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Muito espaço fora do PT, mas muito petismo no PSOL

14 Oct 2014   |   comentários

O PSOL não usou o espaço midiático para desenvolver as demandas democráticas de junho em um sentido militante: sequer chamando a qualquer nível de organização e ação nas eleições ou depois sobre qualquer dos temas que levou às TVs, fosse LGBT, aborto, drogas.

O PSOL conseguiu duplicar sua votação nacional, alcançando ainda muito marginais 1,55% dos votos válidos. Com este resultado, duplicou suas bancadas de deputados estaduais e federais. Sua votação, muito pequena comparada com as possibilidades abertas pelas jornadas de junho e pela onda de greves, deixou o PSTU e outros competidores nacionais, com resultados irrisórios, muito atrás.

Este resultado expressa muito mais o potencial da situação nacional do que a política levantada por este partido. O PSOL não usou o espaço midiático para desenvolver as demandas democráticas de junho em um sentido militante: sequer chamando a qualquer nível de organização e ação nas eleições ou depois sobre qualquer dos temas que levou às TVs, fosse LGBT, aborto, drogas.

E, como se demonstra agora no segundo turno presidencial, abandona todo o discurso de “não ser linha auxiliar do PT†e opta pelo “mal menor†de Dilma, como sua resolução nacional permite e todos parlamentares estão ativamente fazendo. Seu voto sequer se dá o trabalho de alertar que qualquer um dos vencedores tem um plano de ajustes a descarregar sobre as costas da classe trabalhadora.

Uma votação importante na juventude metropolitana apesar de sua política

A votação de Luciana Genro e do PSOL em vários dos centros metropolitanos do país se baseou, principalmente, nos votos da juventude. A juventude se sentiu atraída por alguns temas tratados por sua candidatura como legalização das drogas e os LGBT, entre outros.

Isso mostrou a importância das demandas democráticas mais elementares em um país onde todas as forças políticas burguesas mantem negócios políticos com setores obscurantistas e pelas alianças reacionárias que dominam o sistema político.

Porém o PSOL e Luciana Genro não buscaram se apoiar neste sentimento para a partir do espaço midiático conquistado buscar fortalecer uma organização e mobilização pelos mesmo direitos. Como também suas constantes referências a junho não levavam a erguer um programa e organização relacionadas àimportante pauta do transporte público. Nunca fizeram um questionamento a privatização que este setor sofreu no país todo, e que sem sua estatização sob controle dos trabalhadores é impossível garantirmos um transporte de qualidade aos usuários e trabalho decente aos motoristas, cobradores e outros trabalhadores.

Para ser consequente com esse sentimento que o PSOL atraiu, não basta defendê-lo no plano político eleitoral. Agora os parlamentares e o peso superestrutural conquistados pelo PSOL devem ser exigidos para fortalecer a organização da luta dos movimentos LGBTs, feministas e da juventude pelos direitos civis e contra a ingerência do Estado e das religiões nas questões de foro privado. Os militantes do PSOL e ativistas que simpatizam com o PSOL estão chamados a tomar iniciativas para organizar processos unitários de mobilização, nos locais de trabalho e estudo em defesa desses direitos democráticos e demandas amplamente difundidas a partir das manifestações de Junho.

Como expressar o “novo†sem a luta dos trabalhadores e votando em Dilma?

Luciana Genro e o PSOL captaram a atenção de um setor da juventude e, mais minoritário, de trabalhadores que está fazendo experiência com o PT. Porém, no marco desta experiência, as ausências e os claros limites de falta de independência de classe do PSOL impedem um verdadeiro desenvolvimento para expressar junho e o que há de mais “novo†na situação nacional.

Em toda a campanha não houve uma crítica à“casta†política do país, não contribuindo para desenvolver em um sentido anticapitalista a raiva que parcelas importante da juventude e dos trabalhadores estão de “todo o sistema†e que se traduziram no aumento da não-votação, nulos e brancos.

Em toda a campanha também não houve menção as greves que sacudiram os centros urbanos este ano. A experiência da classe trabalhadora com o PT se dará por questões da corrupção estrutural a este regime, por questões democráticas, mas antes de mais nada re-aprendendo a confiar em suas forças com greves, manifestações, piquetes, passando por cima das burocracias sindicais ligadas ao governo e os patrões. E no sentido de erguer esta consciência, lhe dar forma militante e política nas eleições, a campanha do PSOL foi completamente ausente.

Esta ausência da classe trabalhadora é acompanhada de um problema mais grave. Sua falta de independência de todas as variantes dos partidos dos empresários e da elite. Esta falta de independência se dá em três níveis: financeiro, organizativo e político.

Luciana Genro teve uma campanha maculada pelo recebimento de dinheiro de uma empresa gigante do ramo de supermercados, a Zaffari. Isto não é uma novidade tratando dela e sua corrente (MES), que já haviam sido financiados pela Taurus de armas e pela gigante Gerdau da siderurgia.

Organizativamente, uma outra ala do partido tem dados passos acelerados em se tornar parte do regime político do país. Randolfe Rodrigues, que havia abraçado Dilma em meio aos protestos de junho, esteve aliado ao PSB de Marina (indicando o vice-governador) em seu estado, o Amapá. Esta falta de independência é agora continuada pelo voto em Dilma que todos os parlamentares do PSOL estão fazendo. E fazem um voto que não denuncia nada. São adesistas sem coragem de dizê-lo. No fim das contas mostram-se linha-auxiliar sim.

Para desenvolver o novo é necessário uma nova esquerda revolucionária dos trabalhadores

Para desenvolver o que há de novo na situação nacional é necessária total independência de todas as alas dos partidos dominantes, sejam eles o PSDB de Aécio ou o PT de Dilma. O mínimo para isto é também não ser financiado por exploradores. Sem isto não há como ajudar os trabalhadores e a juventude a não cair no engodo das diferentes alas da elite que se enfrentam nas eleições, mas se unificam para atacar nossos direitos e salários. Em “junho†as manifestações se dirigiam contra os mesmos PT e PSDB, que se unificavam em reprimir as manifestações. Nas greves também se unificaram em atacá-las. Amanhã, para nos atacar estarão novamente juntos.

Para que os trabalhadores e a juventude façam sua experiência com o PT e ergam um grande partido revolucionário dos trabalhadores é necessário começar a erguer uma nova esquerda revolucionária dos trabalhadores que esteja a serviço de construir este partido. Seu primeiro passo é a independência de classe em todos os níveis e aprender com a experiência do PT para superá-lo. Para isto, esta esquerda revolucionária precisara superar as continuidades com o petismo do PSOL e da “esquerda tradicional†brasileira.

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