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REALIZOU-SE O IV CONGRESSO DA LER-QI

Impulsionar um Movimento pela Internacional da Revolução Socialista – Quarta Internacional

21 Nov 2013 | Nos dias 15, 16 e 17 de novembro realizou-se em São Paulo o IV Congresso da LER-QI. Participaram trabalhadores da indústria alimentícia, metalúrgicos, metroviários, professores, bancários, trabalhadores da USP, além de estudantes que protagonizaram algumas das lutas mais importantes do último período, como as ocupações da USP e Unicamp, e a greve da UNESP, mulheres trabalhadoras precarizadas e militantes do Pão e Rosas, dos LGBTTs, jovens intelectuais, e militantes de extensa tradição trotskista. A participação da FT através da presença de Emilio Albamonte, dirigente do PTS, enriqueceu o conjunto das discussões, e fez com que esse Congresso assumisse um forte caráter internacionalista. Entrevistamos Simone Ishibashi, diretora da revista Estratégia Internacional Brasil sobre as resoluções internacionais que orientarão a LER-QI no próximo período.   |   comentários

JPO: Como se iniciou o debate internacional sobre o andamento da crise capitalista internacional?

Simone Ishibashi: O IV Congresso da LER-QI teve início com uma rica discussão sobre a situação internacional a seis anos da crise capitalista que assola o mundo. Para isso, retomamos a ligação entre economia, luta de classes e relação entre os Estados. Definimos que uma justa apreciação exige dois níveis de análise: um estrutural e outro que considere as contratendências utilizadas pela burguesia imperialista. Isso para evitar tanto uma visão superficial de que a crise teria sido superada pela mera recuperação parcial de índices da economia norte-americana, ou uma visão catastrofista, que leva a políticas equivocadas e frequentemente a uma atitude de espera que o colapso resolva o tema do fim do capitalismo. Do ponto de vista estrutural, definimos que nenhuma das questões fundamentais fora resolvida. É uma crise que se gestou como produto das contradições da criação do que chamamos “exuberante†capital fictício, desindustrialização norte-americana como subproduto da deslocalização produtiva, e que hoje ameaça a base pretensamente harmoniosa dos EUA e UE como compradores em última instância, e a China como provedora de mercadorias baratas, a fábrica do mundo, e não há nenhum outro se forjando no lugar. Tudo isso no marco da decadência da hegemonia do imperialismo norte-americano, sem que haja surgido outra potência capaz de substituí-la.

JPO: E como isso se combina com as tendências mais imediatas?

Simone Ishibashi: É preciso considerar as contratendências, responsáveis por uma dinâmica que diferentemente dos anos 1930 rapidamente levou àquebra da economia e àII Guerra Mundial. Dentre estas há o desenvolvimento da mundialização financeira, e em grande medida produtiva do capital, a intervenção massiva do Estado capitalista que manteve o crescimento da China em cerca de 8% e sustenta no imediato a demanda por commodities. Nos EUA a intervenção estatal conseguiu deter a queda livre da economia, e recompor parcialmente a cadeia de crédito. Nos últimos 3 anos o crescimento foi de aproximadamente 2,2%. Mas a taxa de lucro se recompôs em base a uma maior exploração da força de trabalho. Parte do capital monetário alimentou o crescimento das bolsas e outra parte foi exportada, por exemplo para o Brasil, em que os juros maiores permitiam mais lucro. E há um elemento subjetivo fundamental que é a crise de subjetividade da classe trabalhadora, que ainda que venha num processo de recomposição protagonizando lutas, este é mais lento que o nível dos ataques da burguesia internacional.
Mas é categórico que entramos em uma nova etapa da luta de classes internacional com a primavera árabe no centro da situação, cujo debate divide águas na esquerda internacional e votamos seguir tomando-o com hierarquia. Há ainda novos fenômenos políticos na América Latina, com o fim do ciclo dos governos pós-neoliberais e as perspectivas que se abrem para a esquerda. Portanto, este debate foi muito rico, com importantes contribuições e opiniões da militância que defenderam posições distintas sobre os ritmos do avanço da crise capitalista com alto nível e muito embasadas, fortalecendo as análises sobre os possíveis cenários do desenvolvimento da crise e nossa preparação para as mudanças na economia brasileira e internacional.

