Nacional

Lendo nas entrelinhas dos grandes jornais

Muito “ajuste†, muito desgaste político e menos impeachment

09 Mar 2015 | Finalmente saiu a tão esperada “lista Janot†. A partir das denúncias de Youssef e Costa o partido que mais foi atingido foi o PP, um dos herdeiros do partido ARENA que era apoiador da ditadura. As figuras atingidas do PT, PMDB, e PSDB adotaram todas, com poucas exceções, o silêncio.   |   comentários

Finalmente saiu a tão esperada “lista Janot†. A partir das denúncias de Youssef e Costa o partido que mais foi atingido foi o PP, um dos herdeiros do partido ARENA que era apoiador da ditadura. As figuras atingidas do PT, PMDB, e PSDB adotaram todas, com poucas exceções, o silêncio.

Finalmente saiu a tão esperada “lista Janot†. A partir das denúncias de Youssef e Costa o partido que mais foi atingido foi o PP, um dos herdeiros do partido ARENA que era apoiador da ditadura. As figuras atingidas do PT, PMDB, e PSDB adotaram todas, com poucas exceções, o silêncio. A exceção a esta regra está nos mais altos cargos que foram atingidos nas denúncias, Renan Calheiros do PMDB, presidente do Senado, e Eduardo Cunha, também do PMDB, presidente da Câmara, sucessor presidencial depois do vice-presidente Michel Temer.

A despeito de ser uma primeira lista que dá uma ideia apenas reduzida do número de envolvidos no Lava Jato, é evidente que todos os principais partidos do regime político brasileiro estão metidos no desvio de verbas da Petrobrás: na primeira lista de Janot figuram 22 deputados em exercício, 12 senadores e 14 ex-deputados. Entre eles, cinco ex-ministros, vários ex-governadores e até o ex-presidente da República Fernando Collor de Mello. O PSDB, por ora, só tem um, mas importante: o senador Antônio Anastasia, ex-governador do Estado de Minas Gerais e personagem muito próximo de Aécio Neves, presidente desse partido e o candidato que disputou a presidência com Dilma em 2014.

Ao olhar somente as declarações de ambos os presidentes das casas parlamentares poderíamos exagerar as tendências a uma crise aberta. Porém há muitos sinais de que, em meio àpreocupação dos políticos oficialistas e opositores acerca da grande crise de representatividade e a crescente descrença da população nos corruptos partidos do regime político burguês, que aumentará com a Lava Jato, rumamos para um equilíbrio, bastante precário e instável, cheio de denúncias, novos implicados, alguns sacrificados, um pouco de pizza, mas onde as tendências a união para os ajustes contra a classe trabalhadora tendem a prevalecer ao “salve-se quem puder†.

As vozes da grande mídia, importante como são, apontam a maior moderação do que os brados no púlpito parlamentar.

A própria oposição do PSDB, com envolvidos no esquema de corrupção, não pressiona tanto pela “campanha impeachment†e pelo crescimento das polarizações, mas “vai ao centro†, pactuando para garantir certa governabilidade. “É melhor ver esse Governo sangrar até o último dia de seu mandato do que derrubá-lo dessa maneira, que nem sempre parece ser tão legítima†, diz um deputado tucano, preferindo o desgaste do PT pela Lava Jato, e não pelo impeachment.

Eduardo Cunha está esbravejando em diferentes declarações àmídia como o governo Dilma, ou simplesmente alguém no “executivo†, estaria sendo um aloprado e teria colocado ele na lista Janot, sem provas ele alega, para colocar em xeque sua postura independente do governo. Setores da mídia, sem ataca-lo diretamente estão fornecendo argumentos para enfraquece-lo. O jornal Zero Hora de Porto Alegre dedicou seu editorial de sábado intitulado “Mais que nomes†para destacar como os acusados devem ser afastados das presidências e de participação na CPI. O Globo deste domingo, do estado do eleitorado de Cunha, faz novas denúncias contra Cunha e busca mostrar como seus aliados parlamentares fizeram lobby contra empresas que estavam atrasando as propinas.

Renan Calheiros, tido até poucos meses atrás como fiel escudeiro do Planalto, e que serviria de escudo para Dilma, contendo o “independente†Cunha, não tem ficado muito atrás do correligionária da outra casa. Suas declarações apontam para criar uma CPI do Ministério Público e junto a Cunha está buscando marcar terreno como se as acusações a este velho acusado de corrupção em mil e um escândalos fossem infundadas e “meramente políticas†. A agressividade de ambos, seguindo o ditado popular, parece indicar que por trás desta fumaça há fogo. Ambos, com mil conexões, influentes na política nacional, podem ser fatores complicadores na política.

