resistência estudantil na Califórnia é um acréscimo benéfico e indubitavelmente contribuirá para o surgimento de uma nova geração de militantes revolucionários na luta pela emancipação dos oprimidos.

Artigos relacionados: Internacional









  • Não há comentários para este artigo