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SANTA MARIA

Massacre em Santa Maria e a miséria que o capitalismo reserva àjuventude!

08 Feb 2013   |   comentários

O incêndio ocorrido na madrugada do dia 27 de janeiro na casa noturna Kiss em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que deixou até agora 234 jovens mortos e cerca de 140 feridos (dentre os quais pelo menos 75 continuam em estado grave), não se tratou de um acidente ou uma fatalidade, mas foi um verdadeiro massacre causado pela sede incontrolável de lucros e pela corrupção inerentes ao capitalismo. Com o custo da a vida de centenas de jovens e a (...)

O incêndio ocorrido na madrugada do dia 27 de janeiro na casa noturna Kiss em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, que deixou até agora 234 jovens mortos e cerca de 140 feridos (dentre os quais pelo menos 75 continuam em estado grave), não se tratou de um acidente ou uma fatalidade, mas foi um verdadeiro massacre causado pela sede incontrolável de lucros e pela corrupção inerentes ao capitalismo. Com o custo da a vida de centenas de jovens e a tristeza de milhares de amigos e familiares, esse sistema mostrou sua verdadeira face.

Está claro que os donos da Kiss, na sua ânsia por lucro fácil, contaram com a ajuda e cumplicidade do Estado, seja pela via dos agentes responsáveis pela fiscalização e liberação dos alvarás, seja pela via do corpo de bombeiros ou ainda do prefeito Cezar Schirmer (PMDB) e seus secretários. A corrupção de agentes públicos e a troca de alvarás de funcionamento por apoio e financiamento eleitoral, sabemos que são uma prática comum não apenas em Santa Maria, mas em todas as cidades do país. Não nos esquecemos da “falta†de fiscalização responsável pela morte de milhares de trabalhadores todos os anos em acidentes de trabalho que poderiam ser facilmente evitados se fossem cumpridas as mínimas normas de segurança, muitas dessas mortes, inclusive, nas obras do PAC controladas pelo governo Dilma.

Neste momento, alguns hipócritas tem a coragem de dizer que “alguns males vem para o bem†ou “que tudo tem um propósito†(a demagogia que mata centenas). Dizem isso para difundir a ilusão de que depois da tragédia tudo será diferente, as regras se tonaram mais rígidas, a fiscalização irá ser implacável, novas mortes serão evitadas. Mentira! Agora em janeiro completaram dois anos de uma das maiores catástrofes da história do Brasil, na qual quase mil pessoas morreram em deslizamentos de terra na região serrana do Rio de Janeiro. Algum responsável foi punido? Alguma medida efetiva foi tomada? Novas tragédias serão evitadas? Nem os insuficientes recursos repassados pelo governo federal para prevenir novos deslizamentos foram aplicados. Os recursos repassados para reconstruir as cidades atingidas acabaram desviados para os bolsos de empreiteiras, prefeitos, secretários e vereadores. Nem uma única casa foi construída, e muitos dos atingidos tiveram que reconstruir suas moradias ali mesmo ou em outros locais de alto risco! Todos esses casos confirmam a análise marxista de que o Estado não passa de “um grande balcão de negócios da burguesia†, um instrumento a serviço dos exploradores no qual o lucro dita o ritmo, a corrupção é a regra e os interesses e a segurança da maioria da população não são nada. Não podemos confiar nossas vidas a este Estado!

A única forma de garantirmos que os responsáveis pelo incêndio de Santa Maria sejam punidos é através da formação de comissões de investigação independentes do Estado e de suas instituições, como a Polícia e o Ministério Público. À frente destas comissões devem estar as organizações de familiares e amigos das vítimas, os próprios sobreviventes, organizações de direitos humanos, sindicatos, entidades estudantis e organizações políticas independentes do governo e da burguesia. As investigações e ações de caráter jurídico levadas adiante pela comissão devem se apoiar nas mobilizações populares e nos métodos da luta de classes (assembleias, paralisações, cortes de rua, greves, ocupações, etc) para fazermos frente ao pacto de impunidade que se forma sempre depois de uma grande tragédia para livrar a cara dos principais responsáveis, neste caso, o prefeito Cezar Shirmer (PMDB) e o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT). Também devemos nos posicionar contra a punição e a prisão de dois músicos integrantes da banda que tocava no momento do incêndio, mais uma manobra para encobrir e desviar o foco das investigações dos verdadeiros culpados.

SANTA MARIA, UMA NOVA CROMAÑON

A tragédia de Santa Maria não é algo singular na história recente latino-americana. No ano de 2004, na cidade de Buenos Aires, em características bastante parecidas, quase 200 jovens também perderam suas vidas no que ficou conhecido com a tragédia de Cromañon. A mobilização operária e popular na Argentina e a organização da juventude ao criar comissões independentes de averiguação, levou a punição dos culpados (entre eles estavam também integrantes da banda, que como expressamos antes não somos a favor)e a queda do prefeito de Buenos Aires, Aníbal Ibarra, transformando a raiva e indignação de um setor da juventude em consciência. Essa é a única arma para garantir a punição dos culpados e dar passos para libertar a arte, a cultura, o lazer e nossas vidas da mercantilização do capitalismo.

