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John Heartfield e a fotomontagem como arma

03 Feb 2013   |   comentários

Encontra-se em cartaz no Museu Lasar Segall (São Paulo), a mostra John Heartfield: Fotomontagens, em exposição até o dia 24 de fevereiro. John Heartfield, um dos membros-fundadores e líderes do Dadaísmo de Berlim (ao lado de George Grosz e Raoul Hausmann), ingressou no Partido Comunista Alemão em 1918 (mesmo ano de fundação do dadaísmo berlinense) e foi próximo da Liga Spartakus (dirigida por Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht). Quando do assassinato (...)

Encontra-se em cartaz no Museu Lasar Segall (São Paulo), a mostra John Heartfield: Fotomontagens, em exposição até o dia 24 de fevereiro. O acervo, composto por 50 fotomontagens pertencentes ao Instituto Valenciano de Arte Moderna, apresenta a produção artística de John Heartfield (1891-1968) entre os anos de 1930-1938, correspondente ao processo de ascensão e consolidação do nazi-fascismo na Alemanha e ao processo da Guerra Civil espanhola. Todas as obras expostas foram produzidas com a técnica da rotogravura e tipografia e são originais da revista AIZ (órgão do KPD - Partido Comunista Alemão), posteriormente chamada de IVO (1936).

John Heartfield, um dos membros-fundadores e líderes do Dadaísmo de Berlim (ao lado de George Grosz e Raoul Hausmann), ingressou no Partido Comunista Alemão em 1918 (mesmo ano de fundação do dadaísmo berlinense) e foi próximo da Liga Spartakus (dirigida por Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht). Quando do assassinato de Rosa e Liebknecht, em 1919, Heartfield vinculou-se ao movimento grevista que sucedeu àrepressão ao levante spartakista e foi demitido de seu emprego no Serviço de Cinema Militar Educativo. No mesmo período, Heartfield começou a trabalhar com a produção de fotomontagens (técnica elaborada pelos dadaístas) e a desenvolver, a partir desta produção, uma linguagem que pudesse responder ao processo histórico e traumático da Guerra Mundial e da problemática da revolução alemã. A produção de Heartfield, neste período, inscreve-se num esforço conjunto do movimento Dadá para a formulação de uma crítica radical das instituições artísticas, das guerras imperialistas e, em suma, da ordem capitalista.

No acervo exposto no Museu Lasar Segall, o público poderá ter contato com a produção da década de 1930 de John Heartfield, na qual este projeto dadaísta ainda encontra ressonâncias. O trabalho com a tipografia, com uma produção artística de caráter industrial e, obviamente, com o lugar original de exposição das obras (uma revista de distribuição massiva, ao contrário de um museu) vinculam-se ao projeto de crítica àinstituição Arte e ao projeto de formulação de um psiquismo revolucionário das massas proletárias. A latência deste projeto artístico é explicitada mediante o contexto de produção das obras, conforme dito acima - a ascensão do nazi-fascismo e a emergência da Guerra Civil espanhola.

Um exemplo notável, dentre os presentes na exposição, é a fotomontagem "Adolf, o super-homem: engole ouro e fala fino", da imagem ao lado.

Esta fotomontagem, de 1935, insere-se no contexto após a vitória eleitoral do Partido Nazista (de 1933) e da ampla difusão imagética de Adolf Hittler como "grande líder" em cartazes e revistas de ultra-direita. A obra procura explicitar o conteúdo da figura de Hittler, mediante o uso do dispositivo de uma chapa de raio x que revela ao público o "conteúdo torácico" do discurso nazista. Em primeiro lugar, Heartfield constrói uma coluna formada por moedas, bem como sugere que Hittler haveria engolido algumas. No lugar do coração, Hittler apresenta-nos a suástica nazista.

Nesta imagem sintética, a linguagem elaborada a partir da montagem de fragmentos estrutura uma nova abordagem acerca do fenômeno do nazismo, vinculando a história do mesmo ao financiamento da burguesia industrial e financeira alemã, bem como relegando ao campo simbólico (a suástica como coração) um importante momento da constituição ideológica do nazismo (na própria figura, a suástica encontra-se em primeiro plano, enquanto as moedas em segundo). Desta maneira, Heartfield descentra Hittler em relação ao nazismo, problematizando, não apenas a figura de "grande líder", mas explicitando o seu conteúdo burguês, material e simbólico.

Muitas outras relações deste tipo podem ser encontradas percorrendo as demais 49 fotomontagens, desafio legado ao público da exposição - a qual merece, sem dúvida, ser visitada.

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