Internacional

ENCONTRO DE MULHERES NA ARGENTINA

Marchamos junto ao Pan y Rosas pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito, contra a violência às mulheres e pelo direito das mulheres trabalhadoras e da juventude!

02 Nov 2012   |   comentários

Nos dias 6, 7 e 8 de outubro ocorreu o XXVII Encontro Nacional de Mulheres da Argentina. O grupo de mulheres Pan y Rosas participou com uma delegação de quase mil mulheres entre estudantes universitárias e secundaristas de todo o país, terciárias (formação para professoras), trabalhadoras da indústria alimentícia, indústria gráfica, metalúrgicas, têxteis, imigrantes, empregadas domésticas, trabalhadoras de empresas terceirizadas de limpeza, (...)

Nos dias 6, 7 e 8 de outubro ocorreu o XXVII Encontro Nacional de Mulheres da Argentina. O grupo de mulheres Pan y Rosas participou com uma delegação de quase mil mulheres entre estudantes universitárias e secundaristas de todo o país, terciárias (formação para professoras), trabalhadoras da indústria alimentícia, indústria gráfica, metalúrgicas, têxteis, imigrantes, empregadas domésticas, trabalhadoras de empresas terceirizadas de limpeza, professoras, trabalhadoras da saúde, estatais, telefônicas, aeronáuticas e mulheres do engenho de açúcar do norte da Argentina. Levaram como suas principais bandeiras um plano de luta pelo direito ao aborto legal, livre, seguro e gratuito, pelos direitos das mulheres trabalhadoras, contra toda forma de violência contra as mulheres e a rede de tráfico que vem crescendo naquele país. Essas mulheres jovens e trabalhadoras participaram deste encontro fazendo muita luta política com as kirchneristas, setores da Igreja e com a comissão organizadora, composta pelo PCR (Partido Comunista Revolucionário, uma organização maoísta) para votar um plano de luta em nível nacional e construir um grande movimento de mulheres que saia às ruas para arrancar todos os seus direitos. Como parte da delegação do Pan y Rosas, participaram Marília Rocha, metroviária na capital de SP e Rita Frau, professora do estado de SP em Campinas, militantes do Pão e Rosas Brasil, que entrevistamos para nos contar como foi esta experiência e quais são os passos necessários para a construção de um grande movimento de mulheres classista, combativo e revolucionário no Brasil.

JPO: Qual foi a importância de vocês participarem deste Encontro na Argentina?

Marília: O Pão e Rosas é um grupo de mulheres que existe na Argentina, Brasil, Chile, México e Espanha. Somos mulheres que lutamos pelos nossos direitos numa perspectiva marxista e revolucionária, pois entendemos que a opressão das mulheres não surgiu com o capitalismo, mas este sistema se utiliza e legitima a opressão para explorar ainda mais a classe trabalhadora e manter a divisão entre homens e mulheres. Assim como na Argentina, nosso país também é governado por uma mulher, Dilma Roussef, mas as condições de vida e de trabalho para as mulheres trabalhadoras seguem na miséria, além do direito ao aborto que nos é negado. Vivemos em um contexto de crise econômica internacional aonde as mulheres e a juventude são os primeiros a sofrerem com as consequências da crise em suas costas. Somos as que temos as condições mais precárias de trabalho, as que recebemos os salários mais baixos, vítimas de dupla jornada de trabalho, somos as que temos nossos corpos expostos nas propagandas de televisão, as que sofremos com o tráfico de mulheres para o mercado sexual em países da Europa, e que no Brasil a cada 15 segundos sofremos algum tipo de violência física, as que morremos cotidianamente ou carregamos pelos restos de nossas vidas as sequelas do aborto clandestino e não podemos exercer livremente nossa sexualidade. Essa situação é igual aqui, na Argentina ou no Chile, e por isso essa experiência nos ajuda muito a avançarmos na construção de um movimento de mulheres internacionalista nas universidades e locais de trabalho para acabar com a opressão e exploração capitalista.

Rita: Também foi importante para vermos os exemplos que podemos tomar da luta das mulheres internacionalmente. No Chile as companheiras do Pan y Rosas/Tereza Flores se levantam contra a repressão e os abusos sexuais que sofrem da polícia por lutarem por uma educação pública, gratuita e de qualidade e estão impulsionando uma campanha pela igualdade de direitos e diversidade sexual em resposta aos setores conservadores que rotulam a homossexualidade como uma doença. Na Argentina o Pan y Rosas deu uma batalha no Encontro para que se votasse um plano de luta pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito, mas infelizmente a comissão organizadora, além de abrir espaço para que setores da Igreja participassem do Encontro, se colocaram contra a que se votasse o plano de luta. Foi um orgulho para nós participar deste Encontro, pois somos parte de uma mesma luta e como dizia León Trotsky as mulheres são as “quem lutam com mais energia e persistência pelo novo, são as que mais tem sofrido com o velho†.

JPO: Participaram da delegação do Pan y Rosas trabalhadoras de várias categorias, como as trabalhadoras de Kraft e outras fábricas da alimentação, que constroem o sindicalismo de base e vêm travando uma forte campanha em seus locais de trabalho pelos direitos das mulheres. Contem-nos sobre esses exemplos.