Se em momentos de “estabilidade†o capitalismo reserva aos jovens as maiores taxas de desemprego, os piores e mais precários postos de trabalhos e os piores salários – ainda mais se estes jovens forem mulheres, negros ou homossexuais -, é frente aos cenários de crise econômica e social, como o que vivemos atualmente, que estas mazelas tomam proporções inaceitáveis ao ponto de, não apenas acabar com o sonho de um futuro próspero e um emprego digno, mas até mesmo ameaçar a própria existência de muitos, como bem podem relatar os jovens gregos e espanhóis. A tragédia em Santa Maria traz àtona a extensão da miséria capitalista não apenas às condições de trabalho da juventude, mas a todos os aspectos da vida, como o lazer, a diversão e o acesso a arte. Como se não bastasse a proibição de utilização de praças e espaços públicos; a repressão policial aos bailes e festas organizados de forma independente nas periferias, escolas e universidades; os toques de recolher impostos em algumas cidades; ainda assim, os poucos que conseguem pagar o alto custo exigido para se ter acesso a cinemas, teatros, shows e casas noturnas podem se tornar vítimas da ganância desenfreada de empresários que fazem qualquer coisa para aumentar seus lucros! Os relatos dos sobreviventes de Santa Maria, que contam que seguranças da Kiss fecharam as portas obrigando que fossem pagas as comandas antes de deixar o local, é uma demonstração bárbara de até onde pode chegar essa miséria.

A restrição ao lazer, àcultura, àarte, é parte fundamental do desenvolvimento do capitalismo. Há 75 anos atrás, durante a Conferência Mundial da Juventude da Quarta Internacional, com o tópico Nós demandamos nosso direito àfelicidade! os jovens revolucionários já diziam que “A necessidade da juventude da classe trabalhadora pelo lazer é utilizada pela burguesia ou para torna-la estúpida, ou para fazê-la submissa àuma disciplina ainda mais rígida.†Podemos dizer que nas últimas décadas se aprofunda o disciplinamento dos “corpos e mentes†de nossa juventude pela indústria cultural, os instrumentos midiáticos do capitalismo,e o lazer é transformado em um negócio extremamente lucrativo. E também aqui, o lucro vale mais do que as vidas. Afinal, como dizia o mesmo manifesto:
Os jovens querem criar um novo mundo, mas permitem a eles apenas manter ou consolidar um mundo em apodrecimento que está caindo aos pedaços.Os jovens querem saber como o amanhã será, e a única resposta do capitalismo a eles é “Hoje você tem que afivelar seu cinto ainda mais apertado; amanhã, nós veremos... Em todo caso, talvez você não venha a ter um amanhã†.( Conferência Mundial de Juventude da Quarta Internacional.Lausanne, 11 de setembro de 1938).

Muitos governos se aproveitam da comoção popular para criminalizar ainda mais o lazer e a juventude, como se a partir de agora o problema das "mortes" no Brasil fossem as boates e casas noturnas. Governadores e prefeitos protagonizam cínicas cenas na imprensa, saindo às ruas para "interditar" casas noturnas e aparecem para a população como "salvadores" que estão impedindo novos massacres. Na verdade, toda essa hipocrisia está a serviço de encobrir a responsabilidade que tem ao manter precárias e inseguras as condições nas fábricas, canteiros de obras, hospitais e escolas e para avançarem na repressão ao lazer e àdiversão, o que atacará principalmente a juventude trabalhadora.

Lutemos para garantir que sejam os próprios trabalhadores e a juventude que organizem seu acesso àcultura, lazer e arte. Exigimos que o Estado libere recursos públicos para o lazer e o acesso àarte e que esses sejam livremente administrados pela juventude e os trabalhadores! É preciso que as entidades estudantis assumam a dianteira desta campanha e organizem festas independentes para arrancar das mãos dos capitalistas o monopólio dos espaços de diversão e confraternização! Sigamos o exemplo que os operários ceramistas da província de Neuquen, na Argentina, organizados no Sindicato de Obreros y Empleados Ceramistas de Neuquen (SOECN), que há anos vem forjando uma tradição de organizar festas independentes dos capitalistas e do Estado, nas quais, mesmo com públicos que chegam a milhares de pessoas, são garantidas todas as condições de segurança sem qualquer intervenção da polícia!

NOTA DA DIRETORIA COLEGIADA DO SINTUSP

(...) Basta de hipocrisia e das falsas declarações de solidariedade de Dilma e Tarso enquanto cotidianamente mantém as péssimas condições de segurança nas moradias, no trabalho e no lazer. Nos solidarizamos com todos os familiares e amigos das vitimas deste terrível episódio e exigimos o fim da impunidade reinante a todos os responsáveis. Exigimos a apuração e punição dos donos da casa de shows, membros dirigentes da prefeitura e dos órgãos de fiscalização, assim como do prefeito Cezar Schirmer e do governador Tarso Genro!"

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