Movimento Operário

LEAR: Uma nova semana de história

11 Aug 2014   |   comentários

Segue a luta na fábrica argentina de autopeças, Lear, contra as demissões. Contra o governo, a polícia e a burocracia sindical, os trabalhadores estão firmes na luta.

Cada semana marca uma nova etapa nesta luta. As manobras da patronal para pressionar e garantir as demissões, a repressão que desta vez veio pelas mãos da polícia de Buenos Aires, e o silêncio cúmplice do Ministério do Trabalho e do governo, não dobraram e nem desmoralizaram o ativismo.

Na semana da terceira Jornada Nacional, na quarta-feira dia 23 de julho, houve uma nova leva de 30 reincorporações, e setores do ativismo começaram a entrar na fábrica. Já voltaram a trabalhar 50 demitidos, um primeiro avanço, apesar de mais de 100 trabalhadores ainda esperarem a reincorporação. Chegam vários sinais de apoio dos companheiros que estão dentro da fábrica. Cada avanço é um golpe para a patronal imperialista. Os delegados ilegalmente impedidos de entrar na fábrica – apesar de terem 5 sentenças a seu favor-, contam desde sexta-feira com uma nova sentença favorável, do Tribunal do Trabalho n5 de la Plata, que rechaçou o pedido da empresa de que seja revertida a sentença contrária a seu interesse. Esta semana confirmou como está vivo e em pleno desenvolvimento um dos maiores conflitos operários dos últimos anos.

Novo escândalo no SMATA

O sindicato dos metalúrgicos de Buenos Aires (SMATA) e seu presidente, Pignanelli, vem dando grandes mostras do papel patronal que jogam diante das demissões e suspensões. Já vimos os ataques e os demitidos da fábrica de autopeças Gestamp ligada àVolkswagen, assembleias fraudulentas na própria Volkswagen e a perseguição aos delegados “traidores†, assim como a escandalosa assembleia farsa por meio da qual foi ganha uma denúncia penal e o amplo repúdio de figuras de diversos setores, na qual “sequestraram†os trabalhadores de Lear e em meio aos bate-paus disseram para “votar†contra os delegados sob ameaça de demissão e fechamento da fábrica.

Mas a “Verde†[1] não mede as manobras para conter, usando o medo, o trabalhador de Lear. Na quinta-feira, dia 24, o SMATA organizou uma reunião do sindicato com os 30 reincorporados pela última audiência. Alguns dias depois, o áudio desta reunião, que demostra que contra o SMATA até as paredes ouvem, começou a ser difundido até chegar a coluna sindical de Ricardo Carpena do Clarín, um dos principais jornais impressos da Argentina. Um novo escândalo. Três burocratas da “Verde†, diante de um auditório mudo frente a um espetáculo, mostrou com todas as cores como os rapazes de Pignanelli trabalham para a empresa. “Se não podemos conduzir esta fábrica, o grêmio vai fazer o possível para que esta seja fechada†, “entram pelo sindicato e saem pelo sindicato†, “ Esqueçam-se dos delegados que tiveram. Esqueçam-se, durante dois anos, de delegados...se não há nada seguiremos nós†, “ não tirem os pés do prato†. São mostras de um regime sindical ditatorial com a base dos trabalhadores metalúrgicos. Mas por trás das dos bate-paus da “verde†, se esconde uma burocracia que teme a força dos trabalhadores, que teme a volta dos delegados. Uma burocracia que tem medo que os setores opositores da base dentro de Lear ganhem força, e que novos setores avancem em sua própria organização nas automotrizes.

A “Verde†e sua tentativa de ditadura a serviço da patronal, contando ainda com um enorme apoio do governo, é uma homenagem àforça dos trabalhadores e seu poderoso papel na produção de uma das indústrias mais importantes do país. A burocracia joga um papel central contra a luta dos trabalhadores de Lear, mas pagando custos enormes. A defesa incondicional do plano patronal diante da firmeza da luta dos demitidos, está levando a Verde a cometer erros grosseiros, colocando em risco setores inclusive de sua própria base, como se viu nos episódios de terça-feira que contaremos abaixo.

