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Mesa sobre opressões na UFMG, organizada pelo D.A. da Fafich na calourada de 2014

22 Feb 2014   |   comentários

A mesa foi composta por diversos movimentos sociais de mulheres e negros, pela professora e coordenadora do Nepem, Marlise Matos. A seguir, leia na íntegra a fala de Flávia Vale, uma das convidadas para o debate, do grupo de mulheres Pão e Rosas.

A mesa foi composta por diversos movimentos sociais de mulheres e negros e também pela professora Marlise Matos, coordenadora do NEPEM. A seguir, leia na íntegra a fala de Flávia Vale, uma das convidadas para a mesa, do grupo de mulheres Pão e Rosas.

A chegada de Dilma ao poder foi reivindicada como uma conquista das mulheres por muitos movimentos feministas, saudada como a primeira mulher no governo. As jornadas de junho mostraram com intensidade e profundidade que os mais de dez anos do governo do PT não significaram uma superação dos problemas sociais e políticos mais sentidos durante o neoliberalismo. E mostram o projeto utópico dos movimentos sociais que se colocam ao lado de um governo que diz governar para todos, ricos e pobres, numa sociedade capitalista marcada pela opressão e pela exploração.

Um pequeno exemplo dessa situação: metade do orçamento do país é destinado a pagar juros da dívida pública a 20 mil famílias de banqueiros e empresários. Enquanto isso, sequer as 6000 creches prometidas por Dilma foram entregues; os sem terra mantêm suas manifestações, como a de ontem, exigindo o aceleramento da efetivação das terras já destinadas àreforma agrária; os petroleiros fizeram uma greve contra uma das maiores privatizações já vista no país, da bacia de Libra, feita pelas mãos de uma presidente mulher (algo comparável apenas às grandes privatizações d FHC). As vagas de trabalho criadas nos governos de Lula e Dilma são em grande parte marcadas pela falta de direitos, alta rotatividade e as que preenchem as estatísticas dos milhões de acidentes de trabalho, aspectos da chamada precarização. Para não falar do Acordo Brasil Vaticano que instituiu aulas de ensino religioso nas escolas, que na prática de um país onde o racismo é uma marca, significa a imposição do “Pai Nosso†e da “Ave Maria†em muitas escolas, suprimindo toda expressão das religiões afrodescendentes, por exemplo.

Podemos dizer que existe um casamento que foi muito bem sucedido: o casamento do capitalismo com o patriarcado. Esse sistema capitalista em que vivemos é permeado pelas opressões; e essas opressões não acontecem sem que existam novos governos que as disseminam. E numa sociedade patriarcal, onde as mulheres são colocadas como subordinadas aos homens nas mais distintas esferas da vida social, política, cultural e econômica, essa diferença servirá para alimentar e intensificar a exploração.

Por isso estão questionados todos aqueles movimentos sociais que buscam se aliar a um projeto falacioso do governo que diz governar para ricos e pobres. No capitalismo é necessário assumir o lado do explorador ou do explorado. E esse posicionamento deve se expressar também na independência em relação aos que aplicam os projetos dos exploradores, o que no Brasil é feito pelo governo do PT. Daí surge a disjuntiva sobre o tema central deste debate sobre opressões: o objetivo seria reparar as desigualdades, podendo então apoiar governos que se auto intitulam progressistas como escreve a professora Marlise Matos? Ou o objetivo é outro, o de acabar com as desigualdades? Nós, do grupo de mulheres Pão e Rosas, colocamo-nos na perspectiva da segunda alternativa, sem abrir mão da luta por demandas mais mínimas.

