Domingo 21 de Julho de 2019

Nacional

MAIS MÉDICOS

Médicos cubanos e saúde precária

07 Sep 2013   |   comentários

Nas últimas semanas, médicos cubanos chegaram em nosso país através do programa “Mais médicos†do governo federal. A reação dos grandes meios de comunicação, assim como das entidades médicas, foram, em geral, profundamente conservadoras.

c Destilando racismo e xenofobia, os insultos e ataques contra as dezenas de médicos negros da ilha que aterrissaram no aeroporto de Fortaleza tomaram as capas dos principais jornais e revistas de nosso país. Entre as críticas desses setores médicos e da grande mídia, está o questionamento desses médicos não passarem por uma análise de sua capacidade profissional(o exame Revalida, avaliação discutível, marcada por parâmetros de uma medicina mercadológica) e um questionamento sobre os baixos salários dos estrangeiros. Nas entrelinhas, também, é visível o “ódio†contra os “socialistas cubanos†por parte desses setores conservadores.

Nos colocamos abertamente contra esses setores conservadores, apoiados por setores da extrema-direita em alguns atos. Representam o lobby dos monopólios da indústria farmacêutica, dos planos de saúde particulares, das parcerias público-privadas que acabam cada dia mais vez com o sistema público de saúde: uma medicina acostumada a tratar a vida como mercadoria, como fábrica de doenças para o lucro. E as vidas que não tem valor – a dos pobres e dos trabalhadores – definham nesse mercado podre. Como diz o médico e militante da LER-QI, Gilson Dantas, nesse mercado, “tanto os medicamentos quanto os equipamentos de tratamento e diagnóstico médico são fabricados a partir de uma solene indiferença com relação àvida ou aos seus efeitos sociais e humanos.†[1]

Cuba é conhecida no mundo pela qualidade de sua saúde. O embargo econômico do imperialismo, e as medidas capitalistas que a burocracia castrista vem levando a frente, colocam em risco essas conquistas na saúde e diminuem a cada dia a qualidade de vida do povo cubano, acelerando o processo de restauração do capitalismo nesse estado operário deformado. Mas é fato que sua medicina ainda é marcada por aspectos das conquistas que a revolução permitiu, como o desenvolvimento de uma medicina muito mais preocupada com os aspectos sociais e por relações humanizadas entre pacientes e médicos em comparação com a medicina nos países capitalistas.

Defendemos o direito dos médicos cubanos trabalharem em nosso país com os mesmos direitos do conjunto dos médicos brasileiros, e nos colocamos em sua defesa frente aos ataques racistas e xenófobos. Ao mesmo tempo devemos denunciar que a vinda dos médicos cubanos trata-se de medidas cosméticas do governo Dilma e do ministro da saúde Alexandre Padilha, que buscam acalmar o povo pobre e a juventude que gritou pelas ruas de nosso país que temos uma saúde falida [2]. São medidas insuficientes, que estão longe de começar a resolver os problemas estruturais da saúde brasileira. Não só porque o petismo deu sequencia a destruição do Sistema Único de Saúde e a privatização da saúde em nosso país, como também não poderá, com essa medida, responder a defasagem de médicos existente em um país no qual a formação da categoria é extremamente elitista e está condicionada às classes mais ricas da sociedade a partir das altas mensalidades nas faculdades particulares e do filtro social e racial do vestibular nas Universidades Públicas.

Precariedade e privatização

Os meses para agendar uma consulta, as dezenas de horas nas filas, os leitos no corredor, a falta de profissionais te todas as áreas da saúde, a ausência de equipamentos e materiais elementares falam por si só: qualquer um que necessita do SUS sabe de sua falência e que nada mudou nos governos Lula e Dilma.

A concentração incentivada do mercado de planos de saúde no sul-sudeste com esse sistema público falido é parte do problema geográfico da concentração desorganizada de médicos e sua falta em determinadas regiões. Trata-se da desorganização que o próprio capitalismo constrói, com o lucro sendo colocado a frente das vidas. O processo da privatização da saúde avança, seja no modelo tucano, como no estado de SP através das Organizações Sociais de Saúde(OSS), seja através do modelo petista, a nível federal com a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares(EBSERH), que combinam parcerias público-privadas com o incentivo ao mercado do plano de saúde. Em ambos os casos, quem lucra são os empresários e o alto escalão dos governos. Esse era o caso do antigo secretário estadual de saúde em SP, Giovanni Guido Cerri, que era ao mesmo tempo secretário e conselheiro do Hospital Sírio Libanês, o que levou a denuncias e mobilizações dos profissionais de saúde que o derrubaram no mês de agosto.

Os gritos das ruas por “saúde padrão-fifa†, assim como as lutas dos trabalhadores da saúde(médic@s, enfermeir@s, psicólog@s, dentistas, assistentes sociais, etc) do funcionalismo público estadual e municipal em diversas regiões do país por melhores condições de trabalho nos últimos anos, mostram a disposição por construir um outro SUS. Não podemos mais aceitar que metade do orçamento público vá parar no bolso de meia dúzia de banqueiros com o pagamento da dívida pública, enquanto nossa saúde e educação caem aos pedaços. Para garantir “saúde padrão fifa†, necessitamos por um fim no pagamento da dívida pública para investir em estrutura, formação e contratação de profissionais de todas as áreas da saúde de norte ao sul do país. Chega de subsídios e verbas para os monopólios farmacêuticos e para os planos de saúde: estatizar, sob controle dos trabalhadores da saúde e usuários, as máfias dos planos de saúde, pagas com nossos impostos, isenções e mensalidades. Reorganizar o sistema de saúde brasileiro para que não seja uma fábrica de lucro e mortes, mas de vidas, é uma necessidade imediata.

[1CARTAS CONTRA A MEDICINA DO CAPITAL – “Medicina, medicamentos e médicos: a serviço da vida ou da morte?†Gilson Dantas, julho de 2011http://www.ler-qi.org/Medicina-medicamentos-e-medicos-a-servico-da-vida-ou-da-morte

[2Leiam também: “A saúde pública no país e as medidas cosméticas do governo após as grandes manifestações nacionais de junho†Milena Baguetti e Guilherme Almeida Soares http://blogiskra.com.br/?p=478

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