Movimento Operário

Histórica greve do Hospital Universitário da USP

26 Jun 2014 | Entrevistamos Dinizete Xavier que foi trabalhadora do HU e atualmente é membro do comando de greve do Centro de Saúde Escola do Butantã.   |   comentários

Entrevistamos Dinizete Xavier que foi trabalhadora do HU e atualmente é membro do comando de greve do Centro de Saúde Escola do Butantã.

JPO: Há 19 anos o HU não entrava em greve, como está a mobilização entre os trabalhadores neste momento?

Aqui no HU a greve está sendo construída todos os dias, porque tem pessoas que nunca tiveram experiência de greve e os outros que já tiveram experiência estão há muito tempo sem fazer uma greve na saúde. Vários setores aderiram, porem tem alguns que precisam ser convencidos da necessidade dessa luta, mesmo assim as pessoas que saíram em greve estão dispostas também a lutar.
O hospital vem há anos sendo sucateado, está superlotado, não tem contratação, renovação de contratação, reposição dos quadros necessários e o reitor ainda barrou as contratações. Tinham pelo menos 3 médicos que estavam prontos pra entrar e acabaram sendo barrados, mandados para casa por ordem do reitor. As pessoas estão sobrecarregadas, existem muitas pessoas com LER-DORT por trabalhar em excesso, uma das pautas de reinvindicações é para que tenha a reposição de todos os quadros necessários.
Também tem a questão da desvinculação do hospital, todos os anos os reitores vem colocando que o hospital tem que ser a parte da universidade, porque dizem que o hospital dá muito gasto e a universidade não é obrigada a bancar toda a extensão, quem tem que bancar é o SUS. A gente diverge porque a intensão dos reitores é mandar o HU, ou para o município ou pra secretaria estadual de saúde, porem sabemos que ao desvincular da universidade, o hospital vai ser entregue para uma Organização Social de Saúde (OSS), no caso daqui a Fundação Faculdade de Medicina (FFM) que está dentro do Projeto Zona Oeste de saúde e ensino da região. Esse ponto foi crucial para fazer com que os trabalhadores da saúde entrassem em greve foi a não desvinculação do HU da USP.

JPO: Como a luta em defesa da saúde, dialoga com as necessidades da população?

O problema da saúde está muito grave no Brasil e a população sofre muito com isso. Por isso a gente está conversando bastante com a população, os trabalhadores do hospital foram várias vezes àSão Remo desde o inicio da greve, distribuindo materiais no metro Butantã como a carta aberta que diz àpopulação o motivo da nossa greve e chamando a população a apoiar. Há 30 anos que na região só tem o HU e a população vem crescendo sem que nenhum governo, nem estadual, nem municipal construa mais hospitais na região principalmente que atenda as urgências, cirurgias de urgência e emergência. Essa região fechou hospitais porque não tinham funcionários suficientes e a população ficou lá sem atendimento. No Centro de Saúde Escola Butantã (CSEB) estamos com um problema pois há uma proposta da municipalização, ou seja, separar o CSEB da universidade e entregar ao município para depois entregar para OSS. Para lutarmos juntos contra tudo isso estamos defendendo a proposta de convocar a população para fazer um grande Fórum Popular para discutir a saúde aqui na região oeste.

JPO: Como foi a história de luta dos trabalhadores e trabalhadoras no HU?

O HU foi o protagonista de uma greve depois de uma ditadura, ainda não tinham promulgado a constituição, mas teve uma ampla greve em 1988 por reinvindicações também específicas. Já naquele momento a maioria que estava mais mobilizada eram as trabalhadoras mulheres e a nossa reivindicação era que tivesse redução de jornada de 40 para 36hs, creche no local de trabalho, que as mulheres tivessem o direito de amamentar seus filhos no horário de trabalho, correção dos salários, porque estavam defasados. Lutávamos também para saber o que estava acontecendo com a verba do SUS que devia ter que ser repassada para o equipamento, o hospital, para os próprios trabalhadores na forma de uma cesta básica que ajudasse os trabalhadores e com essa pauta na mesa o HU foi o primeiro a sair em greve. Nessa época descemos até a Prefeitura do Campus, onde naquele momento os companheiros estavam acomodados nos seus setores, trabalhando como se nada tivesse acontecendo. Fizemos um arrastão dentro da prefeitura e tiramos os trabalhadores, em sua maioria homens, para fora e aí a greve foi crescendo, foi vitoriosa, tivemos mais de 80% de reajuste e conquistamos a creche no local de trabalho, a redução da jornada para 36hs e ainda expulsamos o superintendente.

De lá para cá, talvez por conta de muitas conquistas o HU não se organizou mais para as greves e chegou a ter uma organização em 1994, porem acabou não saindo em greve. Já em 1995 o HU entrou em greve junto com outros setores, mas a greve não cresceu, minguou e acabou sendo derrotada e isso provocou muitas represálias, mais de 200 trabalhadores foram demitidos e depois as pessoas ficaram anos a fio submetidos e sem conseguir se organizar. Eu mesma também fui punida pela greve, eu era do plantão noturno e tivemos companheiros que tiveram 8,10 dias descontados e eu mesma tive 20 dias de desconto, recebi advertência e fui processada. Depois de 95 continuamos lutando contra o diretor do HU, o fascista Tolosa.

JPO: Como você vê a situação de trabalho das mulheres na área da saúde?

As mulheres que trabalham na área da saúde são sobrecarregadas por ter que trabalhar em excesso, com a superlotação do hospital que leva a que elas adoeçam a ponto de muitas ficarem com problemas de saúde mental, se afastarem do trabalho por causa das lesões por esforços repetitivos e mesmo assim não deixam os pacientes abandonados. Tem a questão da pressão de que pelo fato de ser mulher, as chefias acham que você aguenta mais e temos que suportar o peso do hospital superlotado para um número ínfimo de trabalhadores que tem que dar conta de toda a necessidade do quadro de paciente. Por isso, a jornada não está mais a contento, 36h já não é mais uma jornada viável para as trabalhadoras da saúde e além disso carregamos a dupla jornada, ou seja, ainda temos que fazer os trabalhos domésticos como lavar, passar, criar os filhos etc., por isso, lutamos pela redução da jornada para 30 horas semanais inclusive para atender melhor os pacientes.


JPO: Como você vê a situação das mulheres que são usuárias do sistema de saúde?

No CSEB, onde trabalho atualmente, antes mesmo de iniciar a greve, a gente já estava com 500 mulheres aguardando o exame de Papa Nicolau que não podiam ser atendidas, pois os reitores não vem contratando o quadro necessário de enfermeiras. Quando iniciamos a greve já eram mais de 800 mulheres e a fila continua crescendo. Antigamente as técnicas podiam colher esse exame e a peãozada que não tinha ensino superior ralava duro, mas teve uma lei que dizia que apenas as enfermeiras poderiam colher o papa Nicolau, mas hoje no CSEB temos apenas 4 enfermeiras que precisam fazer vigilância epidemiológica, saúde da família e outros atendimentos e não vão conseguir colher o exame de 500 ou 800 mulheres. Por isso, estamos nessa luta para que o reitor contrate emergencialmente mais enfermeiras, pois senão vão inviabilizar várias outras atividades. Também tem a questão da farmácia que, pela legislação só permitem que sejam atendidos medicamentos de controle especial, que seria o atendimento de saúde mental, com a presença do farmacêutico, e por isso, estamos há anos reivindicando que seja contratado um novo farmacêutico e não estão contratando, porque o reitor barrou essas contratações.

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