Não nos deixamos enganar: mesmo essas demandas, para serem conquistadas, precisam de muito esforço. Os famosos 0,20 centavos: para reduzir 0,20 centavos a juventude teve que colocar o país de pernas para o ar. Imaginem então se lutarmos contra a precarização que acontece em frente a nossos olhos com grande parte das mulheres, negras, limpando toda a universidade sem quase nenhum direito garantido. Se lutarmos para que essas mulheres sejam efetivadas sem necessidade de concurso, com os mesmo direitos de um técnico administrativo. Se isso acontecer a universidade que é a menina dos olhos do governo Dilma, a UFMG, é que ficaria de pernas para o ar, pois essa universidade não vive sem a superexploração cotidiana de mulheres trabalhadoras invisibilizadas atrás de seus uniformes beges. E em muitas dessas empresas as empresárias são mulheres.

Portanto, é necessário que escolher um lado. Não podemos estar do mesmo lado da empresária da empresa terceirizada e das trabalhadoras dessas mesmas empresas. Não podemos estar do mesmo lado de Hillary Clinton e das crianças bombardeadas a mando desta governante no Afeganistão ou no Iraque. Há que dizer: há mulheres oprimidas e há mulheres que oprimem. E os movimentos de mulheres, frente aos governos que dizem estar ao lado de oprimidas e opressoras, como o governo Dilma, não podem disseminar essa ilusão. Tem que ter um posicionamento capaz de mostrar como no capitalismo isso não passa de "espumas ao vento".

Não podemos crer que para existir um governo seus interesses tem que ser articulados conjuntamente aos setores mais reacionários num sistema patriarcal. Tampouco podemos acreditar que esse governo possa fazer algo mais que pequenas reparações. E essas reparações, quando são feitas de um lado, são retiradas de outro setor oprimido e explorado. Outro exemplo: aos negros poucas vagas nas universidades públicas enquanto o SISU é festejado pela Reitoria e pelo governo, mesmo tendo elitizado a universidade mais elitizada entre as federais, a UFMG.

A luta contra as opressões não pode ser feita sem estar intrinsecamente ligada com a perspectiva anticaptalista e com independência dos governos. Muitos movimentos sociais hoje querem a reforma política proposta pelo governo Dilma. Algo como “as coisas tem que mudar para permaneceram como estão†. Devemos romper com esse horizonte restringido pelas instituições burguesas. A juventude começou a mostrar novos caminhos, mais eficazes que os puramente institucionais. Devemos definitivamente entender que nosso diálogo não está nas negociatas com Sarneys e Collors, tipos burgueses e patriarcais, que são a base governamental de Dilma. Nosso diálogo está com a juventude e com setores oprimidos e explorados que merecem tomar o céu por assalto, sem precisar avisar a seus antigos senhores, algozes, capatazes ou capitães do mato.

Não se trata de 0,20 apenas de centavos. Trata-se da necessidade de um transporte público e de qualidade, onde as mulheres não sejam assediadas, e que seja estatizado e colocado sob controle dos trabalhadores e usuários. Não se trata apenas de não deixar o Estado decidir sobre nossas vidas impondo quando seremos mães ou deixaremos de ter nossos filhos. Trata-se também de unificar esta luta com a luta pelo direito ao aborto, garantido pelo SUS, 100% público e sob controle dos trabalhadores e usuários. Trata-se, portanto, de uma perspectiva revolucionária que vem junto com os novos ventos da trazidos pela juventude.

Termino com Maiakoviski, poeta russo que dedicou sua vida para a arte e para a emancipação humana, contribuindo com seus versos para a grande revolução de 1917 na Rússia que pela primeira vez na história colocou os trabalhadores e o povo no poder. Um poder de novo tipo, muito diferente do que conhecemos hoje no estado burguês. Um poder que convocava as mulheres a assumirem pela primeira vez, os postos dirigentes do Estado Operário que garantia a igualdade não apenas frente àlei, mas perante àvida. Como dizia o poeta revolucionário na arte, na vida e na política:

“O tempo é roído por vermes cotidianos. As vestes poeirentas de nossos dias, cabe a ti, juventude, sacudí-las†.

Obrigada.

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