Rita: Conhecemos várias trabalhadoras como as trabalhadoras de Pepsico, que lutam pelo reconhecimento da qualificação de seu trabalho. Na empresa alimentícia Kraf-Terrabusi, que diante do assédio sexual que sofreu uma trabalhadora por um supervisor, e foi sancionada pela patronal por ter denunciado, as trabalhadoras junto aos trabalhadores, responderam com uma paralização obrigando a empresa a suspender a sanção. Isso é parte da importância da existência de uma comissão interna que gera a consciência que só é possível lutar pelos direitos da classe trabalhadora se lutamos também pelos direitos das mulheres e contra toda forma de violência. O sindicalismo de base na Argentina mostra que apenas através da independência de classe e lutando pela unidade das fileiras operárias, para arrancar dos sindicatos a burocracia que está com a patronal e o governo Cristina Kirchner (que apesar de ser mulher governa em aliança com a burguesia e com a Igreja), é possível também arrancarmos os direitos das mulheres.

Marília: Além disso, conhecemos as trabalhadoras imigrantes das empresas têxteis que hoje travam um luta contra a precarização e o trabalho semi-escravo e as trabalhadoras dos engenhos de açúcar que se colocam contra a miséria e exploração dos grandes latifúndios. Além das docentes e estatais, que através da criação de Secretarias de mulheres nos sindicatos em que atuam, impulsionam campanhas pelos direito ao aborto e cursos de formação sobre a opressão da mulher e marxismo. Esses são exemplos que nos inspiram para construirmos um forte movimento de mulheres classistas, combativas e revolucionárias para atuarmos em nossos locais de estudo e trabalho.

JPO: No Brasil como o Pão e Rosas vem atuando contra a precarização do trabalho?

Rita: No Brasil, assim como na Argentina, Dilma discursa em defesa dos direitos das mulheres, mas o que sentimos na pele é cada vez mais precarização. Somos parte da Secretaria de mulheres do SINTUSP, através da companheira Diana Assunção, militante do Pão e Rosas e diretora do SINTUSP que vem sendo processada pela reitoria da USP por lutar contra a estrutura de poder da Universidade e contra a precarização, como a terceirização, e está organizando junto a outras trabalhadoras da USP o III Encontro de Mulheres trabalhadoras do SINTUSP. Diana organizou um livro chamado a “Precarização tem rosto de mulher†, lançado pela editora ISKRA junto ao Pão e Rosas, que conta a história da luta das trabalhadoras terceirizadas da empresa DIMA, como Silvana, que protagonizaram esta luta para arrancarem seus direitos.

Marília: Ano passado mais uma vez as trabalhadoras terceirizadas da USP, da empresa UNIÃO, se rebelaram contra as péssimas condições de trabalho e para garantirem seus salários, e estivemos ao lado delas. Hoje nos colocamos ao lado dos trabalhadores da Façon, empresa quarteirizada do metrô, que tem seus salários atrasados, e defendemos a incorporação desses trabalhadores no metrô sem a necessidade de concurso. É fundamental que a luta das mulheres seja a luta de toda a classe trabalhadora, e para isso é necessário lutarmos contra a divisão que os patrões e os governos nos impõe entre efetivos e terceirizados, negros e brancos, homens e mulheres.

JPO: Como está a campanha pelo direito ao aborto, impulsionada pelo Pan y Rosas na Argentina e como organizar uma forte campanha pelo direito ao aborto no Brasil?

Marília: O Pan y Rosas está impulsionando uma forte campanha pelo direito ao aborto em todos os locais de trabalho e estudos, como nas eleições estudantis na Universidade de Buenos Aires na Psicologia junto às estudantes de medicina e trabalhadoras do hospital de Garaham. No dia 1 de novembro marcharão pela legalização do aborto. Cristina Kirchner fecha os olhos para as 2900 mortes que ocorreram pela realização de abortos clandestino nestes 9 anos de seu mandato, sendo na sua maioria, mulheres trabalhadoras e pobres, e segue discursando que sob o seu mandato não legalizará o aborto.

Rita: No Brasil Dilma segue a mesma política. Depois que nas eleições fez uma campanha reacionária contra o direito ao aborto aliada àIgreja em troca de votos, o movimento feminista ligado ao governo dizia que era uma questão tática para eleger Dilma, mas depois de dois anos nada avançou, pelo contrário, seguem os projetos de leis dos setores “pró-vida†no Congresso, e milhares de mulheres continuam morrendo por abortos clandestinos. Precisamos retomar com força a campanha pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito através da CSP-Conlutas e Intersindical, e setores do movimento estudantil, como a ANEL, fazendo frente-única com os setores que reivindicam a luta pela legalização e descriminalização do aborto, e impulsionarmos uma forte campanha nos locais de trabalho, estudos e uma mobilização independente de milhares de mulheres, trabalhadoras e trabalhadores, da juventude, nas ruas para arrancar nossos direitos!

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