De outros atores também pode-se esperar novidades e tendências àinstabilidade. Porém, como dissemos, o que parece se fortalecer é a tendência a buscar acordos, negociações. As idas e vindas das declarações de FHC na mídia sobre costurar um acordo com o PT pela governabilidade são uma indicação, ainda não consumada, desta tendência a acordos. No outro lado espectro político dos embates tucano-petistas, a Carta Capital, revista que tende a uma linha “petista crítica†, dedica seu editorial a desaconselhar o governo Dilma a pactos. Ou seja, há claras pressões nos dois “campos†que pautam a política nacional. A mídia, sempre opositora, não esta alheia a estas pressões e seus editoriais reforçam o caminho dos pactos.

Os editorias dos três maiores jornais do país hoje reforçam esta análise. O Globo e a Folha de São Paulo dedicaram seus editoriais a incentivar e aprofundar os “ajustes†e, portanto, atacar os direitos e condições de vida da classe trabalhadora. O jornal carioca dedicou-se a argumentar a favor de maiores ajustes nos estados e municípios para acompanhar o ajuste federal, e assim, reza o credo neoliberal, criar condições para o crescimento futuro. A Folha de São Paulo argumentou em seu editorial “Ajuste, mas não só†, a favor de reformas mais estruturais que poderiam ser negociadas com o Congresso e assim pavimentar maior apoio aos ajustes. Tudo isto em meio a muitas críticas ao governo Dilma.

O Estado de São Paulo, que imprime três editoriais no Domingo, dedicou dois deles àpolítica nacional (o terceiro é sobre Crack e São Paulo). Em um deles, intitulado “Dilma pode agir sem o Congresso†, reconhecem as dificuldades para aprovação no Congresso de algumas medidas do ajuste e aconselham o governo a contingenciar gastos e tomar outras medidas que não dependeriam do parlamento. Este editorial mostra, mais uma vez, como o “Estadão†é um falso paladino da liberdade e da democracia. Quando trata-se de atacar direitos sociais e demitir não precisa de democracia. Dinheiro primeiro...

Se a situação política nacional tendesse ao “apocalipse†que alguns petistas e cutistas alardeiam nas redes sociais e alguns locais de trabalho havíamos de esperar editoriais mais “impeachmistas†destes grandes meios, reconhecidamente opositores a Dilma. O terceiro editorial do Estadão mata a charada. Intitulado “Confusão é tudo o que Lula quer†, ele discorre como não é correto levantar a reivindicação de impeachment hoje. Argumenta como esta consigna “pode ser politicamente tentadora†porém “será certamente inoportuna†. Por quê? Porque do outro lado Lula e o MST prometem ir para a porrada, argumenta o jornal, e esta radicalização será prejudicial. E que defender impeachment favoreceria o “lulopetismo†por esta mesma lógica.

Naturalmente, Lula e o PT estão completamente integrados ao regime e não se interessam pela instabilidade. A única força que pode golpear o tabuleiro desse esquema de corrupção é a classe trabalhadora, cada vez mais descontente com seu antigo referencial político, o PT.

Os partidos do governo e da base aliada, até mesmo da oposição, cheios de privilégios, se unificam pelos ajustes contra o povo enquanto desviam bilhões da Petrobrás. Estes parlamentares, deputados e senadores, se alinham contra os aumentos salariais dos trabalhadores, como dos professores da rede pública do Paraná e de vários estados. Todos deveriam receber o mesmo salário, igual ao de uma professora (considerando o aumento do salário docente ao estipulado pelo DIEESE), sendo revogados todos os seus privilégios e salários de representação, inclusive seus cargos, revogáveis imediatamente segundo a vontade de quem votou. Não podem continuar sendo "senhores" dos recursos nacionais.

A orientação que os três jornalões indicam àburguesia é bastante clara. Sangrar, desgastar, fazer muita política contra Dilma e o PT nos escândalos mas sem passar ao impeachment. Trabalhar dentro deste equilíbrio precário da situação política. Mas sem despertar forças que podem levar a maior desestabilização, ainda mais porque os reais e mais importantes interesses empresariais estão em jogo em outro terreno, o dos ajustes e das reformas, e neste terreno petistas e tucanos tem muito mais a negociar e acordar.

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