JPO: A FT-QI está chamando a construção de um Movimento pela Internacional da Revolução Socialista – IV Internacional (MIRS-QI). Quais são seus fundamentos?

Simone Ishibashi: Como o camarada Emilio Albamonte colocou esta é uma orientação fundamental discutida na última Conferência Internacional da FT-QI, e ratificada pelo Congresso da LER-QI. Trotsky antes de fundar a IV Internacional forjou o Bloco dos Quatro que congregava algumas organizações que apontavam um giro àesquerda, dentre os quais o SAP alemão, o Partido Socialista Revolucionário e o Partido Socialista Independente, ambos holandeses, além da LCI. Trotsky propôs um bloco não em base a princípios abstratos, mas em alguns pontos programáticos candentes e verificáveis na luta de classes daquele momento, dentre os quais a luta contra o stalinismo, contra a política sectária de “sindicatos vermelhos†entre outras questões. Isso permitia que estas organizações avançassem não apenas no debate, mas em experiências comuns de intervenção, de modo a avançar a uma confluência de princípios. A lógica legada por Trotsky é fundamental para que não caiamos nem numa política de “engordar†nossas próprias fileiras, crendo que a resposta para a estratégica tarefa de reconstruir um partido mundial da revolução seria o resultado do desenvolvimento evolutivo de nossa própria organização, nem ceder a uma política oportunista de promover unificações internacionais em base a pontos gerais e sem acordos profundos. Portanto, queremos debater e atuar politicamente junto com os setores que hoje avançam para tomar para si esta tarefa. Para nós isso sintetiza a necessidade de forjar um internacionalismo de combate.

JPO: E quais são as fortalezas internacionais da FT hoje para avançar neste sentido?

Simone Ishibashi: Viemos de um grande combate político que se expressa na histórica votação da Frente de Izquierda (FIT) na Argentina, com mais de 1 milhão e 150 mil votos, elegendo 3 deputados nacionais. A FIT impulsionada pelo PTS, PO, e Izquierda Socialista demonstrou que não é preciso rebaixar o programa, para apresentar-se como alternativa viável aos setores que crescentemente percebem que nada podem obter de profundo dos governos pós-neoliberais, como o de Cristina Kirchner. Isso se combina a uma inserção importante que estamos conquistando na classe trabalhadora, que tem em Zanon seu símbolo mais importante, mas que se combina àatuação em diversas estruturas operárias, em que houve uma significativa militância pela FIT. Neste sentido, a histórica votação da FIT começa demonstrar-se como uma superação da separação fundamental na Argentina entre o sindical e o político, com a FIT obtendo uma votação muito forte nas fábricas. Tal votação não é produto de um ascenso operário, mas do início da superação desta divisão histórica, com um caráter bastante político. Conseguimos obter nove deputados estaduais, dois senadores estaduais, e dezenas de municipais. Agora a tarefa é ligar a atuação destes parlamentares, como verdadeiros tribunos do povo, ligando-as com as demandas mais sentidas pelos trabalhadores e a luta de classes.
Na Bolívia, por sua vez, atuamos pela fundação do PT em base aos sindicatos, como via de dar voz política aos trabalhadores que romperam com Evo Morales, enquanto no Chile viemos avançando em confluir não apenas com o grandioso movimento estudantil da “juventude sem medo†, forjada nos últimos dois anos, como também com os trabalhadores, como os portuários que protagonizaram grandes greves neste ano. Nossos militantes também dão um combate importante para a conformação de uma organização revolucionária na França, com a intervenção no interior do NPA em que participamos da CCR junto a outros setores, que defende claramente a necessidade de um partido revolucionário. Estes são exemplos de onde partimos, mas não os tomamos para nos contentar com o que somos, e sim como uma fortaleza para avançar a tarefas internacionalistas superiores. Daí a importância do MIRS-QI.

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