Quinta 18 de Julho de 2019

Direitos Humanos

VIOLÊNCIA

Não podemos nos calar diante do assassinato de Camille: basta de violência contra as lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais em Campinas!

27 Jul 2010   |   comentários

No dia 10 de julho, Jhonatan, de 17 anos e homossexual, foi agredido com uma garrafada na cabeça, por um garçom do Bar "Camp Chopp", que se localiza na Praça Bento Quirino, tradicional local de encontro LGBTT, por estar trocando demonstrações de carinho com seu parceiro dentro do bar, que tem fama de discriminar homossexuais. Esses casos de violência contra homossexuais e travestis não são casos isolados e ocorrem freqüentemente. Neste último sábado, dia 24 de julho, ocorreu mais uma demonstração brutal de violência contra uma travesti na cidade de Campinas, desta vez, contra uma ativista do grupo Identidade do movimento LGBTT. Camille (foto) foi encontrada pela polícia de calcinha com o corpo desfigurado de agressões àpaulada por volta das 21h, quando estava sendo jogada por um homem, Roberto Rubens de Macedo – que alega legítima defesa - em uma valeta próxima da linha do trem de Campinas. Ela foi levada para o Hospital Municipal Mário Gatti como indigente, até que foi reconhecida por uma funcionária do hospital que informou os conhecidos da vítima sobre o ocorrido. Camille entrou em processo de morte cerebral e acabou por falecer na terça-feira.

A homossexualidade é considerada uma afronta ao padrão "normal" de sexualidade, ligado diretamente àreprodução, aonde as mulheres tem como papel central a maternidade, sendo as trabalhadoras vítimas da dupla jornada de trabalho, para que se encarreguem das tarefas domésticas e os cuidados com a família necessários para a reprodução social da força de trabalho super-explorada pelos capitalistas. Por isso a homofobia e o machismo são formas de opressão fundamentais para o modo de produção capitalista e a sociedade dividida em classes. O Estado legitima a violência contra as mulheres e homossexuais quando nos negam o direito de decidirmos sobre nossos próprios corpos e vidas, criminalizando o aborto e o casamento homossexual, direitos democráticos elementares. E para este controle de nossas vidas e nossa sexualidade a mídia burguesa reproduz um modo de vida que tem como base a unidade familiar patriarcal, aonde as mulheres são retratadas como escravas do lar ou objetos sexuais, tendo seus corpos mercantilizados a serem consumidos pelos homens, e qualquer indivíduo que recuse a exercer um desses papéis está passível a ser discriminado ou violentado. Repudiamos a forma nefasta que o jornal "Já" de Campinas noticiou a agressão contra Camille no dia 26 de julho, com o título "Convite para aquilo acaba em pancada", carregado de ironia e preconceito, desrespeitando a identidade de Camile, nomeando-a enquanto um "homem", dando destaque para a defesa do agressor "porque não aceitou o programa sexual" e margem para a interpretação de que isso justificasse a atitude de agressão.

O Estado conta com a polícia que na maioria das vezes recusa socorro as vítimas, e tem como prática comum, agressões verbais e físicas, assassinatos e estupros de mulheres, negros e homossexuais. Segundo a Folha de São Paulo, em Campinas, os policiais estão entre os principais agressores de LGBTT´s. Sem falar no papel reacionário da Igreja, que pune o livre exercício da sexualidade pregando a homofobia, é conivente com a morte de milhares de mulheres por abortos clandestinos e ainda comete crimes absurdos de pedofilia que justificam como "desvios homossexuais" de alguns representantes clericais para classificá-los como "doentes". Por isso exigimos a revogação imediata do Acordo Brasil-Vaticano assinado por Lula que dá mais privilégios àIgreja e legitima esta violência!

A cidade de Campinas tem um histórico de luta do movimento operário e atuação política de grupos de esquerda, movimento LGBTT, movimento de mulheres e direitos humanos, mas em contrapartida, a atuação reacionária da Igreja contra os direitos das mulheres e LGBTT´s se mostra cada vez mais ofensiva. Em outubro de 2009, o arcebispo de Olinda, "que afirmou o aborto ser um crime pior que o estupro" esteve em Campinas para participar do 4º Encontro de Bioética da Igreja Católica, organizado pela Comunidade Católica Pantrokator, e cujo um dos objetivos era impulsionar um movimento contra a descriminalização do aborto e contra o casamento homossexual. Nós, do grupo Pão e Rosas realizamos um importante ato junto ao CACH (Centro Acadêmico de Ciências Humanas da Unicamp), universitária(o)s, secundaristas e trabalhadora(e)s da educação e telemarketing, em defesa da vida de mulheres pobres e trabalhadoras que sofrem com a clandestinidade do aborto e pelo livre exercício da sexualidade. Há duas semanas, um grupo de católicos fazia campanha contra o direito ao aborto na praça da Igreja Matriz de Campinas recolhendo assinaturas. Somado àisso, em Campinas, é marcante a presença de grupos de extrema-direita fascistas, com histórico de agressão a homossexuais e travestis. Na comunidade criada no Orkut em homenagem àCamille e nos perfis de várias drags e ativistas do movimento LGBTT de Campinas, foi postada a mensagem: "Eu adoro matar travestis como vocês!". Não podemos permitir que os últimos acontecimentos de violência motivem a reorganização desses grupos!

Ano passado nós do grupo de mulheres Pão e Rosas gritamos "Somos todas Marcelo Campos" ao denunciar o assassinato do jovem trabalhador Marcelo Campos, gay e negro, morto por um grupo de extrema direita, e hoje não podemos nos calar diante do assassinato de Camille. Sabemos que nas universidades, locais de estudos, trabalho e lazer, são reproduzidas cotidianamente violência e discriminação contra mulheres, negros e homossexuais, e a única maneira de lutarmos contra toda forma de opressão e exploração é através da auto-organização desses setores de maneira independente do Estado, patrões, governos e da Igreja, para podermos arrancar nossos direitos democráticos e mais elementares!

Chamamos a todos os grupos LGBTT´s, de mulheres, direitos humanos, entidades estudantis, grêmios secundaristas, sindicatos e organizações de esquerda a impulsionarmos uma forte campanha contra a violência contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais, atividades e debates sobre a opressão no locais de trabalho e estudo, e a construirmos um grande ato na cidade!


- Punição aos assassinos de Camille!

- Basta de discriminação e violência contra gays, lésbicas, travestis e transexuais nas universidades, locais de trabalho e lazer!! Pelo direito ao livre exercício de nossa sexualidade!

- Abaixo a violência policial contra a juventude negra e homossexual!
Pela revogação do acordo Brasil e Vaticano! Basta de perseguição da igreja e do vaticano aos homossexuais.

- Contra o Ensino religioso nas escolas! Precisamos de uma educação sexual obrigatória em todos os níveis da educação básica respeitando a diversidade sexual!

- Pelo direito ao livre exercício da sexualidade! Contra a homofobia!

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