Repressão e repúdio popular, paralisação e crise na Verde

No domingo, uma nova assembleia votou, além da quarta Jornada Nacional de Luta, uma concentração para terça-feira, como medidas centrais do plano de luta da semana. Na terça, nas primeiras horas da manhã, começaram a chegar os demitidos, que junto a uma centena de companheiros do Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo (PTS) - organização irmã da Ler-qi na Argentin - e dezenas do Partido Obrero (PO), começaram a armar diversos piquetes ao redor da fábrica, driblando um imenso operativo da política de Buenos Aires e, como sempre, estávamos cercados por colunas de policiais que ocupavam a avenida Panamericana.

Antes das 6 da manhã os operários foram se concentrando em quarteirões perto da fábrica. Um grupo de mulheres demitidas foi ao seu encontro, distribuir-lhes o boletim, pedir seu apoio e discutir com a base, entre os insultos e ameaças de um grupo de “verdes†. Uma grande maioria de trabalhadores saiu da fábrica em solidariedade àluta dos demitidos. A jornada começava a conquistar um apoio muito importante dos companheiros de dentro. A Verde quis reunir os trabalhadores, mas fracassou. No entanto, um grupo de fura-greve e os bate-paus do SMATA que queriam acabar com o piquete, escoltados por um grande cerco policial, se colocaram de forma provocadora frente aos demitidos. A polícia, sob responsabilidade do Fiscal Marcelo Molina Pico, ameaçava passar àforça entre os manifestantes, mas era necessária uma provocação para que as câmeras de TV não deixassem tão em evidencia a cumplicidade das forças repressivas com a patronal ianque. Um bate-pau da verde, com a permissão dos efetivos, cruzou o cordão policial e começou a bater em um dos demitidos, provocação que serviu para que a polícia de Buenos Aires começasse a avançar sobre os manifestantes a força, usando cassetetes, golpes e gás lacrimogêneo, tudo transmitido pela TV ao vivo. A brutalidade da polícia deixou dezenas de feridos e três companheiros presos: “Marley†, delegado da comissão interna de fábrica, um companheiro demitido de Lear e Jonatan Ros, dirigente nacional do PTS. Os noticiários se encherem com as notícias da repressão, que em poucas horas seria repudiada amplamente. Uma delegação de esposas dos detidos junto aos Deputados Christian Castillo, Nicolás del Caño, Néstor Pitrola, Victoria Moyano e advogados exigiram ao Fiscal a imediata libertação e foram às delegacias para onde foram levados os detidos separadamente. A fábrica não funcionou novamente. Havia uma paralisação forçada, não somente pelos quase 200 trabalhadores que entraram em solidariedade aos demitidos, mas também porque os fura-greve e bate-paus dentro da fábrica começaram a questionar as instruções da empresa e da Verde, os que levou a um enfrentamento com a a polícia, algo que nem eles entenderam.

Os feridos foram atendidos, os presos liberados e o conflito foi uma das principais notícias do dia. Os demitidos de Lear obtiveram um renovado apoio popular para a sua causa, resistindo e saindo mais fortes ainda da terceira repressão nas últimas semanas. A Verde e a patronal saíram derrotadas deste encontro, com a base verde em crise, questionando duramente a sua direção na assembleia dentro da fábrica nesse mesmo dia. Assim, estavam sendo preparadas as condições favoráveis para a Jornada do dia seguinte.

Quarta Jornada Nacional de Luta

Às 5 da manhã da quarta-feira dia 30, já dava para perceber as forças que se colocavam em movimento na nova “ Jornada Nacional de Luta contra as demissões em Lear e em todo do país†. Os demitidos, cercados de centenas de militantes do PTS, PO e outras organizações, fizeram piquetes ao redor do debilitado operativo policial, que era reflexo do repúdio a repressão do dia anterior. Lear parou. Nenhum trabalhador se apresentou para o trabalho. Um primeiro triunfo. Em diversas províncias foram tomadas outras medidas: um corte de rua no acesso a rodovia Rosario-Buenos Aires, uma caravana que cruzou a cidade de Córdoba, ações em Neuquén, Tucumán, Jujuy, Bahía Blanca e outras cidades do interior do país.

