Questão negra

BASTA DE VIOLÊNCIA POLICIAL CONTRA OS NEGROS E POBRES

Não deixemos o assassinato de Cláudia Silva ficar impune

19 Mar 2014   |   comentários

No domingo 16/03 a polícia militar do Rio de Janeiro assassinou brutalmente Claudia Silva Ferreira. Cláudia era uma trabalhadora, negra, terceirizada, auxiliar de serviços gerais, mãe de 4 filhos, moradora de favela Congonha. Claudia saiu para ir àpadaria e levou dois tiros, segundo a família tiros efetuados pela polícia, e depois foi colocada no camburão. Os PMs realizaram um caminho para o hospital mais longo e desnecessário, e para completar arrastaram seu corpo por mais de 350 metros, chegando obviamente, morta no hospital.

Prestamos nossas condolências e solidariedade a toda a família e amigos de Claudia, assim como aos moradores da favela Congonha neste momento de profunda tristeza, que esperamos também motive a luta ampla e democrática contra a recorrente violência policial contra os trabalhadores, os pobres e os negros no Rio de Janeiro e no país.

Na verdade, Claudia, assim como todos os negros e pobres desta “cidade maravilhosa†são considerados “bandidos†e “delinquentes†. O governador Cabral já disse que as mulheres negras das favelas deveriam ter direito ao aborto pois assim nasceriam menos bandidos. Agora, na greve dos garis, o prefeito Paes qualificou esses trabalhadores em greve como “bandidos†, “criminosos†, “delinquentes†. Se governador e prefeito tratam os trabalhadores negros desta maneira, a PM – que é treinada para matar “inimigos†– não poderia tratá-los diferente. Basta ser negro, nem precisa ser pobre, como vimos com o artista da Globo, para ser visto como alvo de prisões ilegais, escolacho, tortura e morte.

Sua família e os moradores da favela Congonha em Madureira não deixaram seu assassinato passar impune e organizaram no próprio domingo e na segunda-feira manifestações. Na manifestação cantavam “chega de hipocrisia, a polícia mata pobre todo dia†e exigiam justiça.

Frente às manifestações e às escandalosas imagens do corpo de Cláudia sendo arrastada a polícia se apressou em deter provisoriamente os 3 policiais envolvidos. O governador Cabral, o secretário de Segurança Beltrame e até a presidente Dilma pronunciaram suas condolências. Não nos enganamos, são manifestações falsas, já que eles são os responsáveis políticos pela violência policial e a impunidade dos PMs criminosos.

Prova disso, Cabral e Beltrame também já declararam e emitiram, pela polícia civil, “laudo relâmpago†de que o corpo de Cláudia ter sido arrastado não teve nada a ver com sua morte, e insistem, contra as opiniões dos moradores e da família, que os tiros foram de “bala perdida†e não da polícia. O governo do Rio prendeu os policiais por que não “resgataram-na adequadamente†, “por tratamento desumano†e não por seus crimes de tortura e assassinato!

Não estão investigando, nem investigarão a origem dos tiros. E mais, com este laudo relâmpago que livra de sua causa mortis a tortura a que ela foi submetida fazem um favor a estes policiais e àimpunidade de todos policiais. Os PMs matam, torturam e escolacham porque têm o privilégio absurdo de ser investigado pela própria polícia, com Inquéritos Policiais Militares que são feitos na medida para impedir a punição. Os crimes do Massacre do Carandiru, depois de 22 anos, ainda estão impunes e julgamentos são adiados. Abaixo os IPMs! Abaixo os Tribunais Militares! Que os crimes dos PMs sejam julgados como qualquer cidadão, por júris populares!

Frente àcontínua impunidade é necessário organizar uma grande campanha das entidades do movimento negro, sindicatos, organizações de direitos humanos, organizações populares, centros acadêmicos e outras organizações devem constituir uma Comissão Independente de Investigação que realmente leve àverdade que permita a punição exemplar desses policiais assassinos.

Todo camburão tem um pouco de navio negreiro! Cláudia é mais uma prova desta verdade construída a séculos neste país herdeiro da mais brutal escravidão. A atuação de todos aqueles que se reivindicam de esquerda e do movimento negro deve partir desta assassina realidade. Chamamos o Quilombo Raça e Classe, filiado àcentral sindical CSP-Conlutas a debater no Encontro Nacional de Negros e Negras que realizará neste final de semana, em São Paulo, a votar esta campanha de solidariedade, pela investigação independente e punição dos crimes desta PM assassina.

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