Nacional

Março e os caminhos abertos em Junho

19 Mar 2015 | Em menos de dois anos o Brasil passou por dois momentos de grandes manifestações de massas. Esse fato, por si só, mostra que vivemos uma nova etapa histórica. Uma etapa na qual a politização percorre todas as classes sociais.   |   comentários

Março Vs Junho

Junho de 2013 teve sem dúvida consequências históricas mais profundas. Não é só uma questão de números e de amplitude nacional, muito maior nas manifestações de 2013. É mentira que o ato de domingo foi o maior desde as diretas já. É uma injustiça com o primeiro ato, daquela segunda-feira de junho, que tomou simultaneamente a av. Paulista e a Av. Faria Lima. A divulgação das imagens áreas da PM e das redes de televisão não deixaria dúvidas. Mas não é simplesmente uma questão de números. Março só foi possível na nova etapa aberta por Junho. E, mesmo sendo um movimento no sentido contrário, parte do mesmo caldo de cultura da crise de representatividade, agravada pelas medidas de ajuste e pelo escândalo da Petrobras.

Junho se iniciou da mobilização da juventude contra o aumento da tarifa, e da indignação contra a repressão brutal que essa juventude que se manifestava sofreu. A partir daí a rua foi palco de uma multiplicidade de demandas. Defesa da educação, saúde, direitos democráticos dos LGBTS e das mulheres. Esse movimento foi como um terremoto que sacudiu o país e apresentou a possibilidade de uma ruptura a esquerda com o lulismo. Seu limite foi o apoio apenas passivo que teve da classe trabalhadora, que entrou em cena somente a partir dos meses seguintes, com greves heroicas e históricas.

Março está sendo – por que ainda está para se ver todos os seus desdobramentos – uma grande mostra de insatisfação com a corrupção, com o governo Dilma e com toda a casta política. Porém, diferente de Junho, a insatisfação neste domingo foi canalizada pela direita. Isso não significa dizer que as mais de duzentas mil pessoas que marcharam pela paulista são reacionárias. Como o Datafolha mostrou, uma parcela significativa foi protestar contra todos os políticos. Porém, ao contrário de Junho, não se viam cartazes em defesa de direitos sociais. Dividiam espaço com as bandeiras contra Dilma e contra os políticos, palavras de ordem reacionárias de todo tipo.

Os limites para o PSDB e a direita capitalizarem o 15 de março

Quem, no entanto, ler essa manifestação como o inicio de uma guinada àdireita na situação se enganará. O governo petista desde 2002 tem funcionado como um amortecedor dos conflitos sociais. Apesar de contidas, as contradições de classe não deixaram de se acumular. A partir de junho, elas ganharam as ruas. Todas as camadas sociais passaram a se manifestar. A classe trabalhadora protagonizou a maior onda de greves dos últimos vinte anos. Neste domingo, pelas características da manifestação – em geral contra o governo petista e a corrupção, e convocada por grupos de direita (MBL, Vem Pra Rua e Revoltados Online) – as reservas de grupos direitistas de todas as linhagens puderam desfilar livremente a luz do dia como nunca desde o fim da ditadura. Levaram suas faixas e cartolinas e puderam dar a sua demonstração de força nas ruas. Mas a grande massa de insatisfeitos que esteve na paulista não compartilha essas ideias. Domingo sua revolta foi canalizada pela direita, mas o terreno segue em aberto e em disputa.

Aécio Neves, malandramente, não foi ao ato. Não se sabe como seria recebido. Assim como Alckmin e Serra, que mantiveram distancia. Bolsonaro foi vaiado, e Paulinho, da Força Sindical e do Partido Solidariedade, também foi rechaçado. A oposição burguesa institucional terá muita dificuldade de capitalizar e canalizar a insatisfação das classes médias. No momento, como dizem alguns analistas, quem mais se favorece é o PMDB, que joga entre governo e oposição. Mas este partido está questionado, junto com toda a casta política. Como dizia uma faixa na Av. Paulista que ficou famosa, “Fora Dilma, Alckmin, o PMDB e o Valdivia†. Só o Valdivia que entrou de laranja nessa história.

No campo da chamada nova direita, e da extrema direita, também existem muitas contradições. Os grupos de choque da extrema direita como os Carecas, foram rechaçados na manifestação e saíram presos. As posturas mais neoliberais como a do Movimento Brasil Livre, ou tucanas, como a do Vem Pra Rua, atendem os interesses dos setores mais abastados, mas não predominam em todas as camadas medias que estão sendo atingidas pelos ajustes de todos os governos. Muito menos o Revoltados Online e todos os setores mais ou menos fascistoides que pedem por uma intervenção militar.

O caminho a esquerda segue aberto

Não podemos cair no engodo de que está em curso um golpe contra o governo Dilma. Eduardo Cunha mais uma vez reafirmou sua postura contrária ao impeachment. Grandes apoiadores contra o golpe da direita! As bandeiras que o PT levantou no dia 13 são falsas. Como defender a Petrobras e a democracia, junto com o governo que loteou a Petrobras entre os partidos da direita (entre eles o PP de Bolsonaro)? É urgente colocar em movimento uma terceira alternativa, contra a direita de todas as cores e contra o ajuste do governo Dilma.

As centrais sindicais independentes, a começar pela CSP-Conlutas, as oposições sindicais, as organizações estudantis e os movimentos sociais combativos, e os partidos e organizações da esquerda opositora, estão chamados a dar os primeiros passos na formação desta terceira alternativa. O dia sete de abril, quando está chamado o primeiro dia de luta dos servidores públicos federais e também está marcada a votação da PL 4330 que libera a terceirização, seria a data ideal para unificar todas as iniciativas e convocar um grande ato de rua. Pela prisão e confisco dos bens de todos os corruptos, pelo fim dos privilégios da casta política, que nenhum político ganhe mais que um professor da rede publica, contra os ajustes e em defesa dos serviços públicos e por uma Assembleia Constituinte para rediscutir o país, na qual se expresse a vontade popular e não a casta política e seus conchavos com os empresários.

Tomar as ruas (ainda que seja com atos menores que o do dia 13 em um princípio) para fazer frente a direita e ao governo Dilma, seria apenas um primeiro passo. Ao mesmo tempo, cada luta como a greve dos professores de São Paulo ou dos garis no Rio de Janeiro, devem ser apoiadas e cercadas de solidariedade. Apoiar cada batalha é um passo fundamental para construir um dia de paralisação nacional que coloque os trabalhadores no centro da cena política como uma terceira alternativa.

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