No começo da manhã, um emotivo ato era televisionado por quase todas as emissoras. Elia Espen, Mãe da Praça de Maio, uma das fundadoras dessa organização que se dedica àencontrar desaparecidos políticos da ditadura na Argentina, entregava novamente seu lenço (símbolo da luta das Mães da Praça de Maio) para a comissão interna, como um reconhecimento àsua luta. Suas palavras fizeram chorar quem as escutava, os aplausos se impuseram e dava para sentir a energia que dá um exemplo de luta como Elia estar junto aos trabalhadores, desta vez acompanhada por Cachito Fukman da AEDD e Victoria Moyano e Alejandrina Barry do CeProDH, organizações de direitos humanos.

Logo após o ato, um novo e surpreendente “piquete móvel†desconcertou a Polícia e sua monumental demonstração de forças que se demonstrava inútil. Sua vã tentativa de deter os veículos só piorava congestionamento da Panamericana. A impotência levou a Polícia a montar uma grosseira provocação, atirando um dos chefes da operação de maneira inacreditável na direção de um dos automóveis dos manifestantes, simulando um atropelamento. Por esse “fato†o motorista foi retirado a força pela janela do carro, e acabou sendo detido. Horas mais tarde o liberaram: não dava para sustentar a farsa montada, que caía por si mesma. Outro fracasso dos rapazes de Berni.

Enquanto isso, centenas de manifestantes se colocavam na beira da avenida Panamericana, observando a caravana escoltada pelos bonecos de “abutres†gigantes, que com criatividade, fizeram os estudantes da IUNA (Instituto Nacional de Arte), que fazia referencia a patronal norte-americana. Essa imagem chegou às páginas dos grandes jornais norte-americanos Wall Street Journal e New York Times. A ação foi transmitida ao vivo pela maioria dos meios de comunicação. A reivindicação pela reincorporação dos mais de 100 trabalhadores demitidos, a luta pela reintegração da comissão interna e o repúdio àrepressão se fazia sentir.

Ao final da jornada, ficou uma incógnita, a suposta audiência que se realizaria entre a empresa, o governo e o SMATA, segundo consta nas atas do Ministério do Trabalho da semana passada. Como em audiências anteriores, os demitidos e a comissão interna desconhecem seu resultado já que são deixados de lado com o aval escandaloso do Ministério do Trabalho. No fechamento desta nota foi confirmada a reunião, que acontecerá dia 31 com Facundo, Hugo Moyano e contará com a presença da comissão de fábrica de Lear. É uma expressão do enorme apoio que esta luta tem e será um lugar para exigir medidas concretas de apoio da CGT (central sindical de oposição a SMATA)

Seguir adiante neste difícil e histórico conflito

Nessa semana, a Verde e a patronal sofreram derrotas e ficaram na e na defensiva, mas isso não significa que não estejam preparando novas tentativas para derrotar os lutadores.

O apoio às medidas de luta e organização da ampla solidariedade em uma força militante e ativa, é uma das tarefas mais importantes dos companheiros do PTS e todos aqueles que entendem que é importante que esta luta triunfe. O fundo de greve em um conflito tão longo tem importância fundamental. A campanha “1 milhão de pesos por Lear†continua avançando. Em que pese estarmos na última semana do mês, a soma total já arrecadada supera dos $350.000,00, sendo a grande maioria arrecadações provenientes das diversas atividades que impulsionamos a partir de nosso partido, bem como das bancadas de deputados do PTS na FIT (Frente de Esquerda e dos Trabalhadores).

Desde o momento em que começou esta luta, a partir do PTS estamos somando uma grande força militante para cada medida tomada pelos operários, desenvolvendo também uma campanha em todo país para contribuir com o fundo de greve, fazer agitações semanais, coletas em dezenas de fábricas, escolas e dependências estatais. É que a luta de Lear e seu desfecho já vão além do o próprio conflito. É uma causa que está sendo seguida por milhares de trabalhadores e estudantes que se veem como manifestantes nesta dura batalha contra o ajuste do governo, contra as patronais e a burocracia.

[1Cor do símbolo da burocracia sindical metalúrgica do SMATA.

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